Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010
O ENCONTRO DE DOIS MESTRES DO TERROR




“Vivemos num país mergulhado em superstição e misticismo. Meus filmes surgem do medo.”
José Mojica Marins

A convite do SESC, o diretor José Mojica Marins (em dezembro de 2006, na capa do número 3 da edição brasileira da revista Rolling Stone, ele foi chamado de “nosso maior cineasta”) esteve no Cineclube Cauim, de Ribeirão Preto, na noite de 15 de maio de 2009. Na ocasião, abertura da mostra Festival SESC Melhores Filmes 2009, foi exibido o filme mais recente de Mojica, a superprodução Encarnação do Demônio (a fita, que teve produção do premiado Paulo Sacramento e um custo de R$1,8 milhão, marca o retorno da figura mítica do coveiro Josefel Zanatas, o Zé do Caixão, às salas cinematográficas do país), escolhido pelo público o melhor filme brasileiro lançado em 2008 (já o melhor filme estrangeiro, também na escolha do público, foi o feérico Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen).

A Encarnação do Demônio

Pouco antes do início da sessão, Mojica reencontrou seu antigo roteirista, Rubens Francisco Lucchetti. Amigos e parceiros há mais de quarenta anos, Mojica e Lucchetti não se viam desde outubro de 2002. Portanto, foi um reencontro marcado pela emoção. E, após a exibição do filme, os dois falaram para uma plateia de mais de duzentas pessoas sobre a paixão que sentem pelo Fantástico e o Terror, o tempo em que trabalharam juntos e futuros projetos que pretendem desenvolver em parceria.
A seguir, uma transcrição de trechos dessa palestra.

Mojica: Quando eu escolhi dirigir filmes de Terror, tive que fazer muitas pesquisas; conviver, às vezes, com macumbeiros e ver o lado deles. Tive que ver até onde as coisas eram reais ou deixavam de ser. Não acho muito legal mexer com essas coisas (macumba, feitiçaria, magia negra). Não é legal mesmo. Agora, como praticamente lidei a vida inteira com o terror – há quase cinquenta anos que faço filmes explorando o terror –, sempre fui um homem muito procurado por pessoas que dizem ter visto algo sobrenatural. São pessoas que chegam para mim e falam: “Ah, eu vi não sei o quê dentro de casa. Uma parte do teto caiu; e surgiu do nada uma mão que, de repente, desapareceu.” Aí, lá vou eu dar uma explicação para esses fatos. Já fui obrigado a ficar em casas que diziam ser mal-assombradas. Passei a noite toda; e o que tinha era barbeiro, aranhas, baratas, ratos. Já passei realmente por certas coisas que não têm condição. Surge um ET em Varginha, e os caras vêm me chamar para eu achar o monstro que veio do espaço. Sou procurado para coisas realmente esquisitas; e, se eu me negar, o pessoal desce o pau, porque acha que eu dou um jeito, que eu consigo... sei lá... enfim, acham que eu sou uma espécie de super-herói. Isso tem estragado um pouco a minha vida. E, no fundo, sou uma pessoa normal. Tenho uma religião. Sou católico, mas não sou praticante. E creio numa força que rege toda a nossa Terra. Essa força superior seria Deus. Não acredito no diabo. Acho que Deus fez o homem, e o homem fez o diabo. O diabo, para mim, é invenção do próprio homem. É a maldade, a inveja, o ciúme. Eu acredito em Deus, não acredito no diabo. Repito: sou uma pessoa normal. Não sou nenhum bruxo, nenhum feiticeiro. Tenho até medo dessas coisas... Não se pode brincar com elas. Agora, o que me entristece mesmo é que, pesando tudo na balança, não sei se tudo o que fiz valeu a pena. Porque, apesar de toda a minha obra (quadrinhos, fotonovelas, televisão, filmes como À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e O Estranho Mundo de Zé do Caixão), só fui ter algum reconhecimento aqui no Brasil depois de Encarnação do Demônio. Então, as pessoas começaram a ver meus outros filmes. Encarnação do Demônio foi lançado em 8 de agosto de 2008; e, lá por volta de setembro, o pessoal começou a falar da fita. Foi quando comecei a receber e-mails e telefonemas de pessoas comentando o meu trabalho, dizendo que tinham visto meus filmes depois de terem visto Encarnação. Às vezes, o Lucchetti reclama: “Mas o Mojica não telefona, não dá notícias.” Ora, não dá. Estou viajando muito, tenho de divulgar o filme. Eu preciso divulgar o filme, porque o Encarnação é o único filme que, na verdade, eu tenho uma participação... uma participação de dez por cento. No fim do ano, essa participação vai para cinquenta por cento. Isso está me dando um pouco de ânimo. Começo a ter forças para... fazer um grande filme de Terror. Eu quero realizar esse filme. Dou a ideia, e o Lucchetti escreve o roteiro. O Lucchetti é, realmente, o melhor roteirista com quem já trabalhei. Ele pega minha ide;ia e extravasa... vai além do próprio Além. Acho que formaríamos novamente uma dupla fantástica! Preciso terminar dois curtas-metragens. Então, talvez faça essa fita em que vou pôr tudo o que tem na minha mente. Espero que isso aconteça ainda em 2009 ou 2010.

O Estranho Mundo de Zé do Caixão

Lucchetti: Para mim, sempre foi uma honra ter trabalhado com o Mojica. Porque comecei a trabalhar mesmo no Cinema com o Mojica. Desde garoto, eu imaginava trabalhar no Cinema. Queria ser diretor. Mas, quando tive contato real com o mundo cinematográfico, quando passei a frequentar assiduamente o estúdio do sr. Mojica na Rua Casimiro de Abreu, no Brás, e vi os problemas que um diretor tem de enfrentar com os produtores, os técnicos e os atores, desisti de ser cineasta. Percebi que o melhor mesmo era ser roteirista, desenvolver as ideias do sr. Mojica em meu escritório. Sempre tive uma grande facilidade para escrever, pegar uma ideia e transformá-la num roteiro. Não sei se isso é um dom. Talvez seja. A única dificuldade é como começar. Mas, depois que começo, tenho dificuldade para parar, porque as ideias vêm automaticamente, num fluxo contínuo. Quando eu trabalhava para o sr. Mojica, sempre tinha duas ou três histórias em mente. Então, era comum embaralhar uma história com as outras, enquanto estava escrevendo um roteiro. Sempre tive uma grande facilidade para captar as idéias do Mojica. Ele me relatava um argumento, eu ia para casa e escrevia logo o roteiro. Tudo o que escrevi até hoje foi sempre em meu escritório, sozinho. Não sei trabalhar em equipe. Já tive oportunidade de trabalhar na Rede Globo de Televisão. Mas como tinha de trabalhar com mais três ou quatro roteiristas, abandonei tudo. Gosto de trabalhar sozinho. Fico no meu escritório, no meu ambiente. Ali, sou um verdadeiro Deus. Ali, crio e destruo.

Mojica: Eu sempre passava pro Lucchetti ideias, que ele desenvolvia muito bem.

Lucchetti: Foi uma época maravilhosa os dois anos, 1968 e 1969, em que praticamente fui funcionário do sr. Mojica. Escrevi roteiros para filmes, programas de televisão, fotonovelas e histórias em quadrinhos. Nas histórias em quadrinhos, tive a sorte de trabalhar com um dos maiores desenhistas que já existiu: Nico Rosso. O Nico conseguiu captar muito bem... conseguiu captar...

Mojica: A essência toda da coisa. Soube recriar nos quadrinhos o meu terror.

Lucchetti: Exatamente. O Nico soube recriar nos quadrinhos a essência do estilo primitivo do Mojica. Porque o cinema do Mojica é essencialmente primitivo. Então, qualquer coisa que se faça – fugindo desse estilo – não funciona. E quem conseguiu retratar bem, nos quadrinhos, todo o primitivismo do Mojica foi o Nico. Já na televisão, isso aconteceu, eu acho, no Além, Muito Além do Além, da Rede Bandeirantes. Infelizmente, a Bandeirantes não guardou nenhuma cópia dos programas exibidos. É uma pena... É uma pena mesmo que todo esse material tenha se perdido e só exista na nossa memória e na daqueles que tiveram a sorte de assistir aos programas.

Mojica: Na verdade, eu não sei definir o meu estilo. Só sei que tenho uma maneira diferente de fazer filmes.  Sempre fiz filmes para o povão. Mas também já fiz uma fita para mostrar que eu tinha algo de intelectual: O Despertar da Besta, que ficou muitos anos presa na Censura Federal...

O Despertar da Besta

Lucchetti: Não gosto deste título: O Despertar da Besta. Prefiro o título original da fita: Ritual dos Sádicos. O filme foi realizado em 1969, logo após O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Sem falsa modéstia – na verdade, a modéstia é a própria negação do trabalho –, acho que ele é, até agora, meu melhor trabalho como roteirista e o melhor filme do Mojica. É uma fita de crítica social. E sua sequência final... ela mostra o Mojica vindo em direção à câmara (ele está sorrindo, um sorriso que quer dizer muita coisa) e falando: “Corta!” Ele fala corta porque a cena dá a entender que vai se repetir tudo o que foi mostrado no filme, dá a entender que não adianta luta alguma... dá a entender que luta alguma adianta, porque tudo se repete. Essa sequência final é, sem dúvida, um dos grandes momentos do cinema brasileiro, ou melhor, do cinema mundial. É um final tão genial quanto o de Luzes da Cidade, do Chaplin.

Mojica: Encarnação do Demônio era para ter sido feito logo após O Estranho Mundo de Zé do Caixão, ou seja, antes de Ritual dos Sádicos.

O Despertar da Besta

Lucchetti: Meu grande sonho era a gente ter feito Encarnação do Demônio naquela época. Infelizmente, uma série de circunstâncias, uma série de problemas não permitiram. Agora, acho que o atual Encarnação do Demônio não completa a trilogia que o sr. Mojica se propôs a fazer. Mesmo achando o filme muito bem produzido – a fotografia, um trabalho do José Roberto Eliezer, é belíssima –, penso que ele nada tem a ver com À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver.

Mojica: O Encarnação dos anos 60 era uma coisa que eu ia fazer numa boa com o Augusto de Cervantes ou qualquer outro que pudesse produzir o filme. Mas o roteiro escrito naquela época mudou muito em relação ao novo. No filme, há muito do que vejo em pesadelos. Não sei se é uma maldição – ou sei lá o quê! –, mas sou um homem que não tem sonhos normais. Eu vejo as pessoas falarem: “Ah, sonhei que estava indo para o céu, e só havia gente boa.” Quando sonho, só vejo coisas feias demais: cadáveres, vermes devorando coisas, cabeças sendo cortadas em pedacinhos, seres disformes comendo cérebros humanos etc. Eu só tenho pesadelos. Por exemplo, esta noite vai ser, com certeza, fenomenal; vou ver em sonho muita coisa. É, gente, só tenho realmente pesadelos! Então, pego esses pesadelos e transformo-os em filmes. No passado, os argumentos que eu dava pro Lucchetti eram todos baseados em meus pesadelos. Desde aquela época, sempre deixo um caderninho ao lado da cama, para anotar meus pesadelos. Quero, um dia, pegar todos os pesadelos anotados e transformá-los em pequenas histórias, em contos. Dariam um livro e tanto de Terror. Quero falar sobre isso com o Lucchetti. Talvez escrevamos juntos um livro com coisas que o Lucchetti viu e com coisas que eu vi. Gente, vi muita coisa! Já virei quase comida de bruxos, que achavam minha carne muito macia. Isso aconteceu no Paraná. Eles colocavam um anúncio dizendo que precisavam de empregados; as pessoas iam... e toda a rapaziada que não tinha família não voltava mais. Os caras viviam de carne humana. A sorte é que, quando eu fui, tinha avisado muita gente, inclusive deputados e vereadores. Então, se eu desaparecesse, seria terrível. Mas quase que os caras me comeram. Depois, os jornais fizeram diversas reportagens e descobriram que eles pegavam pessoas sem família e faziam um assado bem legal com elas. Agora, pra terminar a praga do mês. Que os seus cabelos se convertam em ácido e, correndo por todo o seu corpo, corroa a sua carne! Que suas partes sexuais derretam e caiam sobre os seus pés, que deverão estar totalmente sem carne! Que suas tripas sejam arrastadas e ardam, por toda a eternidade, na fornalha do inferno! Tudo isso vai acontecer, se você não prestigiar a cultura e não prestigiar principalmente a casa em que estamos, o Cauim! Gente, isso pode pegar! O.k.?