Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

A HISTÓRIA DOS PEQUENOS ESTÚDIOS INDEPENDENTES DE HOLLYWOOD
MONOGRAM PICTURES CORPORATION
Divino Rodrigues da Silva



INTRODUÇÃO

Entre o começo da década de 1930 e o final dos anos 1950, diversas produtoras norte-americanas independentes de filmes, conhecidas como estúdios da poverty row (fileira da pobreza), produziram centenas de filmes “B”, produções de baixo orçamento que se destinavam especificamente a ser a primeira parte dos programas duplos dos cinemas naqueles tempos.
Este artigo é sobre uma dessas companhias independentes: a Monogram Pictures Corporation.

 

RESUMO HISTÓRICO

Ao produto da Monogram geralmente é dispensada pouca atenção, quase nunca sendo mencionado pelos historiadores de Cinema. Isso é um fato até compreensível, já que a maior parte da produção da Monogram era barata, vulgar e perfeitamente esquecível. Porém, durante duas décadas, o estúdio conseguiu prosperar, ao fornecer aos exibidores uma sólida oferta de filmes do tipo “arroz com feijão” (faroestes, comédias, melodramas), muitos produzidos de forma tão barata que não deixavam de dar um certo lucro. Embora longe de ser a melhor produtora independente, a Monogram, ainda assim, produzia um bom número de películas interessantes (deve ser ressaltado que, apesar de interessantes, esses filmes não possuíam qualquer mérito artístico). E, mais do que muitos outros estúdios da poverty row, a Monogram se especializou em séries, incluindo-se entre elas a dos Bowery Boys (conhecidos aqui no Brasil como Os Anjos de Cara Suja), inspirada num famoso filme da Warner, Anjos de Cara Suja (Angels with Dirty Faces, 1938), e a do detetive oriental Charlie Chan (criado pelo escritor Earl Derr Biggers), que, na época, também estava presente nos Quadrinhos, em histórias desenhadas por Alfred Andriola e produzidas para os jornais dos Estados Unidos.


Anjos de Cara Suja

A Monogram originou-se de uma pequena companhia independente chamada Rayart Productions, formada no verão de 1924 e cujo nome homenageava seu fundador, W. Ray Johnston. Westerns, melodramas e seriados foram distribuídos sob o selo da Rayart até 1929, muito embora a companhia tivesse se transformado na Syndicate Film Exchange em 1928. Quando chegaram os filmes sonoros, a Syndicate produziu cinco filmes sob a marca de Continental Talking Pictures (1929-1930).
A Syndicate tornou-se Monogram Pictures em 1931. Então, Johnston, que atuava como presidente, colocou Trem Carr, que havia produzido alguns filmes da Continental, no cargo de produtor.
Os primeiros lançamentos da Monogram eram em geral indistinguíveis, se comparados com o que estava sendo oferecido pelas outras companhias cinematográficas independentes da época (Chesterfield, Ambassador-Conn, Liberty, Mascot, Majestic, Sono Art, Invincible, World Wide, entre outras); a maioria de suas películas eram faroestes e melodramas baratos. Diversas produções economizavam dinheiro, aproveitando cenas de arquivos de outros filmes. Por exemplo: Law of the Sea (1932) e Jungle Bride (1933) usavam cenas de filmes mudos (títulos desconhecidos) nas seqüências mais longas de ação, enquanto The Girl from Calgary (1932) aproveitava números musicais bem-feitos de The Great Gabbo, uma fita produzida em 1930 pelas companhias Sono Art e World Wide.

The Girl From Calgary
O Décimo Terceiro Convidado

Os lançamentos mais importantes da Monogram naquele período foram, entre outros: O 13º Convidado (The Thirteenth Guest, 1932), um interessante thriller de mistério estrelado por Ginger Rogers (poucos anos mais tarde, ela se tornaria famosa ao fazer par com Fred Astaire numa série de musicais); uma variedade de westerns (westerns esses produzidos pela Lone Star Productions e tendo John Wayne como ator); e adaptações de romances clássicos como Oliver Twist (1933), Beleza Negra (Black Beauty, 1933) e Jane Eyre (1934).
Em 1935, um grande laboratório, o Consolidated Film Laboratories, que produzia efeitos óticos e cujo dono era Herbert J. Yates, fundiu-se com a Monogram e a Mascot Pictures, cujo proprietário era Nat Levine. A empresa surgida dessa fusão, a Republic Pictures Corporation, também assumiu as companhias independentes Majestic Pictures e Liberty Pictures. O selo da Monogram foi eliminado, e a Republic incorporou suas operações de distribuição. W. Ray Johnston e Trem Carr se tornaram diretores executivos da nova empresa.
Em 1936, conflitos internos dentro da organização resultaram na saída de Johnston e Carr da empresa (dizia-se que Carr brigava freqüentemente com Yates, que era o principal acionista da Republic). Em novembro de 1936, divulgava-se nos jornais ligados à indústria cinematográfica que Johnston e Carr iam reabrir a Monogram. E, em novembro de 1937, eles conseguiram retomar as operações, com Johnston atuando como presidente e Carr como diretor executivo a cargo da produção. A adoção de um programa de operações mais ambiciosas aumentou o número de lançamentos para uma média de quarenta filmes por ano (antes da fusão, a Monogram lançava entre vinte e trinta filmes por ano). Então, foi feito um esforço concentrado para oferecer séries aos exibidores; e foi neste campo que a Monogram realmente teve sucesso. Estrelas adolescentes como Jackie Moran e Marcia Mae Jones foram reunidas para uma série de aventuras juvenis; Kane Richmond interpretava O Sombra, personagem que fazia sucesso nas revistas pulp, no rádio e nas histórias em quadrinhos; Frankie Darro estrelava uma série de filmes (com muita ação) que geralmente o reunia ao comediante negro Mantan Moreland; o romeno Duncan Renaldo e o mexicano Gilbert Roland foram vistos diversas vezes como o galante e charmoso cowboy Cisco Kid; Raymond Walburn fazia o papel de Henry Latham, numa série de comédias familiares; Johnny Sheffield, que foi visto como Boy em vários filmes de Tarzan, dava vida a Bomba, o garoto da selva; Freddie Stewart, June Preisser, Noel Neill (futura Lois Lane num dos seriados do Super-Homem) e Warren Mills apareciam numa série de comédias musicais destinada ao público adolescente... Todos estes nomes citados podem não ter qualquer significado hoje, mas eram bastante populares nas décadas de 1930 e 1940.
Boris Karloff e depois Keye Luke estrelaram a série de Mr. Wong, a resposta da Monogram aos filmes de Charlie Chan, que eram produzidos pela Fox. E o personagem Charlie Chan acabou se tornando propriedade da Monogram, com Sidney Toler e, mais tarde, Roland Winters interpretando o criminologista chinês.
Deve ser destacado que os westerns eram o esteio das produtoras independentes; e a Monogram oferecia séries estreladas por Johnny Mack Brown, Tex Ritter, Jack Randall, Tom Keene, Jimmy Wakely, Whip Wilson, pelos Range Busters (interpretados na maioria dos filmes por Ray “Crash” Corrigan, John “Dusty” King e Max “Alibi” Terhune), pelos Rough Riders (Buck Jones, Tim McCoy e Raymond Hatton) e pelos Trail Busters (Ken Maynard, Hoot Gibson e Bob Steele). Vale lembrar que todos os nomes aqui citados, assim como muitos outros, conhecidos na época como “mocinhos das matinês de fins de semana” (essas matinês eram freqüentadas por garotos e garotas e até mesmo por adultos), desfrutavam de grande popularidade naquela época e, ainda hoje, são lembrados com carinho por aqueles freqüentadores dos cinemas das décadas de 1940 e 1950.
A série mais duradoura da Monogram foi a dos já citados Os Anjos de Cara Suja, que garantiu empregos de longa duração para seus integrantes mais constantes, Leo Gorcey e Huntz Hall.
Harry Langdon, Kay Francis e Bela Lugosi estavam entre os distintos atores e atrizes cujas carreiras em declínio os obrigaram a aparecer nos filmes baratos da Monogram.
Em 1945, Steve Broidy, antigo gerente geral de vendas, foi eleito presidente da Monogram, com W. Ray Johnston se tornando presidente da junta diretora. Em novembro de 1946, a Allied Artists Productions, Inc. foi formada como subsidiária da Monogram, para cuidar exclusivamente da produção de filmes de maior orçamento. Era intenção da companhia produzir e distribuir os filmes mais caros sob o selo da Allied Artists, enquanto o produto habitual de baixo orçamento teria o selo da Monogram. Embora a Allied Artists fosse tratada como uma entidade no início, a qualidade e o conteúdo de sua produção logo ficaram iguais às dos filmes produzidos pela Monogram, de modo que, no final das contas, não havia qualquer diferença real entre as duas companhias.
Em 1953, a Monogram decidiu mudar sua imagem de empresa produtora de filmes “B” de baixo orçamento. Assim, o nome jurídico foi alterado de Monogram Pictures Corporation para Allied Artists Corporation, muito embora continuasse a produzir grande quantidade de filmes de baixo orçamento, o que contrariava o desejo da companhia, que, desesperadamente, ansiava ter maior prestígio.
A Allied Artists continuaria a produzir filmes até meados dos anos 1960, quando então se afastou da atividade de produção e concentrou-se nas atividades de distribuição de filmes e encarregou-se da venda de produtos para a televisão.
No início da década de 1970, a Allied Artists voltou novamente a produzir filmes e foi responsável por fitas como Cabaret (Cabaret, 1972) e O Homem Que Queria Ser Rei (The Man Would Be King, 1975), dirigidos respectivamente por Bob Fosse (1927-1987) e John Huston (1906-1987).

Cabaret
O Homem Que Queria Ser Rei

O estúdio faliu no final dos anos 1970.
Resta dizer que qualquer pessoa se sentiria desencorajada de defender os filmes produzidos pela Monogram, já que a maior parte desses filmes era de segunda qualidade e realizada por gente cujo único interesse era obter lucro fácil. Porém, por mais inepta que fosse a maioria de seus filmes, a Monogram aparentemente atraía as platéias, já que conseguia obter sucesso onde tantas outras produtoras independentes haviam fracassado. E, ainda que a maioria de seus filmes não mereça uma segunda (ou até mesmo uma primeira) olhada, eles devem ser reconhecidos e catalogados – e assim o foram em nossa revista Matinê.

 

Divino Rodrigues da Silva é professor de Inglês e editor da revista Matinê