Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

BOOGIE NIGHTS
UM DIRETOR NOVATO, UM RAMO HOSTILIZADO E O NASCIMENTO DE UMA OBRA-PRIMA

João Rodolfo Franzoni



Boogie Nights - Poster

Vez ou outra, entre tantas superproduções muito comentadas e outras que se tornam sucesso de crítica, um filme consegue sobressair-se e pegar de surpresa olhos despreparados, resultando naquela obra que, além de ser bem recebida por pólos que costumam ser tão antagônicos, se destaca por sua originalidade de concepção e ousadia no registro. Tome o caso de Boogie Nights (segundo trabalho de um cineasta com então 27 anos), que estreou em 1997 cercado de atenções, num ano que parecia território exclusivo do fenômeno protagonizado por James Cameron e seu Titanic.

Hard Eight - Poster

Paul Thomas Anderson, pai de tal criação, vinha de um filme modesto e não muito apreciável, Jogada de Risco (Hard Eight, 1996), que no Brasil foi lançado direto em vídeo e hoje poucos se lembram ter marcado a estréia do cineasta. O espanto não residia pelo fato de haver ali uma radiografia ousada e honesta da indústria do cinema pornográfico, em meio à ferveção da década de 1970; mas sim pelo fato de um cineasta de pouca experiência revelar um domínio tão apurado da linguagem cinematográfica, um uso de câmera impressionante (que, entre outras tomadas formidáveis, acompanha uma jovem até seu mergulho na piscina, durante uma festa) e uma noção de ritmo que jamais se afrouxa durante suas duas horas e meia de projeção. Eis um filme que merecia um pedestal já por suas qualidades intrínsecas, não fosse uma contribuição que, passados mais de dez anos, ficou evidente nas produções subseqüentes de Anderson: sua recusa ao puritanismo vigente na cinematografia estadunidense; e a noção mais que bem-vinda que cinema também é visitado por uma platéia adulta, que merece ter sua inteligência respeitada.
Houve quem saudasse Anderson como “o novo Robert Altman”; e, sem dúvida, a honraria procede. O hoje falecido criador de Nashville (1975) e Short Cuts (1993) fez fama com seu estilo de povoar suas tramas com dezenas de personagens e uma câmera que, mesmo solta, tomava a precaução de concentrar-se num determinado ambiente. Mas o que Anderson parece ter incorporado do cineasta foi o estilo naturalista e visceral, em que nada é despejado na tela com a intenção de enfeitar ou chocar (ao contrário, a preocupação com o realismo é latente). E, se houve quem foi conferir Boogie Nights esperando sexo explícito, foi inevitável a surpresa de constatar que ele praticamente inexistia na narrativa. Na verdade, havia ali um poder de sugestão extraordinário, em que inúmeras simulações do ato eram esgarçadas com impacto e jamais erotizadas. Não se trata de defender a extinção de qualquer ato explícito, apenas reconhecer a capacidade de um novato em desbravar áreas tão admoestadas pelo moralismo vigente. A ousadia para o sexo foi a fama levantada quando a produção começou a render elogios entusiasmados da crítica norte-americana; mas, felizmente, ninguém foi leviano de reduzi-lo ao escândalo fácil. Surgia ali uma obra madura em sua investigação de seres humanos corroídos pela ilusão oferecida por uma década colorida; uma década na qual discotecas simbolizavam uma espécie de templo aos seres pretensos ao destaque; uma década em que a bandeira do sexo livre havia sido fincada, sem o fantasma da AIDS para derrubá-la; e finalmente, uma década na qual a produção pornográfica de então oferecia seus préstimos como válvula de escape aos excluídos daquela festa toda – sem contar que os diretores podiam ousar com tramas mais ou menos elaboradas, já que ainda não havia o recurso do botão de avanço rápido dos aparelhos de videocassete.
Para nos situar nesse universo (que, para os padrões atuais de modismo, soa inconcebível), o roteiro (de autoria do próprio Anderson) foca sobre Eddie Adams (Mark Wahlberg), um adolescente perdido, que enfeita o quarto com cartazes de Bruce Lee e Farrah Fawcett, é desprezado pelos pais e ganha uns trocados como lavador de pratos em uma das boates mais disputadas de Los Angeles, a Boogie Nights do título. Eddie, com sua teoria de que cada um é abençoado com algo especial, sabe que seu pênis avantajado é uma chance de destacá-lo da mediocridade e oferece-o como fonte de renda extra (o valor varia caso queiram vê-lo masturbar-se ou para a prática de felação). Assim que Jack Horner (Burt Reynolds), um diretor de filmes pornográficos que sonha em realizar um filme respeitável perante os detratores do gênero, conhece o rapaz, não tem dúvidas: decide que ele será um astro do ramo. Eis aí o passaporte do protagonista para uma existência de embalos e boêmia que os anos 1970 pareciam ter estabelecido, quando é acolhido pela equipe inseparável de seu mentor (na verdade as pessoas dessa equipe são uma espécie de família, que, em horário comercial, tem de transar para as câmeras). E Eddie, que recebe o nome artístico de Dirk Diggler, torna-se um astro pornô, sendo recepcionado com todos os mimos, que incluem entrada garantida na boate Studio 54 (na época, era uma das mais famosas boates de Nova York), prêmios da categoria, dinheiro e um portentoso conversível.
Talvez o mais notável na direção de Anderson é que ela jamais parece ter vontade de brilhar ou nos fazer engolir o quanto podemos ser criaturas orgulhosas de nossas parcas noções acerca de outras alternativas de existência. O diretor contempla o ano de 1977 – no qual o filme inicia-se – com todos os símbolos que o caracterizaram; e, até pouco mais da primeira metade do filme, o registro é efusivo, colorido, bem ao espírito de seus personagens. Porém, quando 1980 avança, fica claro que estamos diante de um filme sério, escancarando com intensidade magistral que, se havia um clima coletivo de plenitude na década que se despedia, é porque o preço exigido todos pagaram, mas inconscientes do quão exorbitante ele poderia ser: a adesão incondicional à ilusão. Sexo pode ser incessante, o dinheiro constante e as drogas garantias de um êxtase único; mas, quando a humanidade intervém e uma determinada época já não acompanha mais suas aspirações e postura, a maturidade sacrificada torna-se um calvário. Levando em consideração o quão soturna a narrativa se converte durante a passagem das décadas, a conclusão não poderia ser diferente. Após desligar-se da trupe que lhe trouxe fama, Eddie é rapidamente rendido pela cocaína, transforma-se num michê barato e ensaia golpes pouco inteligentes, em companhia de colegas decadentes como ele.
Cada passagem de Boogie Nights parece ter sido urdida para submeter olhos exigentes de depuração cinematográfica: Anderson realiza cenas que saltam do carinhoso para o tenso com a sabedoria de um veterano. Suas incursões posteriores como cineasta não desmentem a tese: Magnólia, de 1999, é um compêndio de passagens arrebatadoras em que uma câmera inquieta parece buscar o âmago dos personagens, a ponto de exaurir o espectador com tanta maestria; e Sangue Negro (There Will Be Blood), de 2007, é talvez o filme que, recentemente, melhor ofereceu uma coleção de planos rebuscados e antológicos para desenhar um tratado sobre a ambição desmedida. Aquela câmera apressada durante a explosão de uma refinaria é um momento de grandeza imbatível; e olha que o foco é sobre Daniel Day-Lewis, certamente um dos maiores atores vivos.

Sangue Negro - Poster

Magnolia - Poster

E também merece ser aplaudido o quanto seu roteiro e direção desenvolvem os personagens de forma tão completa, verdadeira e apaixonante. O diretor elege protagonistas; porém, não reduz a importância dos personagens com menor tempo em cena. A saga de Eddie Adams/Dirk Diggler é tão envolvente quanto os desdobramentos envolvendo Buck Swope (Don Cheadle), um ator pornô em busca do sonho de ter uma loja de aparelhos de som; e Amber Waves (Julianne Moore, magnífica), atriz que serve de figura maternal aos tipos do filme e que parece inconsciente do preço cobrado pela vida que escolheu. E logo percebe-se que a direção de atores, em Boggie Nights, acompanha toda a habilidade técnica e narrativa. Mark Wahlberg, saído de uma carreira desacreditada de rapper e modelo, registrou aqui um talento visceral tanto nos momentos em que seu personagem demonstra ser uma garoto chorão quanto naqueles em que é obrigado a reconhecer que está no fundo do poço. Mas tal momento de brilho ele só viria a reprisar no singular Huckabees – A Vida É uma Comédia (I Love Huckabees, 2004), já que sempre marcou presença em filmes comerciais que só acabaram por expor suas limitações. Burt Reynolds acenou com uma espécie de retorno ao estrelato, após anos de uma decadência que teve seu ápice com o político besuntado de vaselina em Striptease (1996), estrelado por Demi Moore. Entretanto, embora tenha sido indicado ao Oscar (e perdido para Robin Williams, por Gênio Indomável/Good Will Hunting, 1997), prosseguiu no ostracismo, ainda que deva a Anderson seu momento máximo como ator. E a loirinha Heather Graham, representando a atriz que jamais retira seus patins? Alguém é capaz de lembrar rapidamente outro momento substancial da moça como atriz?
Voltando à discussão sobre a relevância de um filme, mesmo quando lançado numa época de sucessos milionários e outras nulidades indicadas ao Oscar, Boogie Nights hoje se impõe como o filme máximo do ano em que estreou. Não se pode prever que Paul Thomas Anderson (que, vez ou outra, assina como P. T. Anderson e entregou uma besteira do quilate de Embriagado de Amor/Punch-Drunk Love, 2003) permaneça em pleno ofício de sua arte, mas uma fita como Boogie Nights é um atestado de relevância eterno. Ele legou aqui um filme inspirador em sua energia, confiando na disposição de seu público para com obras vastas e meticulosas, sob um verniz dos mais interessantes. Ele comprova que, mesmo sendo difícil enxergar um futuro feliz para tipos como os desajustados personagens de Boogie Nights, tropeços podem não nos reabilitar, mas ao menos render registros interessantes e catárticos.

 

Boogie Nights – Prazer Sem Limites (Boogie Nights, 1997, 156')
Direção e Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Don Cheadle, Heather Graham, Luis Guzman, Philip Seymour Hoffman, William H. Macy, Alfred Molina, Philip Baker Hall, Ricky Jay, Jack Riley, Joanna Gleason, Nina Hartley
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Playarte

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista