Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

MADRE JOANA DOS ANJOS
Valter Martins de Paula



Algumas pessoas que dizem gostar de Cinema em sua forma mais artística acreditam piamente que os Estados Unidos sejam o berço do chamado Cinema Fantástico e de Horror. Acreditam que alguns filmes (leia-se: filmes que entraram para o “manual de como fazer Cinema”) só poderiam ter sido produzidos em solo norte-americano. E é comum as pessoas acreditarem que cineastas como Roman Polanski (ironicamente, ele nem é americano) e William Friedkin – só para ficar em dois exemplos de cineastas que ajudaram a sedimentar o Cinema de Horror nos anos 1960-1970 (o valor histórico de filmes como O Bebê de Rosemary/Rosemary’s Baby e O Exorcista/The Exorcist é incontestável. Serviram para trazer aos incrédulos um novo patamar de terror e uma nova e indubitável maneira de sentir medo) – sejam originais e únicos, que seus filmes não possuem precedentes e que são a “gema” da Sétima Arte.
O grande erro é relegar o Cinema de Horror a alguns diretores de renome e ignorar que em alguns cantos do mundo há cineastas preocupados em tecer filmes com conteúdos muito mais relevantes para a platéia. E há filmes belos e surpreendentes (e o que é o Fantástico senão uma bela e infinita surpresa?) feitos muito antes de Mia Farrow observar pasma o carrinho de seu bebê e Linda Blair vomitar a sopa de ervilhas.
E esses filmes belos e surpreendentes precisam ser vistos – ou revistos. Mas para isso é preciso que sejam lançados, sejam nos cinemas ou em DVD, como é o caso de Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od Aniolów).
Até poucos meses atrás, era impossível encontrar no mercado digital brasileiro Madre Joana dos Anjos. Graças a uma pequena distribuidora de DVDs, a Lume Produções, de São Paulo, esse filme, que ainda era inédito (em DVD) no país, conseguiu ser comercializado. E qual não foi minha surpresa, já que desconhecia por completo essa fita, ao constatar que o Cinema de Horror é possível em outros cantos remotos do mundo. Pois Madre Joana dos Anjos, um filme belíssimo, é um desses casos raros em que tudo conspira (seja na escalação de atores, no roteiro muito bem elaborado, no enquadramento dos planos, na fotografia em preto-e-branco, nas mensagens subliminares e muito proféticas) para que se tenha um exercício ininterrupto de tensão. E qual não foi minha satisfação ao observar atônito que tal filme é talvez o primeiro a tratar de um tema hoje corriqueiro no cinema comercial: a possessão demoníaca (segundo Rubens Ewald Filho, no Dicionário de Cineastas, Madre Joana dos Anjos é “o melhor filme de exorcismo”). E com um diferencial: a possessão demoníaca ocorre no local menos provável possível: um remoto convento instalado em uma área rural da Polônia.
Sim, o filme não é norte-americano. Sim, o filme é ousado e polêmico (e o verdadeiro Cinema tem de ser ousado e polêmico). Sim, existe algo no filme que o torna único e precursor. O diretor Jerzy Kawalerowicz tratou o tema com respeito e com muito cuidado. A primeira cena já nos dá o tom daquilo que encontraremos no decorrer da trama: sem música alguma, acompanhamos a reza de um padre em seu quarto (algo como uma punição sendo paga). Logo, observamos tratar-se de uma área rural, pois dois cavaleiros conversam sobre alguns fatos corriqueiros e banais. Chegando a uma taverna onde alguns tipos estranhos estão presentes, o tal padre diz que veio para tratar de uma freira que acredita estar doente, uma vez que algumas de suas ações recentes não condizem com o comportamento esperado de uma religiosa fervorosa. Todos ali acreditam tratar-se de possessão demoníaca; e o casto padre se vê numa situação delicada, em que se rende e se questiona. A tal freira não é outra senão a Madre Joana do título (interpretada por Lucyna Winnicka, que trabalhou em diversos filmes de Kawalerowicz). Ela é uma simpática religiosa do convento local e diz ser receptáculo de sete demônios.
O filme possui um ritmo próprio e não está muito preocupado em fazer assustar. E talvez aí resida a sua principal qualidade. Por outro lado, a estranheza com a qual o diretor conduz a sua câmera em planos-seqüências belíssimos e a liberdade que dá aos personagens (nunca os coloca em situações banais e desinteressantes), qualifica-o como um verdadeiro gênio. Seja nos diálogos mais chocantes (como aqueles proferidos quando  padre e freira se encaram pela primeira vez) ou nas cenas mais perturbadoras, que abusam dos primeiríssimos planos, o diretor tem total domínio da obra que se propôs a realizar. E mais do que colocar o espectador em dúvida em relação às suas verdades e crenças, Kawalerowicz realizou uma proeza em pleno ano de 1961: fazer com que o filme – que é, na verdade, um questionamento profundo e incômodo sobre o impacto da religião na vida das pessoas crédulas e fracas – fosse reconhecido no Festival de Cannes (ganhou o Prêmio Especial do Júri) e ganhasse fama internacional como precursor de todo um gênero que seria adorado e nunca esquecido pelos cinéfilos mais fiéis.
Se você é amante de Cinema, mas do verdadeiro Cinema, não pode cometer o erro de não assistir a Madre Joana dos Anjos.

 

Madre Joana dos Anjos (1961, 105')
Direção: Jerzy Kawalerowicz
Roteiro: Tadeuz Konwicki & Jerzy Kawalerowicz, baseando-se num romance de Jaroslaw Iwaskiewicz
Elenco: Lucyna Winnicka, Mieczyslaw Voit, Anna Ciepielewska, Maria Chwalibóg, Kasimierz Fabisiak
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Lume

 

Valter Martins de Paula é jornalista e historiador

 

NOTA (escrita por Marco Aurélio Lucchetti):

A respeito de MadreJoana dos Anjos, o crítico francês Jacques Siclier afirmou o seguinte, no número 121 da prestigiosa revista Cahiers du Cinéma: “Kawalerowicz atacou em Madre Joana dos Anjos as manifestações concretas de uma noção abstrata. Se não fossem os hábitos religiosos (tão estilizados, que não passam de uma idéia de uniforme), as personagens poderiam ser as vítimas de uma outra ideologia (o fascismo por exemplo) e o resultado seria o mesmo. O fanatismo e o dogmatismo tomaram outros aspectos nos nossos dias (...). Kawalerowicz é o contrário de um homem limitado. Se seu filme adota uma conclusão pessimista (ninguém chega a uma conclusão positiva, a não ser o pároco de aldeia, que se mantém fora das discussões e cultiva o seu trigo), é porque Kawalerowicz é obcecado, como todos os cineastas e intelectuais poloneses, pela destruição do indivíduo encarcerado pelas ideologias modernas.”