Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

A GRAÇA DE HELENA DE TRÓIA
John Addington Symonds
tradução: T. G. Novais



Helena de Tróia é uma dessas criações ideais da fantasia sobre as quais o tempo, o espaço, as circunstâncias (...) não exercem nenhuma ação. É impossível deixar de concebê-la como invariavelmente bela e invariavelmente moça, apesar de tudo o que ela sofreu nas mãos de Afrodite (a deusa do amor e da beleza) e nas mãos dos homens. Ela perpassa pela lenda heróica da Grécia como desejada por todos os homens e possuída por alguns. Teseu raptou-a de Esparta, quando ela era ainda criança. Seus irmãos, os Dióscuros, Castor e Pólux, foram-na tirar a Teseu, trazendo a mãe deste, Etra, que fizeram escrava de Helena. Então, todos os jovens da Hélade se tornaram pretendentes de seu amor, considerando-a a mais bela moça do mundo. Por fim, foi dada em casamento a Menelau, de quem concebeu sua única filha terrestre, Hermíone. Páris, auxiliado por Afrodite, fez-se amar por Helena e fugiu com ela para o Egito e para Tróia. Em Tróia, Helena habitou por mais de vinte anos e, depois da morte de Páris, casou com Deífobo. Quando findou a guerra a que tinha dado origem, a Guerra de Tróia, Helena reconciliou-se com Menelau e foi levada para a Lacedemônia. (...) Nem mesmo depois de morta, Helena deixou de intervir nos amores. O grande Aquiles, que em vida a tinha amado por ouvir falar de sua beleza (mas nunca a vira realmente), raptou-a do reino das sombras e levou-a para as Ilhas Bem-Aventuradas, onde tiveram um filho, Euforião. E, em todas estas aventuras, Helena conserva um frescor, uma misteriosa virgindade da alma. Não a comove a paixão que ela inspira, nem a ruína dos impérios destruídos por sua causa. Não a fanou o destino, nem os anos empanaram a magia de seu encanto. Como beleza, pertence a todos e a ninguém. Não é julgada como as esposas e como as mães, ainda que tenha sido ambas as coisas; (...) e todos os olhos se deslumbram ante sua graça adorável, a graça de que Afrodite a envolveu no dia de seu nascimento.

 

Este texto foi traduzido do livro Studies of the Greek Poets volume 1 (1880), de John Addington Symonds