Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

UMA VISITA INESQUECÍVEL
T. G. Novais



À primeira vista, não tinha nada de anormal. Era uma casa como muitas outras, debruçada sobre um precipício e coberta por um sombrio revestimento de hera. O portão estava fechado, e a tabuleta “CUIDADO COM OS CÃES” acautelava os imprudentes. Uivados longínquos acolheram-me antes que uma mulher, muito pálida, abrisse a porta. Entrei num salão abafado e repleto de enormes arcas com formas inquietantes. O retrato do Príncipe das Trevas, gélido, de olhos sem cor, lábios exangues, mãos transparentes, não me tranqüilizou muito.
Por fim, Drácula apareceu, de uma forma suave, discreta, mais inquietante que seu próprio retrato. Vendo meu ar preocupado, ele disse:
– Sim, a casa está amaldiçoada! Não podemos escapar a seu destino. Quando aqui me instalei com minha quarta mulher, mandei colocar em todas as portas e janelas cadeados que só eu podia abrir. Comprei cinco cães; e um deles, totalmente branco, sente as presenças invisíveis. Mas tudo isso não nos conseguiu proteger de inexplicáveis acontecimentos que nos atormentam todas as noites. Ainda que meus olhos não vejam nada, os cães ladram insistentemente, devido a qualquer medo indefinível que lhes eriça o pêlo. E, desde a primeira noite, um morcego enorme voava à volta da sala de jantar, batendo contra a janela e observando-nos com seu único olho. Incapaz de dominar minha repulsa por esse bicho imundo, obcecou-me a idéia de destruí-lo. Por várias vezes, meus criados

tentaram apanhá-lo; e eu quebrei inúmeros vidros, nas tentativas que fiz para agarrá-lo. O morcego, porém, parecia enfeitiçado, invulnerável; e eu já pensava que não o conseguiria destruir. Uma noite, por fim, meu cão branco apanhou-o, quebrou-lhe as asas e trouxe-o pra mim. O monstro estava muito ferido... e, pouco depois, morria. Corri imediatamente para o jardim, cavei um buraco bem fundo e enterrei o bicho ali. Em seguida, coloquei em cima da sepultura uma pedra grande e pesada. Então, senti-me livre e tive a sensação de que podia voltar a viver.
Ele passou sua mão transparente pela fronte marmórea e continuou:
– No dia seguinte, quando minha mulher e eu comemorávamos o acontecido, felizes por termos nos livrado da obsessão, aconteceu algo horrível: um sussurro aveludado foi ouvido na sala de jantar... Era um morcego, um morcego enorme, que nos sobrevoava! Seria outro? Talvez. Como um louco, corri para o jardim, levantei a pedra, reabri o buraco... O monstro não estava mais lá...
Nesse instante, despedi-me de Bela Lugosi e saí da casa, ansioso por reencontrar a luz do dia.

 

Falecido em janeiro de 2008, T. G. Novais foi jornalista, escritor e tradutor