Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

UMA HISTÓRIA DE FANTASMA (A SCHOOL STORY)
M. R. James
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



Numa sala para fumantes, dois homens conversavam sobre seus tempos de escola.
– Em nossa escola, – disse um deles, – tínhamos uma pegada de fantasma na escadaria. Com que ela se parecia? Se não me falha a memória, tinha o formato de um sapato, com a ponta quadrada. Ah, a escadaria era de pedra. Nunca ouvi ninguém comentar o caso, que sempre me pareceu estranho.
– Há uma tese que acho que vai lhe interessar. Ela relata esse tipo de casos. Intitula-se “O Folclore dos Internatos”.
– É claro que me interessa. Só que eu penso que, se investigarem os relatos de fantasmas que os estudantes contam entre si, chegarão à conclusão de que não passam de versões resumidas de histórias de ficção publicadas nos livros.
– Ou em magazines como Strand e Pearson’s.
– Sem dúvida. Mas deixe eu me lembrar de algumas histórias de fantasmas que contavam na minha época. Uma delas era a da casa com um quarto em que as pessoas insistiam em passar a noite; pela manhã, elas eram encontradas ajoelhadas num canto e tinham apenas tempo de dizer: “Eu vi.” E, então, morriam.
– Não era a casa de Berkeley Square?
– Creio que sim. Também contavam o caso do homem que, ao ouvir, à noite, um barulho no corredor, abriu a porta e viu alguém engatinhando em sua direção e com os olhos fora das órbitas. Havia ainda... deixe-me pensar... Sim! A história do quarto onde um homem foi encontrado morto na cama e com a marca de uma ferradura na testa. Embaixo da cama também foram encontradas diversas marcas de ferradura. Outra história era a da mulher que, no primeiro dia em sua nova casa, ao fechar a porta do quarto, ouviu, vinda de trás da cortina, uma voz fraca dizer: “Passaremos a noite juntos.” Nenhuma dessas histórias teve qualquer explicação. Gostaria de saber se elas ainda são contadas.
– Certamente que são, e com acréscimos tirados das revistas. Mas alguma vez já ouviu falar na aparição de um fantasma verdadeiro em algum internato? Acho que não. Pelo menos nunca encontrei alguém que tivesse.
– A julgar pelo modo como fala, eu penso que já teve alguma experiência com o sobrenatural.
– Digamos que foi um caso estranho. Ele nunca me saiu da cabeça. Aconteceu no meu colégio... trinta anos atrás.



O colégio era próximo de Londres. Fora fundado numa casa ampla e razoavelmente antiga. Era um edifício branco, e à sua volta viam-se somente terrenos aprazíveis. A exemplo do que ocorre em muitas das propriedades mais antigas que existem no vale do Tâmisa, no jardim havia largos cedros e velhos olmos nos três ou quatro campos que usávamos para nossos jogos. Acredito que era um lugar encantador; porém, os garotos raramente admitem que suas escolas não possuem algum defeito.
Fui para lá em setembro, num ano qualquer depois de 1870; e entre os garotos que chegaram no mesmo dia havia um com quem simpatizei no primeiro instante. Ele era dos Países Baixos, e vou chamá-lo de McLeod. Não perderei tempo em descrevê-lo, só vou dizer que o conheci intimamente. De modo algum poderia ser considerado excepcional, quer nos estudos ou nos esportes; entretanto, era uma boa companhia.
O colégio tinha uma média de 120 a 130 alunos e contava com um corpo docente numeroso.
Um de meus professores chamava-se Sampson. Era bastante alto, um tanto corpulento, pálido e tinha uma barba escura. Gostávamos dele. Viajara muito e, durante nossos passeios, contava histórias divertidas e interessantes. Chegávamos a brigar para saber quem iria ficar perto dele e poder escutá-lo contar suas histórias. Recordo-me de que Sampson tinha um amuleto preso à corrente de seu relógio de bolso. Esse amuleto atraía tanto minha atenção que, certo dia, pedi permissão para examiná-lo. Era, eu suponho, uma moeda do período bizantino. Fora adquirida em Constantinopla e tinha o mesmo tamanho de um florim, ou talvez fosse um pouco menor. Num dos lados, havia a efígie de algum ridículo imperador. No outro, que já estava bastante gasto, o professor traçara grosseiramente suas próprias iniciais, G. W. S., e uma data, 24 de julho de 1865.
Bem, o primeiro fato estranho que ocorreu foi o seguinte... Sampson lecionava Gramática Latina. E seu método preferido, ou seja, o método que ele achava que os alunos teriam mais facilidade para memorizar a matéria, consistia em fazer com que construíssemos orações empregando as regras gramaticais que nos ensinava. Um dia, quando nos falava a respeito de como criar em Latim frases com a palavra lembrança e suas congêneres, pediu que cada um de nós construísse uma oração usando o verbo memini. Logicamente, a maioria dos alunos criou frases banais, tais como “eu me lembro” ou “ele se lembra de seus livros”. Daí, cada um escreveu sua frase no caderno e entregou-o para Sampson. A única exceção foi McLeod. Ele queria construir uma oração mais elaborada, menos comum. Como desejávamos passar para outro ponto da matéria, dávamos pontapés em sua carteira, a fim de apressá-lo. Eu, que estava mais próximo dele, cutuquei-o e sussurrei-lhe para se apressar. Porém, McLeod pareceu não ligar. Cutuquei-o com mais força e repreendi-o duramente por nos fazer perder tanto tempo. Isso surtiu efeito, porque ele pareceu despertar de um transe. Então, rabiscou algumas linhas no caderno e entregou-o a Sampson. O professor teve de conversar com vários alunos que construíram frases totalmente erradas. Assim, meio-dia chegou; e o sinal tocou. Todos saíram da sala, menos McLeod, que ficou esperando sua frase ser corrigida. Quando, enfim, meu amigo saiu da sala, indaguei-lhe:
“Então? Como foi?”
Ele respondeu:
“Não muito bem, eu acho. O Sampson ficou zangado comigo.”
“Ele ficou zangado com você?! Por quê? Que foi que você escreveu, afinal?”
“Minha frase foi: ‘Memento putei inter quattuor taxos.’
“Hein?! De onde tirou isso? Que significa?”
“O engraçado é que não tenho idéia. Só sei que me veio à cabeça e corri escrevê-la no caderno. Mas acho que sei o que significa, já que, antes de escrevê-la, formou-se em minha mente uma espécie de imagem. Creio que significa o seguinte: ‘Lembra-te do poço entre os quatro...’ Como se chamam essas árvores escuras com frutos vermelhos?”
“Sorva?”
“Não, não. Ah, lembrei: teixo. Sim, isso mesmo: teixo. Minha frase foi esta: ‘Lembra-te do poço entre os quatro teixos?’
“Certo. Mas que lhe disse Sampson?”
“Após ler a frase, levantou-se e encostou-se à lousa. Ficou ali durante um bom tempo, sem dizer uma só palavra. Depois, perguntou-me se eu tinha idéia do que escrevera. Então, falei o que eu imagino que a frase quer dizer em Inglês. Só não consegui lembrar o nome da tal árvore. A seguir, Sampson quis saber por que eu tinha escrito aquilo e começou a fazer perguntas a respeito de minha vida pessoal. Perguntou-me, por exemplo, há quanto tempo estou aqui, onde vivem meus pais... Quando saí da sala, ele não estava com uma cara muito boa.”
Não me lembro do que McLeod falou a seguir. Só recordo que, no dia seguinte, ele pegou um resfriado muito forte ou coisa parecida. Ficou de cama e só pôde voltar a freqüentar as aulas após uma semana.
Um mês inteiro se passou, e não houve mais incidente algum nesse período. Se Sampson se zangara com a frase de McLeod, não demonstrava.
Então, aconteceu. Foi num dia em que tínhamos de construir orações condicionais que expressassem conseqüências futuras. Bem ou mal, fizemos o que nos fora pedido e entregamos os cadernos. Sampson imediatamente começou a ler nossas frases. De repente, fez um ruído estranho com a garganta, levantou-se e deixou a sala. Após uns dois minutos, também nos levantamos; e dois colegas e eu atrevemo-nos a olhar os cadernos que Sampson abandonara em cima da mesa. A princípio, imaginei que tivesse ido dar parte à diretoria de algum absurdo escrito por um dos alunos. Porém, quase no mesmo instante, lembrei-me de que ele não levara consigo nenhum dos cadernos. Foi aí que vi em cima dos cadernos um que tinha uma frase escrita com tinta vermelha. Ora, ninguém na sala usava tinta daquela cor; e a caligrafia não se assemelhava à de nenhum de nós. Contei os cadernos. Havia dezessete, e éramos apenas dezesseis alunos na sala. Arranquei a folha em que estava escrita a frase. Conservo-a até hoje comigo. Quer saber qual era a frase? Era a seguinte: “Si tu non veneris ad me, ego veniam ad te.” Que pode ser traduzida assim: “Se não vieres a mim, eu irei até ti.”
Cerca de meia hora mais tarde, Sampson voltou para a sala. Disse que tinha se sentido mal e nos dispensou. Quando eu estava saindo, percebi que seus olhos estavam fixos nos cadernos, parecendo procurar o caderno com a folha que eu arrancara. A julgar pela expressão de seu rosto, devia estar imaginando que havia sonhado tudo aquilo.
Mas ainda existe outro detalhe estranho a respeito da tal folha de papel. Naquela mesma tarde, quando a tirei de dentro de minha carteira, não havia mais nada escrito nela. A frase se apagara por completo. Como eu disse, conservo até hoje a folha comigo; e confesso que não sei como a tinta se apagou.
Na noite do dia seguinte, ocorreu o quarto incidente estranho de minha história.
Nós, McLeod e eu, dormíamos num quarto do edifício principal da escola. Os aposentos de Sampson eram nesse mesmo prédio, no primeiro andar. Por volta de uma hora da manhã, fui acordado por alguém que me sacudia. Era McLeod, num estado de grande agitação.
“Acorde! Acorde!” Falava ele. “Há um homem entrando pela janela do quarto de Sampson.”
“Chamou os outros?” Indaguei, assim que despertei por completo. “Chamou mais alguém?”
“Não chamei mais ninguém, porque não tenho certeza de quem possa ser o tal homem. Venha e olhe!”
Levantei-me, atravessei o quarto e olhei pela janela. Não vi ninguém. Bastante aborrecido por ter sido acordado de forma tão abrupta, eu poderia xingar McLeod; mas não o fiz, sentindo que em tudo aquilo havia algo muito estranho.
Então, perguntei para McLeod, enquanto continuava olhando na direção da janela do quarto de Sampson, que estava iluminada por uma brilhante lua cheia:
“Que você viu e ouviu?”
“Não ouvi nada. Apenas olhei pela janela e vi um homem sentado ou ajoelhado no peitoril da janela de Sampson.”
“Como era esse homem?”
“Era muito magro e parecia todo molhado. E não sei ao certo se estava... vivo...”
McLeod e eu continuamos conversando por mais algum tempo, aos cochichos. Depois, fomos dormir.
No dia seguinte, Sampson não foi encontrado. Ele desaparecera por completo, sem deixar vestígio. McLeod não falou para pessoa alguma o que vira naquela noite, já que achava que ninguém iria acreditar nele.



– Bem, essa é minha história de fantasma num internato.



Há uma continuação para tal história. É a seguinte:
Certa noite, um ano mais tarde, o dono de uma casa de campo na Irlanda pegou uma caixa, abriu-a e, tirando algo de dentro dela, perguntou a um homem que o visitava:
– Você, que conhece objetos antigos, sabe dizer o que é isto?
O visitante tomou o objeto nas mãos, examinou-o detidamente e respondeu:
– É uma moeda de ouro. Parece ser do período bizantino.
– Tem idéia de como a encontramos? Viu os quatro teixos que temos no jardim? Bem, ali também havia um poço. Há uns dois anos, quando limpávamos o poço, logo após nos mudarmos para cá, encontramos um... sabe o quê?
– Um cadáver?! – Arriscou o visitante, sentindo um calafrio percorrer-lhe a espinha.
– Na verdade, encontramos dois cadáveres.
– Nossa! Dois cadáveres?!
– Sim. E a moeda estava entre os andrajos que cobriam um dos corpos. Qualquer que seja a história envolvendo esses dois cadáveres deve ser uma das mais horrendas. Um cadáver apertava a garganta do outro. Creio que estiveram ali por mais de trinta anos... Logicamente aterramos o poço. Ah, uma coisa: consegue ler o que está escrito num dos lados da moeda?
– Creio que sim.
E, aproximando a moeda da luz, o visitante leu sem grande dificuldade:
– G. W. S., 24 de julho de 1865.