Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

MINHA INTERPRETAÇÃO DO CONDE DRÁCULA
Christopher Lee



Gostaria muito de voltar a interpretar o papel do Conde Drácula, embora já o tenha recusado várias vezes. Hoje, penso que o público me identifica com o personagem, e minhas recusas sempre foram por ter medo de passar a vida a representar só esse tipo de papel. Mas gostaria de voltar a interpretar o Conde Drácula, desde que a forma de produção e o roteiro do filme me interessassem – posso afirmar que não tenho intenção de interpretá-lo apenas para obter publicidade fácil ou pela ganância de um grupo de pessoas que não sabe apreciar o estilo “clássico” desse grande tema.
É um papel que deve ser encarado com respeito e dignidade, ainda que se deva também considerar o ponto de vista comercial.
Poderá ser uma surpresa para muitos, mas nunca vi qualquer versão cinematográfica de Drácula. Geralmente porque foram realizadas quando eu era muito jovem e não tinha idade para vê-las. Isso talvez tenha sido bom, pois não fui influenciado pelos que me precederam (inclusive, o grande Bela Lugosi).
A minha idéia de interpretação do Conde Drácula sempre se baseou no romance de Bram Stoker, que reli inúmeras vezes.
Claro que entre o filme O Vampiro da Noite e o romance existem diferenças; mas tentei pôr em evidência a solidão do Mal, mostrar que, por mais terríveis

que fossem suas ações, o Conde Drácula era impulsionado por uma força oculta que não podia controlar. Era o diabo que o possuía, obrigando-o a cometer crimes horríveis. No entanto, sua alma, que subsistia no invólucro carnal, era imortal e não podia ser destruída. Tudo isso é para explicar a grande tristeza com que tentei impregnar minha interpretação.
A interpretação compreendia também um problema de ordem sexual: o SANGUE, símbolo da virilidade, e a atração sexual que a ele se liga sempre estiveram estritamente ligados ao tema do vampirismo. Tentei sugerir isso.
O papel do Conde Drácula foi uma das maiores oportunidades de minha vida.

 

O ator inglês Christopher Lee escreveu este texto na década de 1970