Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

DIA AMARGO, MARAVILHOSO
Rubens Francisco Lucchetti



À memória de Célia, minha irmã

 

“Feitio sem forma, sombra sem cor,
 Força paralisada, gesto sem movimento...”
 T. S. Eliot

 

I
Abriu as janelas do apartamento e viu o sol.
Era um dia claro, cheio dos momentos que anunciam a vinda de maio. A rua estava quieta e por muito tempo ainda ficaria assim, porque era uma rua tranqüila, cheia de árvores e sombra. A brisa, só a brisa podia sacudir as folhas das árvores – e, assim mesmo só um pouco, muito de leve, de forma que as sombras se mexessem –; e esse era ali o único sinal de vida. Tudo mais estava quieto, quieto como um camundongo.
Poderia ter dito “quieto como a serenidade”; e teria dito uma coisa linda, de uma beleza quase religiosa. Mas disse “quieto como um camundongo”, e não havia maneira de dizer de outra maneira. Era isso mesmo. Apesar do sol, brilhante e silencioso, tudo estava cinzento e todas as coisas estavam cheias da náusea que dá um camundongo.

II
Fechou as janelas e pegou um livro, uma pequena novela de Jean Peter Jacobsen; e o livro desmanchou em suas mãos, como se fosse uma geléia deteriorada. Tornara-se uma coisa mole, apesar de toda a vida que nele estava contida. Jacobsen escrevera-o com muito amor, com essa espécie de ternura mansa com que um pai vê seu filho crescer, uma coisa que vem de dentro e não há meio de ter nome próprio, tão obscura e misteriosa que é. Milhares de pessoas haviam lido o livro – Maria Grubber era seu título – e tinham se emocionado com sua história. Ele próprio andara muitos anos à sua procura, sonhando encontrá-lo e esperando dele essa onda de magia, essa estrada branca que a gente encontra em todo verdadeiro livro. E, agora que o possuía, ele se desmanchava em suas mãos, tornando-se algo informe. Dava até náusea.

III
Abandonou o livro na poltrona e colocou fumo no cachimbo. Calcou bem o fumo – notou então que tinha as mãos trêmulas – e riscou um fósforo.
Bom poder fumar. Era como se tivesse tirado um peso de cima de si mesmo. Neste mundo tão torpe, a fumaça subindo como uma coisa livre, solta, despojada de qualquer peia, pareceu-lhe uma verdade bela demais para ser real.
Gostaria de ter ouvido, pensou, o choro de uma criança. Seria um sinal de vida, apesar de sua tristeza. Mas foi coisa muito diferente o que ouviu: alguém chamando por ele. Era verdade que nessa voz havia alguma coisa de um pranto de criança... mas bem entendido: de criança magoada, apenas magoada, e não de criança  chorando. E isso era mais doloroso ainda. Porque, quando uma criança chora, liberta-se daquilo que a tortura, expulsa-a de si. Porém, quando permanece nesse estado contido, a gente pensa que ela é tão meiga e delicada que não nos quer ferir com seu pranto.

IV
Deu alguns passos e foi até o quarto.
As janelas estavam abertas; e isso fez com que o dia, tão lindo, continuasse a parecer-lhe – em sua beleza – uma coisa inútil.
Foi nesse instante que começou a sentir ódio. Um ódio surdo, confuso, perturbado. Tudo aquilo não era mesmo de uma crueldade de cortar o coração? Por que haveria de haver sol, por que haveria de estar tudo luminoso, se Ly estava sofrendo, se nada daquilo poderia servir para tirá-la do leito e fazê-la outra vez a pequena adorável que ela era, cheia de beleza e riso?

V
Quis fazer funcionar o pianinho, a caixinha de música que dera a Ly – era uma maquininha de fazer som, em forma de piano de cauda, que repetia várias vezes uma melodia antiga –; mas não teve coragem para isso. Chegou a dar corda no pianinho; entretanto, não o fez funcionar. E a caixinha de música ficou um pouco parecida com ele: tensa, no nervosismo da expectação de algo que vai arrebentar, acontecer. Do pianinho sairia música... e dele o que sairia? Do seu descontrole não sairia, decerto, canção alguma. Deixou de lado o pianinho.

VI
Passou as mãos pelos cabelos de Ly; e era como se estivesse alisando o próprio sol, tanto era o dourado dos cabelos.
O sol...
A janela aberta; e o sol entrando, brilhante, não se interessando nem um pouco pelo que acontecia ali.
E se Ly não ficasse boa?
Uma coisa crescia dentro dele, algo rude, áspero: o ódio contra aquele dia, contra aquele sol indiferente, que não tinha pena de ninguém, um monstro egoísta, cego e surdo, cruel, frio (apesar de todo o seu calor), negro (apesar de toda a sua luz).
Pegou novamente o pianinho e levantou sua tampa. A velha melodia começou a ser ouvida, mas ele a interrompeu. Foram apenas três ou quatro sons, puros como gotas d’água.

VII
Tinha o coração e a mente inteiramente opressos. Aquela falta de solidariedade das coisas ao seu sofrimento deixava-o perplexo. Era algo patético aquele sol, aquela luz, aquela possibilidade permanente de beleza. Tudo porque Ly estava doente. Sentou-se na beira da cama.
Ly sorriu, ao vê-lo fazer isso. Ly tinha voz débil, agora com a doença. E sua voz soou terna, quando disse:
– Olha, querido, que dia maravilhoso.

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos

 

Este texto foi transcrito do livro Música Secreta (Edição do Autor, 1952)