Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

AS HISTÓRIAS DE FANTASMAS DE M. R. JAMES
H. P. Lovecraft
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



(...) dotado de um poder quase demoníaco para suscitar o horror, fazendo-o emanar da vida diária mais prosaica. É assim que podemos definir Montague Rhodes James, que assina suas histórias com o nome de M. R. James.
Reitor de Eton e reconhecida autoridade no terreno dos manuscritos medievais e a história das catedrais, M. R. James tornou-se um dos melhores autores da literatura sobrenatural e desenvolveu um estilo distinto e um método peculiar que possivelmente servirão de modelo para uma longa linhagem de discípulos.
A arte de M. R. James não é de maneira alguma acidental; e, no prefácio de uma antologia de seus contos, ele enunciou as três regras fundamentais para se escrever uma história macabra. Em sua opinião, um relato fantástico deve ter como cenário um ambiente moderno e familiar, para estar o mais próximo possível da esfera das experiências dos leitores. Além disso, os fenômenos espectrais devem ser mais maléficos que benéficos, já que o medo é a emoção a ser suscitada em primeiro lugar. E, finalmente, o jargão técnico do “ocultismo” ou da pseudociência deve ser cuidadosamente evitado, para não afogar o encanto da verossimilhança em um pedantismo inconvincente.
Aplicando o que prega, M. R. James escreve suas histórias com um tom despreocupado e, na maioria das vezes, coloquial. Narrando acontecimentos realmente corriqueiros, introduz os fenômenos anormais aos poucos e cautelosamente (...). Consciente da íntima relação entre os elementos sobrenaturais do tempo presente e a tradição acumulada ao longo dos séculos, geralmente apresenta antecedentes históricos aos fatos narrados, o que lhe possibilita utilizar com muita propriedade seu vasto conhecimento do passado (...). O cenário predileto de M. R. James são certas catedrais seculares, que consegue descrever minuciosamente e com a familiaridade própria de um especialista nesse campo.
Nas narrações de M. R. James encontramos freqüentemente uns traços de malicioso humor e uns retratos e caracterizações muito vivos, que em suas mãos competentes servem para ampliar o efeito geral em vez de comprometê-lo, como ocorreria com um autor menos engenhoso.
Inventando um novo tipo de fantasma, M. R. James se afasta consideravelmente da tradição do gótico convencional; pois, enquanto os velhos fantasmas eram pálidos, imponentes e percebidos principalmente pelo sentido da visão, os fantasmas criados por M. R. James são mais baixinhos, franzinos e peludos – verdadeiras abominações infernais, uma mistura de ser humano e animais. E, em geral, são mais apalpados do que vistos. Às vezes, a compleição desses espectros é ainda mais insólita: um rolo de flanela com os olhos de aranha ou uma entidade invisível que se molda em roupa de cama e exibe uma cara de lençol amassado.
É evidente que M. R. James possui um conhecimento preciso dos nervos e sentimentos humanos; e sabe usar com exatidão as palavras, as imagens e as sugestões sutis, a fim de assegurar os melhores resultados junto a seus leitores. É um verdadeiro mestre para criar incidentes e artifícios – e não tanto para criar atmosfera. E atinge a emoção mais vezes pelo intelecto que diretamente. É claro que este método, com a ausência ocasional de um clímax definido, tem seus inconvenientes tanto quanto suas vantagens; e muitos leitores sentirão falta da eletrizante atmosfera que escritores como Arthur Machen, autor do famoso The Great God Pan (1894), têm o cuidado de construir com palavras e cenas. Mas somente alguns poucos contos de M. R. James pecam pela insipidez. Em geral, a descrição engenhosa (embora lacônica) dos eventos sobrenaturais é suficiente para produzir o desejado efeito de um horror acumulativo.

Os contos de M. R. James estão reunidos em quatro pequenos volumes: Ghost Stories of an Antiquary (1904), More Ghost Stories of an Antiquary (1911), A Thin Ghost and Others (1919) e A Warning to the Curious (1925). Ele também escreveu uma deliciosa fantasia juvenil, The Five Jars. E, dentre essa riqueza de material, é difícil selecionar um conto predileto ou especialmente típico. Mas cada leitor irá encontrar sua história preferida, de acordo com seu gosto.

 

Este texto foi traduzido do livro Supernatural Horror in Literature, de H. P. Lovecraft