Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

A LOUCA OBSESSÃO DE UMA FÃ NÚMERO UM
Sílvio C. Pereira



O filme Louca Obsessão (Misery, 1990) conta a história da relação entre uma fã e seu ídolo (no caso, um escritor de romances).
A fã é Annie Wilkes. Ela é viciada numa série de romances de época. E isso a leva a adorar a personagem principal dos livros, Misery Chastain, e seu autor, o consagrado escritor Paul Sheldon.
Annie mora no Colorado, numa fazenda isolada, perto da cidade de Silver Creek. E, numa manhã de inverno, durante uma nevasca, ela presencia um acidente com o carro de Paul – o escritor esteve hospedado numa pousada de Silver Creek, a fim de escrever seu próximo livro, ainda sem título. Annie resgata-o desacordado do veículo, que foi quase engolido pela neve, e leva-o para sua casa, onde tem por companhia apenas seu porquinho de estimação (não por acaso, ela deu a ele o nome de Misery). E, a seguir, Annie passa a cuidar de seu ídolo, cujos movimentos estão bastante limitados.
Annie Wilkes ganhou vida por meio da atriz Kathy Bates (por esse papel, ela recebeu o Oscar de Melhor Atriz de 1990). Creio que melhor intérprete para a personagem não poderia haver. Pelo menos não nos anos 1990. Há algumas décadas, as prováveis escolhidas para amar com disfarçado ódio o indefeso Paul Sheldon seriam as inesquecíveis Bette Davis e Barbara Stanwyck.
Os olhos e olhares de Bette Davis tinham sua autonomia. Podiam ir para uma direção, e o restante do corpo escolher outra. Suas personagens sabiam dissimular, ou melhor, ela sabia fazer suas personagens dissimularem muito bem. Agora, o que me intriga é saber onde está exatamente essa autonomia facial em Kathy Bates. Que existe... não resta a menor dúvida. E ela interpreta tão bem que monopoliza a atenção do espectador, que busca quase em vão descobrir o que faz suas feições ganharem uma mobilidade tão vasta. Parece ter mil faces à disposição em seu semblante.
Vou arriscar. Para mim, suas sobrancelhas são a chave do mistério a que me refiro. São arqueadas como pernas de caranguejo, quando franzida a testa. Uau! Terrível estar face a face com essa mulher, se ela estiver com o semblante inerte, pois não sabemos o que vem por aí, não sabemos qual será o humor que vai habitar sua face. Não se convenceu? Tudo bem. Seus olhos, de um colorido reluzente, também impressionam. E o que dizer de sua boca, que abre e fecha num ritmo acelerado. Um “dragão furioso” essa Kathy Bates, isto é, Annie Wilkes.
E é justamente a face de Annie Wilkes a primeira coisa que Paul Sheldon vê quando acorda. A visão embaçada, turva... dá lugar ao rosto amplo da fã número um do escritor. Pior ainda: dá lugar a um rosto inerte, no qual logo surge um sorriso, um sorriso que pode ser classificado como um sorriso cínico, um sorriso que deixa o licor da maldade escorrer por um fiozinho no canto da boca. E, ao vê-lo, o espectador logo percebe a tempestade que se aproxima.
Não resta dúvida de que Rob Reiner dirigiu esse filme com grande talento. Porque há, ao longo da fita, tomadas sensacionais, dignas de comparação com alguns dos melhores momentos dos clássicos dirigidos pelo mestre e pai do Suspense, Alfred Hitchcock.
Em Louca Obsessão, não faltam escadas, como nos filmes de Hitchcock. Uma leva ao sótão. Outra leva para o quarto de Annie Wilkes. E uma fica bem na entrada principal.
E, no filme, também não faltam portas, recordando-nos do papel importante que elas têm nas principais tomadas de O Iluminado (The Shining, 1980), de Stanley Kubrick... E a porta pode servir para dois fins: oferecer segurança para quem não quer ser incomodado ou atemorizar a quem a vê como se olhasse para um televisor (sem botões ou controle remoto) ligado num canal exclusivo de filmes de Terror. A música está bem ensaiada com as cenas e faz crescer a tensão (é a música que deixa as cenas de maior suspense mais encorpadas e impactantes), quando uma sombra passageira se intromete entre a luz que se filtra por debaixo da porta ou quando a maçaneta gira torturante no sentido anti-horário (na fita, a porta se abre girando-se a maçaneta ao contrário). Haja coração para suportar essas cenas, pois pode ser a bruxa da Annie entrando no quarto para acariciar ou para apedrejar o ídolo, que mais parece ser feito de barro.
Mas, afinal, como foi que Annie Wilkes se tornou fã de Paul Sheldon?
Por acaso?
Não. Para preencher o vazio deixado com o final de seu casamento, ela começou a ler. E Misery, um melodrama, ofereceu-lhe um mundo irreal, onde poderia se refugiar. E o criador de Misery (romance) e de Misery (personagem) é Paul Sheldon – ele tem o poder de dar vida, matar e ressuscitar a personagem. E a vida de Annie passou a ser a de Misery. Ela passou a viver a vida da personagem e não a sua própria, que terminara com o final de seu casamento. Portanto, matar Misery Chastain representa matar a própria razão de ser da sra. Wilkes. Por outro lado, Annie não percebe, mas o que ela realmente ama é a personagem Misery. Paul não passa de um criador, sendo Misery sua criação. Entretanto, de tanto conviver com Paul, Annie vai se apaixonando por ele (isso me faz lembrar do comentário que o dr. Hannibal Lecter faz sobre a cobiça, em O Silêncio dos Inocentes: “Só cobiçamos o que vemos freqüentemente”).
A primeira aparição enfurecida de Annie ocorre lá pelos trinta minutos de filme. É noite de lua cheia. E o motivo de tanta fúria? Ela leu no original que Paul acabara de finalizar que Misery havia morrido. Com isso, a vida do criador corre perigo e não vale quase nada. Então, para que Paul continue vivo, Annie impõe que ele escreva um novo romance... um romance que traga Misery de volta à vida. Impõe também que esse romance seja dedicado a ela, Annie Wilkes, tornando-a uma celebridade nacional (não pode deixar de ser destacado aqui um traço marcante da personalidade de Annie: a vaidade; ela sempre gostou de aparecer em manchetes de jornais, como provam os recortes da época em que foi julgada pelos assassinatos ocorridos no hospital em que era enfermeira-chefe). Impõe ainda que o romance se inicie com o enterro e o ressuscitamento de Misery. Paul Sheldon assim o faz, o que logo nos traz à memória o filme Frankenstein (1931), de James Whale. E talvez a cena que mais nos faz recordar desse clássico do Horror cinematográfico seja aquela em que Annie, após ler alguns capítulos que Paul escreveu, vibra com a possibilidade de que Misery esteja viva. Ela reproduz a mesma alegria e quase as mesmas palavras do dr. Frankenstein, ao constatar que conseguiu dar a vida ao monstro – o médico berra: “It’s alive! It’s alive!” Annie berra e dança efusiva: “Misery’s alive! Misery’s alive!
“Nós temos o poder de dar a vida eterna a Misery!” “Vamos devolver Misery ao mundo.” São palavras de Paul. E ele as diz porque lhe interessa, servem-lhe como garantia de vida. Porém, enfurecida, tomada de uma paixão fervorosa, possessiva, percebendo que seu amor não será correspondido, Annie vê como única saída a morte de ambos, fã e ídolo, e acredita que os dois só estão juntos para devolver Misery ao mundo.
Louca Obsessão é um filme que mostra a loucura, a cobiça, o extremismo, a paixão doentia e ilimitada dos fãs pelos seus ídolos. Mostra também a falta de talento do homem para preencher os vazios existenciais – comumente ele preenche esses vazios com algo que o escravizará, como aconteceu com Annie Wilkes...

 

Sílvio C. Pereira é cinéfilo