Ano 2 - nº 5 - dezembro de 2009/fevereiro de 2010

MANDRAKE O MÁGICO
Marco Aurélio Lucchetti



A Música é dotada de uma grande magia, pois, ao ouvirmos uma determinada composição, viajamos através do Tempo e do Espaço. Dessa forma, “Uma Noite no Monte Calvo” (1867), de Modest Mussorgsky (1839-1881), coloca-nos no meio de um sabá de feiticeiras; “Rhapsody in Blue” (1924), de George Gershwin (1898-1937), leva-nos às metrópoles dos Estados Unidos, mais precisamente à agitada Nova York, de imensos arranha-céus; a  música para o balé “Billy the Kid” (1938), de Aaron Copland (1900-1990), transporta-nos ao Velho Oeste norte-americano, com seus cowboys, xerifes, pistoleiros, saloons e imensas pradarias; e, entre muitas outras, “Num Mercado Persa” (1920), de Albert Ketelbey (1875-1959), desloca-nos para a mística Pérsia (esse antigo império do Oriente Médio desenvolveu-se no território do atual Irã) dos tempos passados, onde  nos deparamos com califas, belas princesas, prestidigitadores, encantadores de serpentes e lindas mulheres vestidas com roupas diáfanas, enfim, um ambiente saído de As Mil e Uma Noites. Entretanto, essa mágica da viagem pelo Espaço-Tempo não é um privilégio exclusivo da Música. Está presente também nos Quadrinhos. Sobretudo nas histórias em quadrinhos produzidas na década de 1930 para os jornais norte-americanos.
Essas histórias em quadrinhos são verdadeiras portas abertas para a fantasia e a ilusão. E os leitores da época precisavam – e muito! – dessa fantasia e ilusão, pois suas vidas estavam mergulhadas na mais negra incerteza, devido à Quebra da Bolsa de Nova York, ocorrida em outubro de 1929 e que levara à falência um sem-número de empresas.
E, se fizermos um restropecto de toda a década de 1930, veremos que um dos anos mais favoráveis para as histórias em quadrinhos produzidas para os jornais estadunidenses foi o de 1934. Senão, vejamos: em 7 de janeiro, ocorreu o lançamento das páginas dominicais de Flash Gordon e Jungle Jim (Jim das Selvas), realizadas pelo talentoso Alex Raymond (1909-1956); em 22 de janeiro, o aparecimento das tiras diárias de Secret Agent X-9 (Agente Secreto X-9), desenhadas por Alex Raymond e escritas por Dashiell Hammett (1894-1961), que, na época, já era um dos mais conhecidos autores norte-americanos de contos e romances de Detetive & Mistério; em 5 de março, a estréia de Don Winslow of the Navy (Don Winslow), de Frank V. Martinek (roteiros) & Leon A. Beroth (desenhos); em 19 de março, a publicação da primeira tira de Red Barry, de Will Gould; em 16 de abril, o surgimento de Radio Patrol (Rádio Patrulha), da autoria de Eddie Sullivan (roteiros) & Charlie Schmidt (desenhos); em 20 de agosto, o nascimento da satírica Li’l Abner (no Brasil, conhecida com os nomes de Li’l Abner, Ferdinando e A Família Buscapé, entre outros), de Al Capp (1909-1979), considerado por muitos críticos como um dos maiores escritores satíricos desde Rabelais, Jonathan Swift, Voltaire e Mark Twain; em 9 de setembro, The Little King (O Reizinho), de Otto Soglow (1900-1975), passou a ser publicada nos jornais, com distribuição da King Features Syndicate (fundada em 1915 por Moses Koenigsberg, a King é uma das maiores agências distribuidoras de material jornalístico dos Estados Unidos), em páginas dominicais coloridas, depois de ter sido estampada, durante aproximadamente quatro anos, na prestigiosa e sofisticada revista The New Yorker; em 22 de outubro, surgiu Terry and the Pirates (Terry e os Piratas), uma criação de Milton Caniff (1907-1988), um dos grandes mestres na arte de contar uma história e na arte do Desenho; e, em 17 de dezembro, Henry (Pinduca), de Carl Anderson (1865-1948), começou a ser distribuída aos jornais por intermédio da King Features Syndicate, após ter divertido por mais de dois anos os leitores do semanário The Saturday Evening Post.
1934 também foi o ano em que surgiu Mandrake the Magician (Mandrake o Mágico).

“Criei Mandrake o Mágico porque admiro mágicos como Houdini e aventureiros como Marco Polo. Sempre li muito romances de Aventura, de Ficção Científica e de Detetive & Mistério. Mandrake é uma combinação dos grandes mágicos, aventureiros e detetives de minhas leituras preferidas.”
Lee Falk


Não são muitos personagens dos Quadrinhos que têm o privilégio de aparecer todos os dias, há mais de 75 anos, nas páginas dos jornais, cativando, emocionando e encantando leitores de todas as partes do mundo. Mandrake é um desses poucos personagens (atualmente, suas tiras diárias, distribuídas pela King Features Syndicate, são estampadas em cerca de 200 jornais, em oito línguas diferentes).
Apesar de não ter suas histórias mais recentes publicadas no Brasil (pelo menos não temos conhecimento de nenhuma publicação brasileira, jornal ou revista, que as esteja publicando) e de ser praticamente um ilustre desconhecido para as novas gerações de leitores brasileiros (temos a certeza de que muitos que estão lendo este artigo nunca ouviram falar dele ou nunca leram uma de suas aventuras), Mandrake, um dos mais importantes heróis surgidos nas histórias em quadrinhos da década de 1930, tinha no passado – um passado não muito distante – um grande número de admiradores em nosso país. E, certa vez, um desses admiradores, meu dileto amigo Aníbal Barros Cassal, de Porto Alegre, disse o seguinte a seu respeito:

“Mágico Mandrake (...). Nós, crianças, assistíamos embasbacadas às suas proezas, nas páginas saudosas do Mirim e do Suplemento Juvenil, as grandes revistas de então. Conservo anda hoje na memória alguns títulos que marcaram época naqueles anos dourados: ‘Mandrake na América’, ‘Viagem ao País de Savessá’, ‘Mandrake em Hollywood’, ‘Mandrake Entre as Múmias’.
Fico pensando em quanta água correu debaixo da ponte desde o ano longínquo em que se iniciaram as peregrinações do famoso mago de fraque e cartola e seu companheiro Lothar, o gigante de ébano’, como costumávamos chamá-lo na época. (...) Mandrake foi uma paixão avassaladora. (...) E veio para ficar.”

 

E QUEM É MANDRAKE?

“Em sua típica roupa e caracterização de mágico de circo ou teatro – casaca, cartola, bigodinho, varinha na mão –, Mandrake é um desses heróis que muito bem representam o nonsense e o surreal das histórias em quadrinhos.”
Luiz Antônio Sampaio

“Mandrake é o homem da mandrágora, o ser dotado de poderes sobre-humanos com os quais faz triunfar o Bem.”
Lee Falk

Em 1934, o New York American Journal, de propriedade de William Randolph Hearst (1863-1951), o magnata da imprensa estadunidense, decidiu criar uma página diária, a Floyd Gibbons’ Daily Page of Thrill and Mystery, reservada, como o próprio nome diz, à emoção e ao mistério.
Foi nessa página, cujo editor era o jornalista Floyd Gibbons (1887-1939), que Mandrake the Magician estreou, em tiras diárias, em 11 de junho de 1934. Mas bem entendido: nesse dia, estreou a história em quadrinhos, não o personagem, que iria aparecer pela primeira vez em 15 de junho, mais precisamente no terceiro e último quadrinho da quinta tira de sua primeira aventura, “The Cobra” (“O Cobra”). Lothar (mostrado usando um barrete turco, uma pele de leopardo e uma bermuda), um enorme e musculoso negro africano, encarregou-se de apresentar Mandrake aos demais personagens da história (o inspetor Sheldon, do serviço secreto norte-americano; sua filha, Bárbara; seu assistente, Tommy Lord; o

embaixador Van Der Griff; e o mordomo do embaixador, Mee-Kee, na verdade um integrante do bando do Cobra, o maior criminoso da Terra) e aos leitores, com as seguintes palavras: “Meu mestre... MANDRAKE!”
Em certa ocasião, o criador de Mandrake, o roteirista Lee Falk, afirmou: “A primeira coisa que fiz com Mandrake foi lhe dar minha cara.” Entretanto, Mandrake também se parece com seu primeiro desenhista, Phil Davis, possui um rosto que lembra ainda os dos atores Adolphe Menjou (1890-1963) e Ronald Colman (1891-1958) e tem diversas características de alguns dos mais representativos atores norte-americanos das décadas de 1920 e 1930: o cabelo untado de brilhantina à maneira de Rodolfo Valentino (1895-1926); o bigodinho aparado à moda de Clark Gable (1901-1960); o olhar agudo e exótico de Lew Ayres (1908-1996); e o porte refinado de William Powell (1892-1984).

Mandrake, chamado de “o Homem do Mistério”, estudou, quando adolescente, magia no Collegium Magikos, um colégio de mágica localizado num pico remoto nas isoladas montanhas tibetanas. Ali, recebeu orientação de um velho mágico, Theron, com quem se mantém em contato telepático por meio do Cubo de Cristal, um antiqüíssimo e misterioso objeto que amplia e transmite o pensamento a qualquer parte da Terra e até às estrelas.
Tudo o que aprendeu de magia, Mandrake utiliza para disseminar o Bem e combater os criminosos, entre os quais está incluído um ex-colega seu no Collegium Magikos, seu irmão gêmeo, Derek.


Em suas primeiras histórias, Mandrake usa muito seus poderes mágicos, ora fazendo seus inimigos virarem de cabeça para baixo ou saírem voando, ora transformando as cabeças de seus adversários em pedra, ora realizando gestos hipnóticos ou projeções telepáticas, ora ficando invisível [em sua segunda aventura, “Mandrake Meets Narda” (“Mandrake Encontra Narda”), ele e Lothar ficam invisíveis durante várias tiras]... Porém, com o passar do tempo, Mandrake vai abandonando a magia, conforme atestam estas palavras de Lee Falk:

“Embora utilizasse a magia, sempre considerada como arte do demônio, Mandrake o fazia para triunfar sobre inimigos mortais. Mais tarde, estudei toda a arte do hipnotismo e transformei o personagem: ele passou a usar apenas a sugestão como arma. E deixou de ser um deus ou semideus, para tornar-se um homem, um mortal. Mas isso não quer dizer que não tenha poderes.”

E, nas histórias que foram publicadas originalmente entre 1934 e 1939, Mandrake viaja muito: por exemplo, em sua terceira aventura, “The Monster of Tanov Pass” (“O Desfiladeiro de Tanov”), ele está no norte da Europa, numa região montanhosa, e enfrenta Klage, um monstro que é metade gorila e metade homem (na verdade, essa aberração, um gorila com cérebro humano, foi criada pelo prof. Rosin, um cientista louco); em “The Werewolf” (“Mandrake no Vale do Lobisomem”), encontra-se na Europa Central, num lugar em que os habitantes acreditam existir lobisomens; em “Mandrake in Hollywood” ( “Mandrake em Hollywood”), é convidado a ser ator, vai para Hollywood e desnuda os bastidores do mundo cinematográfico, onde por trás das luzes dos refletores acontecem numerosos dramas; em “The Deep South” (“O Fantasma de Lafitte”), visita o Sul dos Estados Unidos e vê-se às voltas com as lendas e superstições referentes ao fantasma e ao tesouro do pirata Jean Lafitte (1780?-1826?); em “Mandrake in North Africa” (“Mandrake na África”), desembarca na África e luta contra Besa, um poderoso feiticeiro...

“Mandrake Encontra Narda”

“O Desfiladeiro de Tanov”

“Mandrake no Vale do Lobisomem”

“Mandrake em Hollywood”

“O Fantasma de Lafitte”

“Mandrake na África”

 

continua no próximo número