Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

DOIS FILMES DE DAVID LYNCH
Raphael Mattielo



Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001) e Império dos Sonhos (Inland Empire, 2006) são dois dos meus filmes prediletos. Assim como A Estrada Perdida (Lost Highway, 1997), ambos têm uma linguagem muito psicanalítica. Isso não é por acaso. É uma característica muito forte no trabalho de seu diretor, David Lynch, essa mistura de realidade e sonho. E a grande questão na obra de David Lynch é onde termina a realidade e começa a ficção – ou vice-versa – na vida dos personagens. É lógico que cada filme tem sua peculiaridade; mas, analisando a obra de Lynch em sua totalidade, vemos em quase todos os filmes essa mistura. Talvez apenas em O Homem Elefante (The Elephant Man, 1980), Duna (Dune, 1984) e História Real (The Straight Story, 1999) isso não aconteça. Porém, desde seus curtas-metragens e seu primeiro longa, Eraserhead (Eraserhead, 1978), que se tornou um cult movie, e o seriado de televisão Twin Peaks (1990-1991), Lynch usa essa linguagem, por vezes sinistra, para mostrar as angústias do ser humano.
Em A Estrada Perdida, estrelado por Bill Pullman e Patricia Arquette, David Lynch trata essencialmente de uma fuga psicogênica. Já em Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos, duas fitas irmãs, mostra grande influência do clássico Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder. Ambos os filmes nos levam para dentro do obscuro mundo de Hollywood, levam-nos diretamente para dentro do lado negro da Meca do Cinema.
Cidade dos Sonhos conta a história de Betty (Naomi Watts), uma jovem ingênua, que, desejando se tornar atriz, deixa o Canadá e vai para Los Angeles, a fim de tentar a carreira nos grandes estúdios. E, em seu primeiro dia na cidade, cruza com uma mulher desmemoriada, Rita (Laura Elena Harring). Entretanto, no decorrer do filme, percebemos que nada é o que parece ser. Lynch nos leva a uma viagem psicótica por dentro das cabeças das duas personagens principais. É um filme essencialmente interpretativo, suscitando as mais diversas opiniões dos fãs do cineasta. No entanto, David Lynch não se arrisca a dar sua interpretação. E talvez por isso a fita se torne ainda mais fascinante.
Já em Império dos Sonhos, encontramos Nikki Grace (interpretada grandiosamente por Laura Dern), renomada atriz hollywoodiana que é convidada a interpretar a personagem Susan Blue em um filme do diretor Kingsley Stewart. Nos ensaios, Kingsley revela para ela que o filme é uma refilmagem de uma produção polonesa inacabada – a fita não foi concluída porque aconteceu uma tragédia durante as filmagens: os dois atores principais foram brutalmente assassinados. A partir daí, enquanto a refilmagem é realizada, Nikki começa a ter devaneios, misturando a vida real com a ficção, talvez por imaginar que o roteiro do filme seja amaldiçoado. A neurose passa a dominar a vida de Nikki. O medo do marido ciumento e a relação com seu companheiro de filme fazem sua imaginação correr solta.
Quero destacar que, para serem melhor compreendidos, Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos devem ser vistos mais de uma vez.

 

Raphael Mattielo é estudante de Psicologia