Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

DEFININDO O HORROR
Marco Aurélio Lucchetti



No livro Viagens para Além do Conhecido (Voyages dans Ailleurs), o pesquisador francês Serge Hutin declarou:

“É surpreendente ver, em pleno século XX, um tal florescimento de obras insólitas. O gosto pelo fantástico pode-se explicar por uma reação contra a rudeza dos tempos, mesmo quando o homem só quer dar a isto a importância de um
‘jogo’. O espírito do homem não pode suportar o desespero metafísico que a existência cria, quando desaparece toda a esperança de uma salvação de ordem religiosa e sobrenatural. (...) Para fugir a este mundo sem esperança, o homem estará pronto a precipitar-se em qualquer caminho que leve a um mistério.”

Seguindo esse raciocínio de Serge Hutin, obtém-se uma explicação satisfatória para o grande número de pessoas que aprecia um livro ou uma história em quadrinhos ou um filme de Horror: elas querem sentir, ainda que por alguns minutos ou algumas horas, um pouco do medo provocado por algo que consideram irreal, ou seja, a aparição de demônios, duendes, fantasmas, feiticeiras, monstros e, entre outros seres fantásticos, vampiros. Isso é uma forma clara e legítima dessas pessoas extravasarem as tensões diárias, ocasionadas por temores bem reais (o temor de ser assaltado, o temor de sofrer uma agressão física e, sobretudo nestes tempos incertos e dominados por uma recessão mundial, o temor de perder o emprego). Assim, o livro ou a história em quadrinhos ou o filme de Horror funciona como uma válvula de escape para o leitor ou o espectador.
E o primeiro contato que as pessoas têm com o Horror acontece ainda na infância, por intermédio dos contos de fadas, repletos de animais falantes, bruxas, encantamentos, poções mágicas...
Mas, na verdade, que é o Horror?
Segundo o Novo Aurélio – O Dicionário da Língua Portuguesa, o substantivo masculino horror (da palavra latina horrore) significa:

“1. Sensação arrepiante de medo. 2. Receio, medo, temor, pavor. 3. Repulsão, repulsa, aversão, ódio. 4. Aquilo que inspira horror. 5. Pop. Padecimento atroz. 6. Crime bárbaro.”

Porém, a palavra horror também designa um subgênero literário, quadrinhístico e cinematográfico. E o Horror é um subgênero do Fantástico. E há diversas definições para o fantástico:

“Todo o fantástico é ruptura da ordem estabelecida, irrupção do inadmissível no seio da inalterável legalidade cotidiana.”
Roger Caillois

“O fantástico (...) se caracteriza (...) por uma intromissão brutal do mistério no quadro da vida real.”
Pierre-Georges Castex

“O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural.”
Tzvetan Todorov

“A narrativa fantástica (...) gosta de nos apresentar, habitando o mundo real em que nos achamos, homens como nós, colocados subitamente na presença do inexplicável.”
Louis Vax

Refletindo nessas definições, depreende-se que o horror acontece quando um fato de caráter sobrenatural ou cuja explicação não se encontra na lógica conhecida irrompe no dia-a-dia de determinada comunidade e subverte a ordem do cotidiano dessa coletividade. Essa noção pode ser corroborada pela seguinte definição que o roteirista Rubens Francisco (R. F.) Lucchetti deu ao Horror, num programa da TV Bandeirantes, de São Paulo, em junho de 1971:

“Imagine que você comprou, em uma loja de antiguidades, um velho telefone e colocou-o, como um simples adorno, em sua sala de estar. Então, numa tarde de muito calor, quando você está instalado(a) em sua poltrona predileta, esse telefone toca...”

 

HORROR X TERROR

Embora possuam as mesmas raízes, pertençam ao Fantástico e sejam costumeiramente confundidos, por alguns críticos e pelos leigos, como sendo uma coisa só, Horror e Terror têm características distintas. Há diferenças entre um e outro.
Para os historiadores e pesquisadores Raymond T. McNally e Radu Florescu, ambos “são reações a coisa, fato, pessoa ou circunstância assustadora. Mas terror é o máximo medo racional de alguma forma aceita de realidade, ao passo que horror é o supremo medo irracional do absolutamente antinatural ou do sobrenatural. (...)
Terror é também o temor do uso da violência sistemática; horror é o temor de algo imprevisível, algo que pode ter um potencial de violência.
Quando um louco atirador de bombas está à solta na cidade, os habitantes ficam aterrorizados; estão cônscios da capacidade de uma pessoa seriamente perturbada; entendem os devastadores efeitos de uma bomba. A natureza do perigo é clara, e qualquer mistério consequente é suscetível de solução racional. Entretanto, se um fantasma é ouvido andando à noite, os moradores da casa sentem horror. O que é um fantasma? O que poderia este fantasma fazer?
(...) Em suma, é algum mistério fundamental, para sempre inexplicável, que distingue o horror do terror.”
Partindo dessas afirmações, chega-se à conclusão de que o horror caracteriza-se por algum acontecimento sobrenatural (em que pode haver ou não o uso de violência) manifestando-se numa determinada comunidade. Já o terror caracteriza-se por um fato real (havendo o uso de violência) acontecendo numa comunidade. Consequentemente, as conclusões de McNally e Florescu refletem apenas parte da verdade, já que na narrativa de Terror o sobrenatural também pode se manifestar.
Filmes como Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980) e A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984) exemplificam bem isso: em ambos estão presentes o sobrenatural e a violência. Então, como se diferencia o Horror do Terror? O escritor inglês Kingsley Amis começa a tornar mais fácil essa tarefa, ao afirmar:

(...) no velho filme de Frankenstein, que Boris Karloff fez em 1931, quando o monstro encontra a menininha (Maria), temos medo, terror ou horror, no antigo sentido; mais tarde sabemos que ele a atirou na água, matando-a. Hoje em dia, é muito mais provável que nós o víssemos efetivamente rasgando a menina em pedaços, graças a todos os recursos do Cinema. Esse é o novo terror, e seus paralelos literários são óbvios” [Prefácio, in Peter Haining (seleção e edição), Antologia Macabra, tradução de Barbara Heliodora & Newton Goldman, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, s. d., p. 13].

Unindo o que Raymond T. McNally, Radu Florescu e Kingsley Amis disseram, obtém-se uma definição mais completa do que seja o horror: é quando um fato de caráter sobrenatural ou cuja explicação não se encontra na lógica conhecida irrompe no dia-a-dia de determinada comunidade e subverte a ordem do cotidiano dessa comunidade, havendo ou não o emprego da violência, que é sugerida, nunca mostrada. Ao passo que o terror é quando um fato estranho (que, às vezes, pode ser de caráter sobrenatural) irrompe no dia-a-dia de determinada comunidade e subverte a ordem do cotidiano dessa comunidade, havendo o emprego da violência, que é sempre mostrada.
Nos dois trechos que se seguem, extraídos de uma mesma história, A Maldição do Sangue de Lobo (escrita por R. F. Lucchetti, essa história já foi publicada duas vezes: a primeira delas, em capítulos, no jornal Diário da Manhã, de Ribeirão Preto, no final da década de 1940; e a segunda, em 1974, num livro da coleção Trevo Negro, da Cedibra, do Rio de Janeiro), há uma exemplificação do horror e do terror:

“Das profundezas da mata chegaram alguns uivos, que mais pareciam lamentos tristes. Senti um arrepio percorrer-me o corpo. Meu olhar perdeu-se entre as árvores que tiravam qualquer possibilidade de filtração dos raios solares. Já estava ficando tarde, e comecei a voltar para casa.”

“Um dos homens abriu uma jaula e dela retirou uma jovem loura, completamente nua. A moça tentou resistir, mas foi arrastada. (...)
Olhei na direção do poste. A jovem loura tinha sido presa pelos pulsos e tornozelos por fortes correias. Estas foram amarradas nas argolas, permitindo maior liberdade de movimentos, o que não aconteceria se fosse atada diretamente no poste. (...)
Frog acercou-se do poste. Trazia um frasco na mão. Destampou-o e começou a lambuzar o corpo alvo da moça com o conteúdo do vidro. Era uma substância grossa e escura. Essa tarefa parecia excitar o monstro, que demorava mais em determinados pontos do corpo da mulher. Foi preciso um grito de advertência do dr. Zola para que Frog desse por terminado o seu trabalho. Agora, a jovem assemelhava-se a uma estátua de bronze. Seu corpo, à exceção do rosto, estava coberto pela substância.
– Que foi que ele passou no corpo fdela? – Perguntei.
– Melado – respondeu o dr. Zola. (...)
Nesse instante,Frog deu alguns pulos para trás, na direção da caixa de madeira que havia trazido, sem desviar um segundo seu olhar do corpo desnudo e todo besuntado. (...)
O monstro chegou até a caixa e levantou a tampa. Imediatamente, um bando de ratazanas precipitou-se para fora.
– Que estão fazendo comigo? – Gritou a jovem, olhando horrorizada para osroedores, que vinham atropeladamente na sua direção.
(...)
Os ratos começaram a subir pelo corpo da jovemr; e podiam-se ouvir seus afiados dentes, roendo... comendo...
A pobre moça contorcia-se, chorava.
(...)
Ela estava sendo supliciada diante de todos.
Seu corpo ia sendo roído pelos ratos, que, famintos, devoravam o melado. O espetáculo produzia uma estranha sensação, como até então eu não havia experimentado. Procurei controlar-me, sem me entregar àquela espécie de fascínio voluptuoso.
(...)
Os ratos já haviam devorado praticamente todo o melado. Agora a pele da moça, há pouco tão alva, estava cheia de marcas e vergões sangrentos. A mulher já não gritava mais, apenas emitia alguns gemidos, contorcendo-se toda, como se fosse uma serpente com as extremidades amarradas.”


Assim, enquanto o horror é obtido por meio da sugestão, e requerendo, com frequência, o uso de elipses e apresentando certa dose de suspense (ver, por exemplo, a cena do filme Frankenstein descrita por Kingsley Amis), o terror é conseguido por intermédio da exibição/narração de cenas chocantes, pavorosas, terríveis e nas quais, frequentemente, o sangue jorra em profusão. Cabeças sendo decepadas, mutilações de membros, torturas e suplícios cruéis são ingredientes habituais de uma história de Terror.  Dessa forma, o horror é implícito; e o terror, explícito, o que leva a dizer que este está para aquele do mesmo modo que a pornografia está para o erotismo (numa entrevista dada à escritora francesa Nathalie Perreau e publicada na revista masculina Lui, a atriz holandesa Zara Whites, que trabalhou em diversas fitas pornográficas, fez a seguinte diferenciação entre o erotismo e a pornografia: “O erotismo é a sublimação do amor. É algo esteticamente belo que nasce sempre de um sentimento afetivo muito forte, seja no plano da beleza pura ou da paixão. A pornografia apela ao instinto animal puro e cru, inteiramente desconectado do afetivo”).