Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010
O CINEMA E O ESPAÇO GEOGRÁFICO (URBANO)
Denise de Oliveira Veneziano



O objetivo deste artigo é trazer à tona a discussão a respeito da Sétima Arte como alternativa de leitura e interpretação do espaço geográfico socialmente construído. Torna-se, portanto, necessário conduzirmos nosso pensamento em direção ao fato de que: representar e pensar podem compor um mesmo exercício de desvelamento da vida? As obras de Arte podem contribuir para o nosso reconhecimento do mundo? As criações estéticas ainda nos oferecem elementos decifradores do movimento de realização da sociedade? Tais indagações percorrem o caminho onde o espaço geográfico e o Cinema têm no imaginário um encontro marcado para desenhar ou redesenhar um mapa de possibilidades.
O pressuposto básico da Arte é ser a imaginação criativa por intermédio da qual o artista se desenvolve e desenvolve seu trabalho, tanto no plano do conhecimento do mundo como no plano original da construção de um outro mundo. É o trabalho criativo que faz a distinção entre o que é uma obra artística e o que é simplesmente um produto ordinário da indústria cultural.
A Arte significa um modo de entender o mundo e de agir no mundo. Portanto, é da ação criadora de novos significados que se constrói a possibilidade de invenção de novas linguagens e, a partir delas, a possibilidade de ampliação das reflexões inovadoras a respeito do mundo em que vivemos e dos projetos de mundo que concebemos.
Penetrar o terreno da Arte como possibilidade de inquirir/decifrar o mundo construído/construtor dos sujeitos sociais significa tomar as representações como um processo de construção de nossas leituras e reflexões sobre o espaço geográfico. E, quando dedicamos atenção à arte de representar no Cinema, a representação assume uma qualidade especial no plano epistêmico e, sem dúvida, exige-nos um aprofundamento dos termos teórico-conceituais e de suas relações com o espaço geográfico.
O conceito de representação, como todo conceito, nasce e formula-se em um duplo movimento histórico: da História geral (da sociedade) e da História particular (da Filosofia ou da Ciência). A representação é uma criação – e por isso – plena de historicidade no seu sentido de enunciar ou revelar pelo discurso e pela imagem o movimento do mundo.
O Cinema, além de uma forma de percepção e interpretação do mundo, é também a representação de projetos de mundo; e, tal como a política ou a guerra, é capaz de impulsionar transformações na sociedade. O Cinema surge como uma arte destinada a ser exibida às massas. Os altos custos de produção exigem públicos cada vez mais amplos. Ao mesmo tempo, constitui-se a forma de manifestação artística que mais se aproxima da sensibilidade do homem moderno. A cultura do Cinema relaciona a produção de mercadorias com a reprodução de emoções e memórias. Redesenhando as relações entre o espaço e o tempo, modificando/acelerando ritmos e acentuando os choques por meio das mudanças de lugares e situações, a técnica cinematográfica constrói um novo modo de olhar a realidade. Essa qualidade do Cinema revela-se não apenas no modo pelo qual o homem é representado na tela; mas, principalmente, na forma pela qual ele representa para si o mundo que o rodeia, a maneira como ele, o homem, interpreta o seu espaço geográfico.
A escritura cinematográfica se exprime como um pedaço do mundo que nos olha e nos representa. Construindo ficções visíveis, o Cinema se apropria de modo particular do espaço e do tempo. Nesse sentido, representações são construídas por intermédio da linguagem cinematográfica como arquivos e narrativas da diversidade do espaço social, da modificação do espaço geográfico.
O Cinema nasce para a vida social juntamente com a grande cidade. A arte cinematográfica nasce com a metrópole, tem a sua história mergulhada e confundida com a historicidade da metrópole. Podemos afirmar que o Cinema é uma arte urbana por excelência. Podemos também constatar que a cidade é o espaço geográfico que o Cinema mais registrou ao representar o mundo. A História do Cinema se cruza com a geografia das cidades. Cruzamento inaugurado com as experiências dos irmãos Auguste e Louis Lumière nos meados da década de 1890 – as imagens capturadas na estação ferroviária de Ciotat ou no movimento agitado da saída de operários de uma fábrica – e estendendo-se à localização dos estúdios e salas de exibição nas cidades. Quero salientar que os estúdios cinematográficos recriam, em cenários, partes da cidade e tornam-se partes integrantes da cidade (basta lembrar de Cinecittà, em Roma, e Hollywood, em Los Angeles). Esse processo histórico e geográfico faz do Cinema uma forma de arte representativa da própria cidade e da representação da sociedade urbana.
Nascido com as grandes cidades e produto de suas transformações sociais e culturais, o Cinema constitui-se como um arquivo dos atos, relações e do próprio imaginário construtores do espaço urbano. Um arquivo definido, que permite fazer múltiplos enunciados e variados tratamentos de apreensão do movimento de transformação e reprodução do ato de viver no espaço urbano.
Portanto, a cidade, como uma escrita do imaginário e da memória social, integra o Cinema em seu movimento permanente de recriação. O Cinema se torna, assim, material importante de documentação sobre o espaço urbano, tanto quanto sobre as mudanças nas concepções de cidade no imaginário coletivo, uma vez que esse também percebe as mudanças da/na cidade. Formas, volumes, cores, marcas, movimentos, eventos, relações, vidas são registrados pelo olhar da cinematografia urbana e inscrevem uma cartografia dos lugares por meio da captura/recriação de suas imagens.
Ampliar o campo de diálogo com a Sétima Arte é incorporar as obras cinematográficas como recurso de leitura do espaço geográfico. É um exercício de alargar os horizontes de interpretação da realidade social. É buscar na aparência fragmentada das imagens os significados mais amplos elaborados no imaginário e evidenciados como práticas sociais. É percorrer o emaranhado onde o conhecimento e o encantamento, o banal e o extraordinário, o estranho e o familiar, o inesperado e o repetitivo tecem seus encontros. A arte de representar nos oferece um caminho de reconhecimento do mundo, da vida, da memória e dos sonhos que pulsam no espaço geográfico.

 

Falecida em 2009, Denise de Oliveira Veneziano foi professora de Geografia e Inglês