Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

AS PEQUENAS PRODUTORAS INDEPENDENTES DE HOLLYWOOD
Divino Rodrigues da Silva



Por volta do final dos anos 1920, tanto os filmes mudos quanto a Bolsa de Valores de Nova York estavam rapidamente chegando ao fim da trilha. A economia norte-americana estava se atolando cada vez mais num lamaçal de confusão e crescente desemprego, e a Grande Depressão logo cobriria a nação com um sombrio manto de incertezas.
O Cinema também havia sofrido as conseqüências dos tempos difíceis: as estrelas do cinema silencioso e seus estúdios se debatiam para vencer os desafios da mais recente invenção tecnológica, os talkies, ou seja, os filmes falados. As platéias riam nervosamente e, em seguida, caíam abertamente em gargalhadas, ao ouvirem os ganidos de tenor de astros românticos como John Gilbert. Muitas vezes também as platéias tinham de se esforçar para entender os diálogos emanados das bocas de ídolos da tela com fortes sotaques estrangeiros.
Porém, as grandes fábricas de sonhos de Hollywood não ficaram chorando sobre a morte das fitas mudas; e, em pouco tempo, enormes casas exibidoras começaram a surgir, trazendo extravagantes sons musicais, empolgantes melodramas e uma constelação de novas estrelas – tudo para assegurar que os filmes ainda eram “o melhor dos entretenimentos”.
Por volta dos meados da década de 1930, os cinemas norte-americanos ofereciam a um público sofrido com a Depressão coisas como: noticiosos da tela, comédias curtas, desenhos animados e seriados, que eram apresentados antes de um programa duplo. Foi ali, na sombra dos portentosos estúdios de Hollywood, que as produtoras independentes da Poverty Row prosperaram. Companhias com nomes como Chesterfield, Colony, Invincible, Lone Star, Majestic, Mascot, Preferred, Puritan, Quadruple, Tiffany, World-Wide lançaram um surpreendente volume de filmes de ação de 50-60 minutos.
A propósito, Poverty Row, que significa Fileira da Pobreza, é o termo que, a partir do final dos anos 1920, começou a designar uma área de Hollywood onde se produziam filmes de baixo orçamento. O termo, que tem origem na má qualidade dos edifícios da região, passaria mais tarde a designar também qualquer produção proveniente de empresas cinematográficas menores.
A de maior sucesso, também instalada naquela área e não incluída na relação acima, é a Columbia Pictures, que se tornaria um dos maiores estúdios de Hollywood.
As pequenas produtoras independentes não podiam manter dispendiosos palcos de som e nem efeitos especiais de primeira classe. Para elas, uma câmara, um caminhão, alguns atores e um dia de sol no velho rancho cinematográfico da Warner ou em Eagle Rock, no Vale de San Fernando, era tudo de que precisavam. Com isto em mente, é fácil entender porque o filme de Western ao ar livre se tornou a principal atração das antigas matinês de sábado à tarde, inclusive aqui no Brasil.
Uma vez terminado o trabalho em locação, o produtor alugava um palco de som para o “acabamento final”. O tempo gasto nesses palcos de aluguel era o mais curto possível; e, para cortar custos, os “efeitos de trucagem óptica” tornaram-se uma prática usual. Por exemplo, se um diretor perdia uma tomada, o montador do filme não hesitava em usar generosas porções de cenas de arquivo emprestadas de produções mais luxuosas. Para evitar pagar uma orquestra de estúdio, a maioria das produtoras da Poverty Row fazia a mixagem de música pré-gravada ou “enlatada”, para dar ao seu produto final um toque mais sofisticado.
Em 1935, o custo médio de um filme “B” ficava entre dez e trinta mil dólares (uma fita de Faroeste) e entre 45 e sessenta mil dólares (um seriado de Aventura).
E os astros desses épicos tipicamente norte-americanos se classificavam em duas categorias. Primeiro havia os “anjos caídos”, oriundos da era silenciosa ou que haviam sido dispensados pelas produtoras de maior porte (Warner, MGM ou Paramount). Nomes como os de “Big Boy” Williams, Harry Carey, Hoot Gibson e Ken Maynard logo se tornaram atrações dos populares faroestes “B”.
Na segunda categoria estava uma quantidade enorme de novatos que brilharam durante um curto período nas telas das matinês, mas que rapidamente caíram no esquecimento. Esses atores, que trabalhavam duro nos filmes das produtoras da Poverty Row, nunca se tornaram nomes familiares entre o grande público freqüentador de cinema da época; no entanto, para a garotada que freqüentava as matinês da década de 1930, Buffalo Bill Jr., Buzz Barton, Bob Custer, entre outros, brilhavam mais do que qualquer realeza de Hollywood. Com o passar dos anos, esses nomes foram substituídos por dezenas de outros “mocinhos”, que se tornaram, muitos deles, até mais queridos e lembrados.
As manobras para o mercado de filmes “B” continuaram durante o restante dos anos 1930, até quando três estúdios da Poverty Row surgiram como os mais destacados. Absorvendo a maioria das pequenas produtoras independentes, a Monogram Pictures, a PRC (Producers Releasing Corp.) e a Republic Pictures dominaram as marquises de cinemas, durante os vinte anos seguintes.
Dessas três produtoras, a Republic era inegavelmente a rainha dos filmes “B”. De 1935 a 1956, o estúdio produziu e lançou aproximadamente 50-55 filmes por ano e sessenta seriados. Durante esse período, a Republic elevou o valor orçamentário de seus filmes a alturas inigualáveis. As fitas raramente levavam mais de uma semana para serem completadas, mas suas qualidades técnicas e a eficiência em seu planejamento eram altamente respeitadas por toda a indústria cinematográfica. Entretanto, com a chegada da televisão e os crescentes custos de produção, a Republic acabou sucumbindo e fechou suas portas em 1959.
Outro termo associado à Poverty Row é Gower Gulch, conhecido apelido dado ao local na confluência da Gower Street com o Sunset Boulevard, em Hollywood. No tempo do cinema mudo, a área vizinha abrigava diversos estúdios cinematográficos. Os filmes de Faroeste eram extremamente populares na época; e cowboys iam para Hollywood, esperando encontrar trabalho. Eles se aglomeravam naquela esquina; e, daí surgiu o apelido Gower Gulch (a propósito, gulch significa ravina ou pequeno canyon).
Os cowboys de Gower Gulch e as companhias independentes localizadas ao longo da Poverty Row são, na atualidade, meramente termos encontrados em livros sobre a História do Cinema de Hollywood.
Ainda hoje, quem está de um modo ou de outro ligado à História do Cinema – como nós, que procuramos preservar a memória cinematográfica por meio de nossa publicação, Matinê – sabe que muitos freqüentadores das matinês dos anos 1940 e 1950 se lembram emocionados de muitos dos ídolos de sua infância, como (apenas para mencionar alguns) Willian Boyd (Hopalong Cassidy), Bill Elliott, Charles Starrett (Durango Kid), Buck Jones, Johnny Mack Brown, Buck Jones, Roy Rogers, Gene Autry, John Wayne (que trabalhou em vários faroestes “B”), Allan “Rocky” Lane. Não seria exagero dizer que estes e diversos outros “mocinhos” se tornaram lendários e se perpetuaram na memória de seus ardentes fãs. E, felizmente, para a geração sobrevivente das velhas sessões vespertinas dos cinemas dos anos 1930, 1940 e 1950, seus ídolos de então podem ser revistos, com nostalgia ou não, graças ao advento (primeiro) do VHS e (depois) do DVD.
Aguardem o próximo capítulo desta eletrizante história.

 

Divino Rodrigues da Silva é professor de Inglês e editor da revista Matinê