Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

ED WOOD
OU A HOMENAGEM DE UM AUTOR CONHECIDO A UM AUTOR ATÉ ENTÃO COMBATIDO

João Rodolfo Franzoni



Numa análise apressada, Hollywood sobrevive associada à imagem de fama e riqueza incalculável advindas de seus filmes, astros e realizadores. Mas tal raciocínio ignora um determinado gueto de produtoras mambembes que, desde os primórdios da Capital do Cinema, abastecem um nicho interessado em filmes – realizados com orçamentos irrisórios e geralmente exibidos no interior dos Estados Unidos – de monstros e invasões alienígenas. Tim Burton, um dos cineastas mais autorais a despontarem nas últimas décadas na Meca cinematográfica, é o porta-voz dessa minoria: apaixonado por esses filmes considerados ruins, ele, de certa forma, procura trazê-los à luz da descoberta. Portanto, não causa surpresa, que ele seja um admirador daquele que foi considerado “o pior cineasta de todos os tempos” ou “o pior cineasta do mundo”, Edward D. Wood Jr. (1922-1978), mais conhecido como Ed Wood, e tenha se esmerado numa cinebiografia em cujo sucesso muitos não acreditavam.
O filme Ed Wood (1994) é simplesmente uma homenagem à paixão que, independente do resultado alcançado, move qualquer cineasta no ofício de sua função. E, se os erros de continuidade, cenários prestes a despencarem e atuações ruins fascinam a platéia, tal proeza é obra de pioneiros como o biografado que, ainda que não conscientemente e sem talento algum, enxergavam no Cinema uma arte movida pela diversidade – diversidade essa com espaço para pérolas da ruindade como Glen or Glenda (1953), que conta a história de um sujeito (interpretado por Daniel Davis) que tem medo de revelar para a namorada, Barbara (Dolores Fuller), que desde jovem tem o hábito de vestir-se como mulher; ou Plano 9 Invasão Intergalática (Plan 9 from Outer Space, 1959), uma tentativa de Ficção Científica sobre alienígenas que invadem a Terra e ressuscitam cadáveres. E é o entusiasmo inabalável do protagonista que torna essa sua história tão divertida e apaixonante: produtor, roteirista, ator e diretor de seus filmes, Wood se comparava a Orson Welles (1915-1985)... se comparava a Orson Welles pelo acúmulo de funções, é claro! E, durante a realização de suas fitas, contagiava sua trupe minúscula, uma reunião de outsiders que jamais seria recebida pela porta da frente dos grandes ou até mesmo médios estúdios, mas era acolhida de braços abertos pelo incansável esteta.
Sem dúvida alguma, o grupo de atores que trabalhava nos filmes de Ed Wood era estranho – ele próprio era um obcecado por se travestir de mulher e não disfarçava sua disposição para usar roupas femininas, inclusive em público –; porém, encantador em suas idiossincrasias. E, numa amostra cruel da transitoriedade em Hollywood, tal qual a Nora Desmond vivida por Gloria Swanson no clássico Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard,1950), o ator húngaro Bela Lugosi (1884-1956), protagonista de fitas de Horror seminais como Drácula (1931), comparece aqui no fim da vida como um ator decadente, esquecido e resgatado por Ed Wood. E essa figura atormentada e de dimensões trágicas recebe em Ed Wood um registro, no mínimo, antológico: Martin Landau, premiado merecidamente com um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, passou a habitar a galeria das grandes caracterizações. Sempre que Lugosi está em cena, o espectador é imediatamente hipnotizado por um homem tentando se agarrar aos vestígios de dias que guardou como os melhores de sua vida. E sempre também que o protagonista, em suas tentativas de angariar dinheiro para suas produções, menciona ter Lugosi no elenco, a reação de seus interlocutores é implacável: “Mas ele não está morto?” Num filme ancorado no humor respeitoso, Tim Burton se dá ao luxo de esgarçar o lado nocivo do mecenato cinematográfico por meio de um antigo símbolo da glória reduzido ao limbo. É a prova da maturidade de Burton, bem como o papel da vida de Martin Landau – o ator, lembrado como um dos vilões do filme Intriga Internacional (North by Northwest, 1959), de Alfred Hitchcock, e que obteve respeito somente na década de 1980 com duas indicações ao Oscar por sua atuação em Tucker, Um Homem e Seu Sonho (Tucker: The Man and His Dream, 1988) e Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, 1989), faz um trabalho mediúnico. É impossível escapar à sensação de que Burton transfere-se ao seu biografado nas cenas em que a admiração mútua entre esses dois seres (Wood e Lugosi) está mostrada na tela. O próprio Burton, aliás, teve a oportunidade de trabalhar com um de seus ídolos de infância, Vincent Price, em Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990), uma obra-prima feérica e subversiva, cuja história é inspirada em Frankenstein, A Bela e a Fera e Pinóquio.
E que diretor de atores irrepreensível revela-se o amalucado realizador de Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988), uma irreverente viagem ao mundo dos mortos, e Batman (1989), uma versão rebuscada do personagem de histórias em quadrinhos criado no final da década de 1930 por Bob Kane! Talvez porque em momento algum ele recorra ao escárnio para desenhar figuras fadadas a serem marginalizadas pela elite. E a sensação que se tem durante todo o filme é a de que o elenco se comoveu com tal registro e atuou de forma verdadeiramente apaixonada. Sarah Jessica Parker está ótima (este é, até o presente momento, seu melhor desempenho), no papel de Dolores Fuller, primeira namorada de Ed Wood; e seus chiliques, sobretudo ao ser preterida como a estrela de A Noiva do Monstro (Bride of the Monster, 1955) por uma recém-chegada com trezentos dólares para investir na produção, mostram uma graça e uma melancolia admiráveis. Jeffrey Jones interpreta um paranormal de araque que tenta servir de relações públicas. Lisa Marie encarna Vampira, uma apresentadora de programas de Horror na televisão, que, num momento de desemprego, é obrigada a juntar-se, ainda que contrariada, à equipe de Wood. E, por fim, Johnny Depp. Antes de se tornar um dos atores mais bajulados da atualidade, ele despeja aqui seus maneirismos de uma maneira notável, jamais transformando em patético alguém resistente aos maiores desaforos e recusas. Enfim, Ed Wood é um mosaico de boêmios, sonhadores e pretensos artistas retratados com uma imensa ternura, sem que isso signifique enfeitar ou fazer um registro artificial, o que inevitavelmente evoca Broadway Danny Rose (1984), de Woody Allen.
É, sem dúvida, essa inclinação ao incomum que torna Ed Wood, acima de tudo, um filme tão afetuoso. Fãs das fitas de Wood – acreditem: eles existem e aumentaram desde o lançamento dessa cinebiografia – não se importam com o amadorismo da produção e apreciam os resultados obtidos com a escassez de recursos. E, no que diz respeito ao amadorismo e à escassez de recursos, Ed Wood era mesmo imbatível... Os discos voadores mostrados em Plano 9 Invasão Intergalática eram pratos pintados e suspensos por varas de pescar; o cenário, reproduzindo um cemitério, estava tomado por dobras no chão; os diálogos partiam de um lutador de boxe seboso sem a menor noção (ou possibilidade) de dicção. Mas talvez a maior das bizarrices fosse o fato de imagens não aproveitadas pelos grandes estúdios e que mofavam nas prateleiras de enormes galpões (essas imagens mostravam desde uma manada de búfalos em disparada até um polvo submerso, passando por um exército em ação) serem anexadas sem muito ou nenhum sentido às suas produções. E, já que citamos Plano 9 Invasão Intergalática, filme pelo qual Wood sempre quis ser lembrado... Bela Lugosi faleceu, durante as filmagens dessa fita, deixando algumas cenas rodadas. Então, para que seu personagem fosse mantido, que fez Ed Wood? Aproveitou a silhueta similar (aliás, silhueta não tão similar assim) do médico quiroprático de sua fiel companheira (nas cenas em que aparece o ator providencial, ele é mostrado com uma capa que lhe cobre quase inteiramente o rosto). Ed Wood podia ser acusado de tudo, menos de não ser original nas emergências!
Ed Wood, tal qual a filmografia de seu biografado, é um daqueles filmes que nasceram com vocação para se tornar um cult movie. Filmado num preto-e-branco indispensável ao realismo pretendido, ele passeia pela obstinação humana com a pureza de alguém feliz na simplicidade mas ciente de sua vocação para um ofício sujeito a um rol interminável de experiências e reações: o de fazer filmes. Se o verdadeiro Ed Wood nunca encontrou em vida o mínimo de prestígio (ao contrário, morreu alcoólatra e, para sobreviver, tinha de escrever histórias pornográficas), ninguém melhor do que Tim Burton para fazer-lhe justiça. Cineasta reconhecido e aplaudido, Burton é um dos poucos realizadores a manterem uma assinatura visual em Hollywood, apesar de alguns deslizes como a desnecessária refilmagem de Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 2001), que está anos-luz da obra-prima original. O mais curioso é que os mesmos adeptos da cultura elitista e academicista que jamais enxergariam qualquer resquício de arte e relevância nas obras do biografado são os mesmos que acompanharam o coro de admiradores dessa cinebiografia. Temos aí, portanto, mais uma dessas fascinantes contradições que tornam o Cinema uma arte tão superior, mesmo quando recorre a alternativas consideradas não muito prudentes ou aceitáveis. E, nessa arena, ninguém ainda reinou com mais majestade e (olhem só!) reconhecimento que Ed Wood.

 

Ed Wood (124')
Direção: Tim Burton
Roteiro: Scott Alexander & Larry Karaszewski
Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Jeffrey Jones, G. D. Spradlin, Vincent D’Onofrio, Lisa Marie, Bill Murray, Mike Starr, Max Casella, Brent Hinkley, Juliet Landau
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Buena Vista

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista