Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

SOB O DOMÍNIO DE EROS - O EROTISMO NOS QUADRINHOS
Marco Aurélio Lucchetti



O erotismo faz parte do cotidiano de nossa sociedade. Ele está presente em: anúncios, livros, filmes, telenovelas, revistas – sejam essas revistas destinadas ao público masculino ou ao público feminino –, músicas, danças, coreografias de cheerleaders, imagens disponíveis na internet... e, como não poderia deixar de ser, nas histórias em quadrinhos.
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
 

E falar em erotismo nos quadrinhos exige falar também na mulher – e, conseqüentemente, em seu papel – nos quadrinhos, uma vez que ambos, erotismo e mulher, estão intimamente ligados nas histórias em quadrinhos. Na verdade, a história do erotismo nos quadrinhos confunde-se com a própria história da mulher nos quadrinhos.
Senão, vejamos...
A História em Quadrinhos existe há pouco mais de cem anos; e, em suas primeiras décadas de existência, pouca ou nenhuma importância dava às figuras femininas. Isso porque os papéis relevantes das histórias eram ocupados por crianças, animais e, em alguns casos, homens. Portanto, o erotismo era algo totalmente inexistente nos quadrinhos.
Foi somente na década de 1910 e principalmente após o término da Primeira Guerra Mundial que se assistiu, nos Estados Unidos, ao surgimento de diversas histórias em quadrinhos em que apareciam garotas frívolas e maliciosas como Polly (1912) e Nora, a filha de Pafúncio e Marocas (Jiggs e Maggie, no original); jovens trabalhadoras como Winnie Winkle (1920) e Tillie (surgida em 1921, essa personagem ficou conhecida no Brasil com o nome de Ditinha); candidatas ao estrelato como Dixie Dugan (aparecida em 1929, seu maior mérito era ter o rosto semelhante ao da atriz mais erótica dos anos 1920: Louise Brooks, a Lulu do filme A Caixa de Pandora) e Betty Boop (1934), a primeira personagem dos quadrinhos a ser censurada (em 1937, suas histórias deixaram de ser publicadas por causa da pressão da Liga da Decência, que achava que ela aparecia muito pouco vestida); simpáticas donas-de-casa como Blondie (1930), figura principal da história em quadrinhos que, durante mais de quarenta anos (do ano de seu aparecimento até 1973, ano da morte de seu criador, Chic Young), melhor retratou a vida de um casal de classe média dos Estados Unidos.
Nessa época, o erotismo nos quadrinhos era ingênuo, inocente. Exemplificando: o máximo de imagem erótica que se tinha nos quadrinhos era Pafúncio numa praia olhando para uma bela e charmosa banhista, ou a princesa Jada (personagem surgida em 1928 na série Wash Tubbs) usando saias e vestidos curtíssimos que deixavam suas pernas torneadas à mostra. Mas, entre 1934 e meados da década de 1950, quando se intensificaram a produção e a publicação de histórias em quadrinhos de Aventura, surgiu um novo tipo de personagem feminina nos quadrinhos norte-americanos: a mulher decidida a viver uma vida repleta de aventuras. Foi o período em que apareceram Dale Arden, a princesa Narda, Lois Lane, Ellen Dolan, Honey Dorian e outras “noivas eternas” de heróis; heroínas como Sheena, Rulah, Tigrana (Tiger Girl, no original), Camilla, Amazona dos Cabelos de Fogo (Firehair, no original), Mysta e Futura, que viviam nos locais mais inóspitos da Terra ou do espaço; super-heroínas como a Mulher-Maravilha (Wonder Woman, no original); combatentes do crime como Miss Masque, Loura Fantasma (Blonde Phantom, no original) e Phantom Lady [personagem perseguida implacavelmente pelo psiquiatra Frederic Wertham, que, no livro Seduction of the Innocent (1954), defendia uma tese absurda: a leitura de quadrinhos leva ao mundo do crime, sobretudo se seus leitores forem crianças e adolescentes]; vilãs como Dragon Lady e P’Gell, que usavam todas as armas de que dispunham, inclusive a sedução, para conseguir o que desejavam.
Por conseguinte, foi também um período em que se produziram inúmeras imagens de intenso erotismo: a bad woman Grace Powers, sentada num sofá, tentando seduzir com seus olhares lânguidos o agente Phil Corrigan (Agente Secreto X-9, 1934); a princesa Narda usando um traje de odalisca (Mandrake, 1934); a loura Joan Peters, com a camisa rasgada e com boa parte de seus seios à mostra, lutando com uma sacerdotisa chinesa (Jim das Selvas, 1935); O Fantasma, o primeiro herói mascarado dos quadrinhos, beijando ardorosamente Diana Palmer (O Fantasma, 1936); várias fora-da-lei (dentre essas fora-da-lei destaca-se Sala, pertencente ao bando dos Piratas do Céu) assediando O Fantasma e procurando despertar-lhe os instintos adormecidos; Pat Ryan e Burma beijando-se ardentemente, após uma discussão (Terry e os Piratas, 1936); Aleta, a rainha das Ilhas das Névoas, dançando descalça e com um sorriso de satisfação no rosto, sob o olhar de cobiça de um grupo de ferozes tuaregues (Príncipe Valente, 1945); Dale Arden, vestida sempre com trajes sedutores, “desfilando” pelo exótico planeta Mongo (Flash Gordon); Sheena e suas congêneres, escassamente vestidas, andando ou correndo pelas selvas africanas; encantadoras princesas (todas donas de grandes olhos negros) tentando conquistar Tarzan e, com isso, deixando evidente o quanto “a carne é fraca” (Tarzan, de Burne Hogarth)...
Foi nesse período também que apareceram a inglesinha Jane (conhecida no Brasil como Jane Pouca Roupa, em virtude de estar sempre se desnudando) e Miss Lace (1943), protagonistas de histórias que tinham como leitmotiv o erotismo.



Agente Secreto X-9 (1934)


Mandrake (1934)


Jim das Selvas (1934)




O Fantasma (1936)


Terry e os Piratas (1936)


Flash Gordon (1939)


Príncipe Valente (1945)




Jane

Criada em 1932 por Norman Pett, Jane tornou-se, durante a Segunda Guerra Mundial, a pin-up preferida dos soldados ingleses e foi chamada de “a arma secreta britânica”. Quanto a Miss Lace, uma criação do norte-americano Milton Caniff, era mostrada quase sempre usando roupas sensuais e foi a personagem principal de Male Call, uma história em quadrinhos destinada a distrair os soldados estadunidenses no front.