Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL
Loren Eiseley



Descobrir outro mundo não é apenas um fato imaginário. Pode acontecer aos homens. Aos animais também. Por vezes, as fronteiras resvalam ou interpenetram-se (...). Vi o fato acontecer a um corvo. Esse corvo é meu vizinho. Nunca lhe fiz mal algum; mas ele tem o cuidado de conservar-se no cimo das árvores, de voar alto e de evitar a humanidade. O seu mundo principia onde a minha vista acaba. Ora, uma manhã, os nossos campos estavam mergulhados num nevoeiro extraordinariamente espesso; e eu dirigia-me às apalpadelas para a estação. Bruscamente, à altura dos meus olhos, surgiram duas asas negras, imensas, precedidas por um bico gigantesco; e tudo isto passou como um raio, soltando um grito de terror tal que eu faço votos para que nunca mais ouça coisa semelhante. Esse grito perseguiu-me durante toda a tarde. Cheguei a consultar o espelho, perguntando a mim próprio o que teria eu de tão revoltante...
Acabei por perceber. A fronteira entre os nossos dois mundos resvalara, devido ao nevoeiro. Aquele corvo, que supunha voar à altitude habitual, vira de súbito um espetáculo espantoso, contrário, para ele, às leis da natureza. Vira um homem caminhar no espaço, bem no centro do mundo dos corvos. Deparara com a manifestação de estranheza mais completa que um corvo pode conceber: um homem voador...
Agora, quando me vê, lá do alto, solta pequenos gritos; e reconheço nesses gritos a incerteza de um universo cujo espírito foi abalado. Já não é, nunca mais será como os outros corvos...

 

Este texto foi transcrito do livro O Despertar dos Mágicos (Le Matin des Magiciens, tradução de Gina de Freitas, São Paulo, Difel, 1965, pp. 20-21), de Louis Pauwels & Jacques Bergier