Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

EM BUSCA DOS FILMES PERDIDOS NA MEMÓRIA
Aurélio P. Cardoso



“Há filmes que vi oito, até quinze vezes. É possível viver sem Hitchcock e Rossellini?”
Frases extraídas do filme Antes da Revolução (Prima della Rivoluzione, 1964), de Bernardo Bertolucci

 

Enigma de Uma VidaTenho um amigo que sempre me perguntava se tenho notícias de um filme dos anos 1960. Ele não sabia o nome do filme. Só sabia que era com Burt Lancaster e citava uma das cenas, em que um homem quer chegar em casa nadando através das piscinas dos vizinhos. Por fim, consegui desvendar o mistério para ele. Disse-lhe que o tal filme é um clássico e se chama Enigma de uma Vida (The Swimmer, 1968) – a respeito dele, o crítico Rubens Ewald Filho disse o seguinte no livro Os Filmes de Hoje na TV (São Paulo, Global, 1975, p. 71): “Drama simbólico baseado em conto de John Cheever. Lancaster nada através das piscinas da vizinhança até sua casa, encontrando vários tipos e passando por várias fases de sua vida. O filme é obscuro porque foi remontado pelo produtor (Sydney Pollack refez a seqüência com a amante). A censura deixou passar a nudez de Lancaster.” Esse meu amigo me confessou que o filme o havia impressionado e queria vê-lo de novo de qualquer maneira. Dei-lhe, então, uma notícia não muito boa: Enigma de uma Vida não havia sido lançado em DVD; e os canais de tevê (pelo menos os canais da tevê aberta) não tinham interesse em exibi-lo, já que era em preto-e-branco.
Também não cheguei a ver por inteiro Enigma de uma Vida. Assisti a apenas algumas partes em algum Corujão na década de 1980. Mas a obsessão do meu amigo em vê-lo me intrigou. E, hoje, também quero ver Enigma de uma Vida.
Recentemente, outro conhecido citou um trecho de um filme que considera maravilhoso, contando detalhes de uma cena com o ator Marcello Mastroianni. Demorei para decifrar o nome de tal filme, pois não o apreciara muito. É Olhos Negros (Oci Ciornie, 1987), do diretor soviético Nikita Mikhalkov, irmão do também cineasta Andrei Mikhalkov-Konchalovsky. Para não melindrar meu amigo, falando mal de tal obra, que alinhava vários contos do escritor russo Anton Tchekov, disse que não a tinha visto. Meu amigo então me emprestou a fita, que até hoje está comigo e preciso devolver dizendo que adorei (se não fizer isso, perco um amigo).
Fiz essa introdução para dizer que o culto a um determinado filme – culto esse que nos leva a tecer elogios rasgados – nos transforma em idólatras de obras às vezes pouco famosas e/ou conhecidas do grande público. São filmes que, em alguma ocasião de nossas vidas, nos fizeram reféns, permanecendo retidos em algum canto de nossa memória afetiva.
Devo destacar que não se pode discutir gosto com um idólatra de uma obra cinematográfica. Destaco isso porque também defendo com unhas e dentes os filmes que venero – inclusive, quase fui linchado, certa vez, quando fiz grandes elogios a respeito do filme Scarface (Scarface, 1983), de Brian De Palma [em minha defesa deste filme, que diversos críticos acham que tem muitas cenas de violência gratuita, cheguei a contar, com minúcia de detalhes, seqüências inteiras (como a da motoserra) que achava maravilhosas]. E, por falar em Brian De Palma, ele é um fabricante de filmes cult, como O Fantasma do Paraíso (Phantom of the Paradise, 1974) e Femme Fatale (Femme Fatale, 2002). Não se fica indiferente ao seu modo de fazer filmes, pois a linguagem de De Palma identifica cada tomada. Parece que ele coloca uma digital sua em cada cena. Mas muitos torcem o nariz e menosprezam-no, falando que é um cineasta menor e imitador de Alfred Hitchcock. Entretanto, até o escritor e roteirista Rubens Francisco Lucchetti, fã incondicional de Hitchcock, nutre certa admiração pelo cinema de De Palma, principalmente pelo filme Dublê de Corpo (Body Double, 1984), que presta homenagem a duas obras-primas dirigidas por Hitchcock, Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) e Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958).

O Fantasma do Paraíso
Dublê de Corpo
Femme Fatale

Para os amantes de filmes cult, o que vale é a veneração, a exaltação, a descoberta. É a extraordinária identificação entre obra cinematográfica e espectador, fazendo com que filmes que tiveram pouca repercussão na época de sua estréia – como exemplos, cito: Rastros de Ódio (The Searchers, 1956) de John Ford; Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), de Don Siegel; Encurralado (Duel, 1971), de Steven Spielberg; Rainha Diaba (1971), de Antônio Carlos Fontoura; Chuvas de Verão (1971), de Carlos Diegues; Mad Max (Mad Max, 1976), de George Miller; Baile Perfumado (1996), de Paulo Caldas & Lírio Ferreira; Matrix (Matrix, 1999), dos irmãos Larry & Andy Wachovski; entre outros – acabem se tornando objetos de culto.

Rastros de Ódio
Perseguidor Implacável
Encurralado

Chuvas de Verão

Mad Max

Baile Perfumado

Bem, vou parando por aqui, mas prometo que vou continuar a falar sobre este assunto no próximo número do Jornal do Cinema.

 

Aurélio P. Cardoso é pesquisador, crítico e ativista da área de Cinema e membro fundador do Cineclube Cauim