Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

EU SEMPRE O CHAMEI DE "SENHOR MOJICA"
Rubens Francisco Lucchetti



“Depois de ler as declarações dos diretores da cinematografia mundial, perguntamo-nos como pode existir um Chaplin. Há mil razões para que não exista. O Cinema não pode viver sem dinheiro; e todas as implicações industriais, comerciais etc. impedem irrevogavelmente a chegada do gênio. Não obstante, Chaplin consegue trabalhar livremente: tem popularidade, independência (...). Para quem conhece todos os costumes do Cinema, esta situação merece ser qualificada de maravilhosa.”

Ditas pelo famoso diretor francês René Clair (1898-1981), as palavras acima foram extraídas do livro Carlitos a Vida, a Obra e a Arte do Gênio do Cine (Charles Chaplin – El Génio del Cine, tradução de Melo Lima, Rio de Janeiro, Leitura, 1944, p. 241), do historiador e pesquisador espanhol Manuel Villegas López, e podem também ser aplicadas a José Mojica Marins.
Tudo conspira para que ele não exista. Mas ele existe e, da mesma forma que Charles Chaplin (1889-1977) deu vida ao eterno Carlitos, criou Zé do Caixão, um personagem ímpar.
José Mojica Marins esteve muitas vezes do “lado de lá”. Esteve muitas vezes “além, muito além do Além”. Viu “coisas que a nossa vã filosofia nem sequer imagina”. Dante, Poe, H. P. Lovecraft, Robert Louis Stevenson, Mary Shelley... também viram essas coisas. E Zé do Caixão nasceu de um delírio/visão/pesadelo de José Mojica Marins. A criatura nasceu numa noite em que seu criador possivelmente oscilava entre a vida e a morte.
José Mojica Marins (ator), herdeiro direto de Boris Karloff, Bela Lugosi, Lon Chaney...
José Mojica Marins (diretor), o sucessor de F. W. Murnau, Tod Browning, James Whale, Karl Freund...
José Mojica Marins (criador), uma figura tão importante quanto Mary Shelley, Joseph Sheridan Le Fanu, Robert Louis Stevenson, Bram Stoker...
Frankenstein, Mister Hyde, Drácula... Zé do Caixão, personagens que se sobrepõem aos seus próprios criadores.
Frankenstein é um monstro? Todos responderão que sim, e não “o homem que criou um monstro”. E Mary Shelley? Será alguém capaz de associar esse nome tão romântico à autora de Frankenstein, um dos livros capitais da literatura de Horror? E Bram Stoker? Muitos desconhecem que foi ele quem escreveu Drácula. E quanto a Conan Doyle? Um grande número de pessoas desconhece ser ele o criador de Sherlock Holmes – e os menos esclarecidos pensam que Sherlock Holmes existiu realmente e viveu em Londres, no número 221B da Baker Street.
E, quando tiverem passados tantos e tantos anos quanto os que nos separam de Mary Shelley, Bram Stoker e Conan Doyle, será que alguém associará o nome de José Mojica Marins ao de Zé do Caixão? Muitos certamente responderão que José Mojica Marins foi um frei mexicano ou espanhol.
Mas, na verdade, quem é José Mojica Marins?

 

TERIA SIDO UM SONHO?

Recordo-me perfeitamente... Era um anúncio, publicado num jornal de São Paulo. Mostrava umas caveiras, uma coruja, uma árvore desfolhada, uma urna funerária, tudo em negativo, e o seguinte texto: “Aguardem! À Meia-Noite Levarei Sua Alma”. Esse anúncio intrigou-me. Fiquei aguardando. Na época, eu residia em Ribeirão Preto; e um dia, apareceu num dos cinemas da cidade, o São Jorge – um verdadeiro templo do Cinema (ele tinha quase dois mil lugares) e que, embora ficasse no centro, era frequentado por pessoas dos bairros e da periferia –, um painel com algumas fotos e um cartaz com o tal título, À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Não posso deixar de mencionar que as fotos não eram nada recomendáveis. O cartaz muito menos (era um calidoscópio de desenhos toscos e não trazia os nomes dos atores nem indicação alguma de quem havia produzido ou dirigido o filme). Apesar disso, comprei um ingresso, entrei na sala (ela estava quase vazia, havia somente umas trinta pessoas em seu interior), sentei e esperei.
Quando aquilo começou, tive vontade de sair do cinema, acompanhando o cortejo dos que se desalojavam em direção à liberdade. Eu não estava entendendo nada do que via. Eram imagens estranhas; e também havia um personagem esquisito, desconcertante. Eu já começava a ficar arrependido de não ter ido assistir a Um Amor de Vizinho (com Jack Lemmon e Romy Schneider), que estava sendo exibido no São Paulo, o cinema da elite ribeirão-pretana. Realmente, senti vontade de deixar a sala; porém, pelo que me lembro, nunca saí do cinema sem ver escrito na tela The End ou Fim. De repente, senti um calafrio na espinha. Percebi que estava diante de um clima de tragédia pura. Ésquilo, Eurípedes, Sófocles, enfim, todo o teatro grego estava ali, misturado a Shakespeare. Percebi que assistia a uma fita sem par na História do Cinema. Ao mesmo tempo em que se assemelhava a uma peça apresentada num circo mambembe de vilarejo interiorano, tinha algo de tragédia grega ou do teatro elisabetano. Notavam-se também traços da obra do Marquês de Sade. Às vezes, a desumanização do personagem principal era total, inconcebível. O ator que o interpretava gesticulava, gritava, pulava. Suas feições se multiplicavam em máscaras de ódio e sadismo. Eu nunca vira nada igual. E todas essas cenas iriam me marcar profundamente. E destaco uma delas: a do agente funerário Josefel Zanatas (mais conhecido como Zé do Caixão) comendo uma perna de carneiro e olhando através da janela a procissão da Semana Santa. É uma cena de grande impacto (sobretudo por causa da expressão de deboche no rosto do personagem). Uma cena verdadeiramente memorável. Tão memorável quanto aquela que considero a mais bela cena realizada por Chaplin: a cena de Em Busca do Ouro em que Carlitos, do lado de fora do bar, olha pela janela e vê, com uma tristeza infinita nos olhos, a mulher amada – mulher amada essa que havia prometido cear com ele na noite de Ano Novo – se divertindo com outros homens...
Na tela, o ator continuava sua pantomima. Eu nunca havia presenciado nada que pudesse se assemelhar àquelas sequências desconcertantes, uma mistura de Expressionismo Alemão com a inquietação e a angústia que nos provocam os contos de Edgar Allan Poe... Tudo feito no melhor estilo primitivista. Sabia estar diante de um ser único na cinematografia mundial... um louco genial (não poderia haver outra definição para designar o responsável por aquela tragédia na sua mais pura concepção clássica). Só alguém dotado de um espírito genial um espírito muito acima de nossa vulgaridade poderia realizar um espetáculo tão inquietante e paradoxal.
Terminado o filme, lembro-me de que ainda fiquei um tempo sentado na poltrona, como um paciente que, após uma longa enfermidade, começa a adaptar-se ao mundo que o rodeia.
Deixei o cinema sob o efeito “daquele anestésico”. Minha casa ficava a uns quinze quarteirões; e, durante o percurso, que fiz a pé, Josefel Zanatas não saía de minha mente. Esteve o tempo todo ao meu lado; e, quando entrei em casa, não me recordava sequer do trajeto que havia percorrido. O estranho personagem havia saído comigo do cinema e tinha me acompanhado. Sua personalidade e magnetismo eram por demais marcantes, fazendo com que não se restringisse somente ao celulóide e criasse vida própria. Cheguei até a imaginar que cochilara no cinema e havia imaginado tudo aquilo. José Mojica Marins e Josefel Zanatas se confundiam em minha mente. Criador e criatura eram uno.

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos