Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

GIALLO, UM GÊNERO GENUINAMENTE ITALIANO
Ivan Fabricio Gagliardi



Uma das vantagens da internet é a difusão de conhecimentos que antes ficavam restritos a determinados países ou grupos. Com um simples clique do mouse, descobre-se uma vasta gama de informações peculiares sobre certos assuntos que antes jamais saberíamos. Para os aficcionados e cinéfilos, muitos gêneros e subgêneros de filmes tornaram-se mais conhecidos quando citados em críticas e artigos on-line. Para exemplificar, podemos citar os Tokusatsu, os famosos seriados japoneses de super-heróis como Jaspion, e os Slashers, os filmes norte-americanos de serial killer. Antes, Tokusatsu e Slashers eram nomes usados somente nos seus respectivos países e causariam estranheza se pronunciados fora daquela área regional; porém, em virtude de a internet facilitar o acesso de um grande número de pessoas à informação, esses termos se tornaram fáceis de serem assimilados por curiosos, fãs e estudiosos de Cinema.
Os italianos também possuem gêneros de filmes que, graças à riqueza cultural possibilitada pela internet, se tornaram mais acessíveis para os fãs de Cinema. Um desses gêneros é o Giallo.
E que é um Giallo? Numa tradução literal, a palavra giallo significa amarelo. Mas, na Literatura e no Cinema, Giallo identifica histórias de crimes misteriosos. Inicialmente, Giallo era usado para designar romances de Detetive & Mistério – quase sempre de procedência norte-americana e traduzidos para o Italiano – publicados em revistas e livros de capa amarela (deve ser destacado que as ilustrações estampadas nessas capas eram normalmente bem chamativas). Com o passar do tempo, o termo se consolidou e, a partir de 1963, quando o diretor Mario Bava realizou La Ragazza Che Sapeva Troppo (numa tradução literal, o título em Português desse filme seria A Garota Que Sabia Demais, fazendo referência a um famoso clássico de Alfred Hitchcock, O Homem Que Sabia Demais/The Man Who Knew Too Much; mas, no Brasil, a fita foi exibida com o título de Olhos Diabólicos), migrou para o Cinema. E as grandes características do Giallo cinematográfico, características essas que o diferenciam de suas fontes primárias de inspiração (os filmes de Detetive & Mistério produzidos nos Estados Unidos), são: o uso intenso de cenas extremamente explícitas de assassinatos (nessas cenas, nas quais o sangue jorra em abundância, os assassinatos parecem bem reais), o trabalho criativo de câmera e edição e narrativas que abusam de temas psicológicos e em que há uma constante atmosfera de horror e medo. Por outro lado, o elemento final e visualmente o ponto de identificação desse gênero cinematográfico surgiu em 1964, no segundo filme do gênero, Sei Donne per I’Assassino (lançado no mercado norte-americano com o titulo de Blood and Black Lace), dirigido por Mario Bava: um assassino usando um chapéu, uma máscara ou algo que oculte seu rosto, um sobretudo escuro e luvas. Esse criminoso anônimo é o grande mistério das tramas; e saber sua identidade, bem como suas razões para cometer os crimes seqüenciados e uma maneira de detê-lo, o grande desafio para os protagonistas.
Mas foi em 1970 que apareceu a fita considerada a maior representante do Giallo: L’Uccello dalle Piume di Cristallo (disponível em DVD no Brasil, com o título de O Pássaro das Plumas de Cristal), dirigida pelo cineasta que é considerado o Hitchcock do gênero, Dario Argento.
Uma adaptação livre do romance The Screaming Mimi (O Esfaqueador, 1949), do escritor norte-americano Fredric Brown, O Pássaro das Plumas de Cristal foi o primeiro filme de uma trilogia que Dario Argento dirigiu – composta ainda por Il Gatto a Nove Code (O Gato de Nove Caudas, 1971) e Quattro Mosche di Velluto Grigio (Quatro Moscas no Veludo Cinza, 1971), essa trilogia ficou conhecida como “a trilogia dos animais”, em razão dos títulos das fitas fazerem referência a algum bicho.
Na época, o sucesso do Giallo foi impactante; e, seguindo o exemplo do Spaghetti Western, um grande número de gialli foi produzido, sempre trazendo um assassino misterioso e cruel. Então, alguns cineastas realizaram verdadeiras obras-primas do gênero – Alberto De Martino (L‘Assassino... È al Telefono, 1972), Aldo Lado (La Corta Notte delle Bambole di Vetro, 1971), Emilio Paolo Miraglia (La Dama Rossa Uccide Sette Volte, realizado em 1972 e estrelado por uma das musas do Giallo, a belíssima Barbara Bouchet), Lucio Fulci (Una Lucertola con la Pelle di Donna/Uma Largatixa num Corpo de Mulher, com a brasileira Florinda Bolkan), Massimo Dallamano (Cosa Avete Fatto a Solange?/Solange, 1972), Sergio Martino (Lo Strano Vizio della Signora Wardh, com a escultural Edwige Fenech, estrela de diversos gialli; e I Corpi Presentano Tracce di Violenza Carnale, 1973); e Umberto Lenzi (Così Dolce...Così Perversa/Tão Doce... Quanto Perversa, 1969; e Il Coltello di Ghiaccio/A Lâmina de Aço, 1972)  –; e Mario Bava presenteou o mundo com Il Rosso Segno della Follia (1970) e Cinque Bambole per la Luna di Agosto (1970).
Infelizmente, pouquíssimos títulos do Giallo foram lançados no mercado brasileiro de DVDs. Assim, a única opção que sobra aos colecionadores, que desejam ter em suas filmotecas os gialli, é comprar DVDs importados.
Para finalizar, resta dizer que o Giallo influenciou diversos cineastas norte-americanos, gerando os Slasher movies, que copiaram muitos conceitos e idéias dos italianos, porém tornando o assassino um ser quase sobrenatural e indestrutível (Mike Myers, de Halloween, Jason, de Sexta-Feira 13, e Freddy Krueger, de A Hora do Pesadelo, são alguns desses assassinos, verdadeiras figuras pop cinematográficas dos anos 1980); e o vilão de Dressed to Kill (Vestida para Matar, 1980) é a prova mais genuína da influência dos gialli em solo estadunidense.

 

Ivan Fabricio Gagliardi é advogado