Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

A FRUSTRAÇÃO DE UM FÃ
Valter Martins de Paula



Depois de anos admirando a figura mítica de Josefel Zanatas, cuja alcunha é Zé do Caixão, tive o prazer de assistir – num domingo de agosto de 2008 – no cinema ao terceiro filme do personagem: Encarnação do Demônio, que foi muito comentado, ganhou prêmios e não conseguiu sucesso comercial.
Cabe dizer, primeiramente, que foi uma sessão pífia (eu, dois amigos e um casal de namorados compunham a platéia geral). Em segundo lugar, devo dizer que não fui cercado de expectativas: tinha apenas a vontade de matar minha curiosidade de assistir a um filme de José Mojica Marins no cinema. Sequer sabia o que esperar, depois de tanta polêmica acerca da fita (tantas pessoas falando bem, tantas pessoas falando mal e algumas pessoas, erroneamente, ficando em cima do muro na hora de exporem sua opinião). E posso dizer que o filme é... uma bela porcaria! Não é um presente para os fãs, não respeita o personagem e não estimula nem um pouco os que apreciam o gênero. É um terror tupiniquim – isso todo mundo já sabe –, mas “chupar” idéias (e até mesmo cenas inteiras!) de outros filmes (um exemplo é a cena de sexo idêntica à de Coração Satânico/Angel Heart) é demais. Portanto, não merece os prêmios que ganhou e não é bom e relevante socialmente como os antigos filmes de Mojica.
São vários os defeitos. A começar pelo lado técnico. A edição é uma coisa pavorosa, tentando modernizar as cenas para um público que não conhece o personagem (talvez aí more a razão de o foco ser outro hoje em dia: Josefel Zanatas é apenas mais um torturador cruel e apático como qualquer personagem de filmes toscos que assolam os nossos cinemas), aproximando-se das edições “ágeis e rápidas” de qualquer filme nacional de padrão “global”.
E o roteiro? Dennison Ramalho não soube trabalhar a filosofia do personagem e suas motivações – sequer sabemos, por exemplo, o porquê de tanta violência com as mulheres. Os personagens são jogados na tela; as interpretações estão todas no automático; e as supostas cenas asquerosas... bem, são... chatas e anticlimáticas demais. O séquito do personagem é uma turma de “descolados” de São Paulo, que declama suas frases de maneira ridícula. Rui Resende também está ruim no papel de Bruno, o corcunda seguidor do mestre. É de dar pena ver atores excelentes, como o falecido Jece Valadão e Cristina Aché, presos a papéis caricatos. As cenas constrangedoras surgem uma atrás da outra; porém, chamou-me atenção aquela em que, logo que ganha a liberdade, após ficar vários anos preso, Josefel observa uns meninos cheirando cola.
Não tem jeito mesmo. Um filme não sobrevive somente por um motivo isolado, como uma boa direção, uma boa fotografia ou um bom elenco. Se não tiver uma história bem delineada, com motivações que deixem o público preso, o filme morre na praia. E este novo trabalho de José Mojica Marins é mais uma fita nacional vítima de sua própria campanha. O que me pareceu é que Mojica interpreta aquilo que as pessoas enxergam de seu personagem e não “o” personagem em si. Até mesmo a entonação de sua voz em algumas cenas é patética (e aqui não faço juízo do valor carismático de sua figura).
Quero frisar: o que o filme tem de ruim é o roteiro. A modernização não pegou bem para o personagem. Se Mojica retomasse alguns conceitos filosóficos e introspectivos de Josefel Zanatas, tentando encontrar uma motivação lógica e crível para a trama geral, o filme teria mais potencial.
Sinceramente, não vejo um final feliz para Encarnação do Demônio. Reconheço, agora, o porquê de o filme ter feito uma campanha ruim nos cinemas (contradizendo as palavras dos produtores, a fita teve pouco mais de uma dezena de cópias no interior do estado de São Paulo). Se Mojica esquecesse todo o contexto seco e atual em que vivemos e retomasse o personagem em alguma outra realidade, certamente a importância do filme viria à tona. Talvez, então, o personagem encontrasse repercussão ante o público, que está cada vez menos interessado em filmes “sangrentos”. E talvez, daí sim, as imagens repercutissem na mente de qualquer pessoa que gosta e nutre certo interesse pelo poder do oculto – e, conseqüentemente, pelo poder mágico do Cinema. Pelo que pude perceber, são qualidades que o filme não sustenta.
Malditos roteiros fracos!
As questões filosóficas, as motivações e as lutas internas do personagem só cabem mesmo nos filmes antigos. Não tiro os méritos de Mojica como artista, de maneira alguma (continuo sendo um fidelíssimo fã do mestre), e aprecio a garra que o homem tem em realizar um filme desta natureza nos dias de hoje. Também não vou dizer que o único que soube trabalhar com ele foi Rubens Francisco Lucchetti, o principal autor de histórias fantásticas e sobrenaturais do Brasil – segundo a profa. dra. Josette Monzani, professora de Cinema do Departamento de Artes e Comunicação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Lucchetti “conhece e domina muito bem o universo povoado por múmias, fantasmas, vampiros, plantas carnívoras, gênios megalomaníacos, bichos esotéricos, seres mutantes, instrumentos de tortura, castelos, pântanos, porões, cavernas misteriosas, em que transita. O sobrenatural, o fantástico lhe é familiar em todas as particularidades” [“A Tradução da Tradução: A Parceria de Rubens F. Lucchetti e Ivan Cardoso”, in Bernadette Lyra & Gelson Santana (organizadores), Cinema de Bordas, São Paulo, A Lápis, 2006, p. 94] –, que roteirizou seus principais filmes (O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta, Exorcismo Negro, Delírios de um Anormal, entre outros) e deu “alma” ao personagem.
Quando digo que o filme é ruim é porque o roteiro não soube trabalhar o peso de trinta anos de ausência de nossa mais importante figura do inconsciente coletivo, visto que sua última aparição foi em Delírios de um Anormal (a maior parte dessa fita foi feita de cenas não aproveitadas de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão e Exorcismo Negro), de 1978.
Quando falo que José Mojica Marins interpreta a caricatura dele próprio, é isso mesmo: os diálogos soam pretensiosos, e as cenas transcorrem sem clima algum (se é culpa do diretor ou do diretor-assistente, eu não sei). Creio, na verdade, que o personagem morreu aí. Não existe razão para que se continue a saga, tamanho o ridículo do final.
Como entretenimento puro e cru, Encarnação do Demônio é um filme falho demais, salvo apenas por algumas curiosas cenas (a abertura arrebatadora; a reconstrução da última cena de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver) e algumas personagens (como as tias cegas e videntes, interpretadas pelas maravilhosas Helena Ignez e Débora Muniz), únicos bons resquícios das antigas fitas de Mojica.
Depois de ter visto Encarnação do Demônio, pareceu-me que a maior parte dos críticos se poupou em escrever algo “de ruim” sobre o filme, levando a questão para o campo pessoal, para não manchar a imagem pública de Mojica, devido à importância da volta do personagem para os nossos cinemas. Valor histórico, sem dúvida; mas nada impede que o filme seja analisado friamente, e as imperfeições e defeitos sejam apontados. Por outro lado, não sei se as pessoas que falam bem de Encarnação do Demônio são as mesmas que malhavam Mojica na época de seus filmes mais importantes; portanto, fico com o pé atrás com relação às opiniões, que são sempre pessoais e únicas.
A sensação que tive foi de completo desconforto, após as primeiras cenas. E pode não parecer, mas fui sem qualquer preconceito ou relutância... Antes de qualquer coisa, vi o filme como um legítimo e fiel fã.
Se Encarnação do Demônio irá significar alguma coisa para a carreira de Mojica, só o tempo poderá dizer. É esperar para ver. O fato é que, se Mojica continuar trabalhando com pessoas incompetentes que não sabem moldar seu personagem para os tempos atuais – tornando-o vítima de sua própria época –, não conseguirá dar a tão sonhada volta por cima. Criador e criatura se restringirão a ser apenas um pastiche deles mesmos e não conseguirão ser levados a sério num país cada vez mais cínico e cruel com suas figuras míticas.

 

Valter Martins de Paula é jornalista e historiador