Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

DOIS PERSONAGENS DE JOSÉ MOJICA MARINS
Marco Aurélio Lucchetti



1 – JOSEFEL ZANATAS

Figura principal dos filmes À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, Josefel Zanatas foge à regra de tudo o que existe em matéria de personagem de Horror/Terror, pois não é nenhum lobisomem, nem um monstro criado em laboratório, nem uma múmia rediviva após permanecer fechada numa catacumba por mais de trinta séculos, nem um vampiro que se alimenta do sangue de lindas donzelas. Ele é apenas o que, no interior do Brasil, se dá o nome de papa-defunto. E justamente por ser um papa-defunto, um agente funerário, Josefel Zanatas recebeu da população do lugarejo onde vive o apelido de Zé do Caixão.
Abre um parêntese.
Em 12 de dezembro de 1992, numa entrevista dada ao autor deste artigo, o cineasta José Mojica Marins declarou o seguinte:

“Com referência ao nome do personagem Zé do Caixão, devo esclarecer que ele surgiu espontaneamente e devo confessar que não poderia ter encontrado outro melhor. Zé é um nome bem característico do Brasil. Há inúmeros Zés espalhados por todo o país: o Zé da padaria, o Zé do açougue, o Zé da banca de jornal... Há também o Zé-ninguém. E o ‘do Caixão’ é em virtude de ele ser um papa-defunto.”

Fecha o parêntese.
Nos dois filmes, Josefel Zanatas é mostrado como um homem perverso, sanguinário, vil, violento, destituído do menor traço de compaixão e acostumado a praticar os atos mais bárbaros, cruéis e selvagens. É um sádico – seu maior prazer é ver os outros sofrerem. E, por falar em sádico, algumas das frases ditas por Josefel Zanatas remetem de imediato às idéias e teorias daquele que deu origem a esse termo, o escritor francês Marquês de Sade (1740-1814). Um exemplo disso está nesta fala do papa-defunto para Márcia, uma das muitas mulheres a quem seduziu:

“Amas-me. Amas-me. O amor, este estado de pré-imbecilidade, arruína o homem. Os que amam são espezinhados e incompreendidos. Logo, este sentimento é negativo. Lamentável tê-lo visto em teus olhos. Lamentável; não fosse essa fraqueza, serias a mulher perfeita.” (1)

Ela nos faz lembrar destes conselhos dados pelo devasso Dolmancé à aprendiz de libertina e voluptuosa Eugénie de Mistival, na peça La Philosophie dans le Boudoir (A Filosofia na Alcova, 1795):

“Falais dos laços do amor, Eugénie; que não venhais a conhecê-los! Ah! Pela felicidade que para vós almejo, jamais penetre tal sentimento em vosso coração! O que é o amor? Não podemos considerá-lo senão como o efeito, sobre nós, de um objeto belo; estes efeitos nos arrebatam; inflamam-nos; se possuímos o objeto, estaremos contentes; se nos é impossível tê-lo, eis-nos em desespero. Mas qual é a base de tal sentimento?... O desejo. E em que resulta?... Na loucura. Atenhamo-nos ao motivo, e preservemo-nos dos seus efeitos.”
(2)

Algo que não pode deixar de ser dito, ou melhor dizendo, algo que não pode deixar de ser ressaltado é que Josefel Zanatas é um ser desprezível. É um bruto. É um debochado, que desdenha de tudo e de todos. É um sujeito que não respeita ninguém, não respeita coisa alguma. Não respeita os vivos... nem os mortos. É também um incrédulo, que não acredita em nada... aliás, acredita apenas numa coisa: a perpetuação do sangue. E, nas adaptações literárias de À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver – essas adaptações literárias, publicadas em três livros de bolso (3), foram escritas por Rubens Francisco Lucchetti, que se baseou nos roteiros dos filmes –, Josefel Zanatas é assim descrito:

“Era alto, magro, feições quase cadavéricas, longas unhas e espessa barba negra a cobrir-lhe o rosto, olhos brilhantes e profundos. Enfim, uma estranha e apavorante figura que provocava calafrios em qualquer pessoa que a visse.” (4)

(...) o agente funerário Josefel Zanatas, (...) com sua capa preta, sua cartola, suas unhas compridas anunciando a tragédia, suas roupas escuras, seus olhos negros e tenebrosos, seus modos estranhos, sua vida enigmática...” (5)

“Ela ficara perturbada pela forte personalidade daquele homem estranho, que se trajava completamente diferente dos demais naquela cidade: longa capa preta, sobre um terno da mesma cor e cartola. Em qualquer outro homem, esta indumentária seria ridícula; mas nele inspirava personalidade e segurança.” (6)

 

EM BUSCA DA MULHER SUPERIOR

“Cada um de nós não passa de uma metade de ser humano. De um foram feitos dois; nós fomos cortados ao meio como linguado! E cada um busca incessantemente sua metade correspondente.” (7)

As palavras acima fazem parte de O Banquete, de Platão (427 a.C.-c. 347 a.C.), e foram atribuídas ao poeta cômico grego Aristófanes (c. 445 a.C.-c. 386 a.C.), que apregoava que, nos primórdios da existência humana na Terra, o homem e a mulher formavam um único ser. De acordo com Aristófanes, esse ser era por demais poderoso – tinha quatro braços, quatro pernas, dois rostos rigorosamente semelhantes e voltados em direções opostas, quatro orelhas, órgãos sexuais duplos etc. – e representava uma ameaça aos deuses, com quem queria igualar-se e a quem, em certas ocasiões, desafiava e enfrentava. Ainda segundo Aristófanes, após muito refletir a respeito de como tornar mais dócil os seres dessa ousada e poderosa raça de humanóides, Zeus, o deus supremo do Olimpo, decidiu dividir cada um deles em duas metades.
Quando dividiu em dois o ser humano, Zeus deixou-o menos forte e capaz, fazendo-o esquecer-se de parte de sua intrepidez e tornando-o completamente subserviente aos deuses do Olimpo. Foram, assim, criados o homem e a mulher. E, desde então, o homem busca sua metade feminina e vice-versa, a fim de completarem-se.
Como outros homens, Josefel Zanatas também busca incessantemente sua metade feminina. Mas busca um tipo especial de mulher: a mulher superior, em cujo ventre quer gerar um filho, o filho perfeito, por meio do qual pretende imortalizar-se.
E, no afã de encontrar a mulher superior, que precisa ser destituída do sentimento do medo, ele não sente o menor constrangimento ou a menor piedade em matar todas  aquelas que não servem para seu propósito. Primeiro, elimina sua esposa, Lenita, que não pode ter filhos; em seguida, estupra e provoca o suicídio de Tereza, a noiva de seu único amigo, Antônio Siqueira de Araújo, a quem já havia matado; e, depois, causa a morte de cinco jovens – Jandira, Lídia, Vilma e as irmãs Dirce e Mariana – que demonstraram fraqueza e não passaram no teste da coragem.
Em sua longa busca pela mulher superior, Josefel Zanatas encontrou algumas mulheres que podiam ser classificadas como tal. Uma delas é Laura, que conseguiu ser engravidada por ele. Infelizmente, antes que a criança nascesse, Laura faleceu; e, com isso, Josefel Zanatas teve interrompido, pelo menos temporariamente, o sonho de imortalizar-se por intermédio do filho perfeito.
Resta dizer que talvez em Encarnação do Demônio, que está ainda em fase de produção (8)  – Mojica demorou quase quarenta anos para conseguir produzir o filme –, Josefel Zanatas veja finalmente o nascimento de seu filho.

 

2 – ZÉ DO CAIXÃO

Em 2002, o pesquisador e crítico Carlos Primati, um grande conhecedor de filmes de Horror/Terror, e o diretor e produtor Paulo Duarte, estiveram em casa, para entrevistar meu pai. Foi uma entrevista longa (9), em que meu pai falou principalmente sobre seu trabalho com José Mojica Marins.
Recordo-me de que em, determinado momento da entrevista, o Primati disse mais ou menos o seguinte:

“No À Meia-Noite, Josefel Zanatas sai em busca da mulher superior e não consegue encontrá-la. No Esta Noite, acontece a mesma coisa. Caso seja feito um terceiro filme em que ele apareça como protagonista, só há duas possibilidades: Josefel pode, enfim, encontrar a tal mulher... ou pode, mais uma vez, não encontrá-la. Portanto, na minha opinião, Josefel Zanatas é um personagem para apenas três filmes, justifica tão-somente uma trilogia. Trilogia essa iniciada com a fita À Meia-Noite Levarei Sua Alma, que prossegue com o filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e que se encerrará com a fita em que ele encontrará ou não a mulher perfeita, a mulher superior, a mulher que gerará o filho tão desejado. Se for realizado um quarto filme, o personagem cairá no ridículo. Além do mais, para mim, Josefel Zanatas não tem relação alguma com o Zé do Caixão que surgiu a partir de O Estranho Mundo. Os dois são bem distintos entre si, apesar de quase todas as pessoas acharem que são um só personagem. A confusão começou porque ambos os personagens foram interpretados pelo mesmo ator: o Mojica.”

Nunca tinha ouvido alguém dizer isso. Então, nos dias seguintes, assisti atentamente aos quatro principais filmes de José Mojica Marins, À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão e Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta; e também cheguei à conclusão de que, com exceção de terem sido interpretados pelo mesmo ator e usarem trajes semelhantes, Zé do Caixão e Josefel Zanatas são personagens totalmente distintos.
Como já foi dito, Josefel Zanatas é um agente funerário. É irascível, violento. É também um frio assassino. Acredita apenas em si mesmo e na perpetuação do sangue. Vive num lugarejo próximo de São Paulo. Quanto a Zé do Caixão...
Bem, na verdade, pouco sabemos a respeito de Zé do Caixão. Para ser mais exato, sabemos apenas uma coisa a respeito dele: é um profundo conhecedor de casos estranhos, casos sobrenaturais, que apresentou não somente no filme O Estranho Mundo de Zé do Caixão, mas também em três séries produzidas para a televisão – Além, Muito Além do Além (Rede Bandeirantes de Televisão, canal 13, setembro de 1967-julho de 1968, 34 episódios), O Estranho Mundo de Zé do Caixão (Rede Tupi de Televisão, canal 4, julho de 1968-novembro de 1968, 13 episódios) e Um Show do Outro Mundo (Rede Record de Televisão, canal 7, agosto de 1981-outubro de 1981, 12 episódios) – fotonovelas e histórias em quadrinhos publicadas nas revistas O Estranho Mundo de Zé do Caixão (Editora Prelúdio e Editora Dorkas, 1969, seis números), Impacto (Editora Prelúdio, 1970, um único número) e Zé do Caixão no Reino do Terror (Editora Prelúdio, 1970, dois números).
Mas quem é Zé do Caixão?
Segundo o cineasta Ivan Cardoso, que realizou O Universo de Mojica Marins (1978), um documentário sobre a vida e a obra de José Mojica Marins, Zé do Caixão é um personagem “supermisterioso” (10). E o mistério do personagem aumenta ainda mais por desconhecermos por completo o local onde ele vive. Temos somente a certeza, de acordo com suas próprias palavras no prólogo de Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta, de que habita um “mundo estranho”. Porém, que mundo é esse? É o nosso? É um universo paralelo? É um mundo além, muito além do Além? Quem sabe...?
Por outro lado, Zé do Caixão está vivo? Está morto? Ou, a exemplo do Conde Drácula e outros vampiros, nem vivo nem morto; mas VIVENDO NA MORTE?
Então, retornamos à pergunta: “Quem é Zé do Caixão?”
Talvez Zé do Caixão seja um feiticeiro, um bruxo (chega-se a essa conclusão, levando-se em consideração o final de cada episódio de Além, Muito Além do Além, em que o personagem lançava uma maldição aos telespectadores). Ou talvez seja um ocultista (daí conhecer tantos casos sobrenaturais). Ou talvez possa ser um íncubo (11) – o cartaz do filme O Estranho Mundo de Zé do Caixão,

que mostra Zé do Caixão e um grupo de cerca de quinze mulheres trajando apenas calcinha e sutiã (12), leva-nos a pensar isso. Ou talvez seja uma entidade, que pode ser admirada, venerada...
E novamente perguntamos: “Quem é Zé do Caixão?”
Agora, é o próprio Zé do Caixão quem nos dá a resposta:

“Quem sou não interessa, como também não interessa (...) quem somos. (...) Não se dê ao trabalho de pensar, porque a conclusão seria: a loucura; o final de tudo, para o início do nada.” (13)

 

Filho do roteirista Rubens Francisco Lucchetti, Marco Aurélio Lucchetti é professor e pesquisador de Cinema e Quadrinhos

 

NOTAS:

(1) Aldenoura de Sá Porto, roteiro de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, p. 37.

(2) Marquês de Sade, A Filosofia na Alcova, tradução de Martha A. Haecker, Rio de Janeiro, JCM, 1968, p. 110.

(3) Por ser muito longa, a história de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver acabou originando dois livros de bolso: Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver e O Vale dos Mortos.

(4) Rubens Francisco Lucchetti, À Meia-Noite Levarei Sua Alma, Rio de Janeiro, Cedibra, 1974, pp. 5-6.

(5) Rubens Francisco Lucchetti, Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver, Rio de Janeiro, Cedibra, 1974, p. 5.

(6) Rubens Francisco Lucchetti, O Vale dos Mortos, Rio de Janeiro, Cedibra, 1974, p. 19.

(7) Citado em Amor e Sexualidade no Ocidente (edição especial da revista L’ Histoire), tradução de Anna Maria Capovilla, Horácio Goulart & Suely Bastos, Porto Alegre, L&PM, inverno de 1992, p. 131.

(8) Este artigo foi escrito em agosto de 2007, ou seja, aproximadamente um ano antes de Encarnação do Demônio ser lançado nos cinemas.

(9) Parte dessa entrevista, que foi gravada e filmada, está reproduzida, na forma de depoimento, nos seis DVDs que integram a Coleção Zé do Caixão (coleção essa organizada por Carlos Primati & Paulo Duarte e lançada no final de 2002 pela Cinemagia).

(10) Ivan Cardoso, “Um Dark Muito Antes dos Darks”, in O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Porto Alegre, L&PM, verão de 1987, p. 3.

(11) Íncubo é um demônio masculino que, de acordo com crendices muito antigas, vem à noite copular com uma mulher, perturbando-lhe o sono e provocando-lhe pesadelos.

(12) O cartaz de O Estranho Mundo de Zé do Caixão foi realizado a partir de um pôster criado pelo pesquisador de Fotografia e fotógrafo Boris Kossoy.

(13) “A Filosofia do Zé do Caixão – Quem sou Eu”, in O Estranho Mundo de Zé do Caixão nº 1, São Paulo, Prelúdio, janeiro de 1969, p. 2.