Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

COMO CONHECI JEAN ROLLIN
Marco Aurélio Lucchetti



Foi num sábado, 14 de janeiro de 1978, que conheci Jean Rollin. Até então, nunca ouvira falar desse cineasta francês (ele nasceu em Neuilly-sur-Seine, na periferia oeste de Paris, em 3 de novembro de 1938, e dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem Les Amours Jaunes, quando tinha vinte anos de idade), apesar de a biblioteca de meu pai já possuir press-releases de algumas de suas principais fitas (La Vampire Nue, Le Frisson des Vampires, La Rose de Fer e Lèvres de Sang) e revistas com artigos a respeito de seu trabalho.
E conheci Jean Rollin por meio de Midi-Minuit Fantastique, a revista dirigida por Éric Losfeld (1922-1979) e publicada pelas Éditions Le Terrain Vague, a editora que revolucionou o mercado editorial francês de bandes dessinées, ao lançar, nos anos 1960, uma série de álbuns de luxo de histórias em quadrinhos (Barbarella, de Jean-Claude Forest; Les Aventures de Jodelle, de Guy Peellaert & Pierre Bartier; Lone Sloane – Le Mystère des Abimes, de Philippe Druillet; Scarlett Dream, de Claude Moliterni & Robert Gigi; e, entre outros, Xiris, de Serge San Juan).
Abre um parêntese. Não sei dizer quantos brasileiros apreciadores do Fantástico, do Horror e do Insólito têm em suas casas exemplares de Midi-Minuit Fantastique. Também não sei quantos aqui no Brasil conhecem essa publicação, que durou quase nove anos (foram ao todo 24 edições, lançadas entre maio-junho de 1962 e o inverno de 1970-1971). Mas uma coisa eu tenho condições de afirmar: Midi-Minuit Fantastique foi uma das revistas – é importante informar: revistas essas dedicadas a enfocar o Fantástico, o Horror e o Insólito nas mais diversas artes (Cinema, Literatura, Ilustração, História em Quadrinhos) – mais belas, sofisticadas, ousadas e inovadoras que já existiu. Fecha o parêntese.
Voltando a como conheci Jean Rollin...
Em 1978, morávamos no Rio de Janeiro; e meu pai e eu costumávamos, pelo menos uma vez por mês, visitar a Livraria Leonardo da Vinci, na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, a fim de vasculhar seu vasto acervo (certamente um dos melhores da América Latina), em busca de publicações (álbuns, livros e revistas) de Cinema, Fotografia e História em Quadrinhos de nosso interesse. E, naquele já distante 14 de janeiro de 1978, meu pai encontrou, no meio de uma grande quantidade de exemplares das revistas Cahiers du Cinéma, l’Avant Scène e Positif, uns dez números de Midi-Minuit Fantastique. Para meu pai, foi como estar descobrindo e desenterrando um tesouro há muito tempo escondido. No mesmo instante, ele perdeu interesse pelo resto da livraria. Os livros sobre Chaplin, Fritz Lang, Hitchcock, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Brigitte Bardot... os luxuosos álbuns do fotógrafo David Hamilton... os livros sobre pin-ups... os álbuns da Comic Art Editrice com republicações de alguns clássicos da Era de Ouro dos Quadrinhos (Brick Bradford, Capitão César, Johnny Hazard, Terry e os Piratas)... as coleções quase completas de algumas das mais importantes revistas estrangeiras de ou sobre História em Quadrinhos (a italiana II Mago, as francesas Charlie, Métal Hurlant, Phénix)... pareciam não mais existir. Ou melhor, o mundo inteiro parecia não mais existir. Meu pai tinha os olhos e a atenção voltados unicamente para os exemplares de Midi-Minuit Fantastique. Então, após constatar que não possuía nenhum deles em sua coleção, ele se dirigiu até a comprida e larga mesa onde ficava o caixa da livraria. Foi atendido pela proprietária, a simpática dona Vânia, que debitou o valor das revistas em nossa conta corrente.
Na tarde daquele mesmo dia, enquanto meu pai cochilava numa das poltronas da sala de nossa casa, como costuma fazer até hoje, depois do almoço, dei uma olhada em cada um dos exemplares de Midi-Minuit Fantastique. Quase instantaneamente, minha atenção foi atraída para as capas de dois deles, a do número 23 e a do número 24.  E o que chamou minha atenção foi que ambas as capas traziam impressos em letras azuis o nome Gaston Leroux. Sempre fui um grande admirador desse escritor; e seus romances mais conhecidos, O Mistério do Quarto Amarelo (Le Mystère de la Chambre Jaune, 1907) e O Fantasma da Ópera (Le Fantôme de l’Opéra, 1910), foram alguns dos primeiros livros que li, quando tinha nove ou dez anos de idade.
Dominado pela curiosidade, abri depressa os dois números de Midi-Minuit Fantastique e fiquei maravilhado com o que vi em suas páginas: um longo artigo, “Aujourd’Hui, Gaston Leroux” (numa tradução literal, “Hoje, Gaston Leroux”), analisando a obra de Gaston Leroux.
Abre um novo parêntese. Até então, nunca havia lido nada a respeito de Gaston Leroux, desconhecia até mesmo a data de seu nascimento (1868) e a data de sua morte (1927). E foi por intermédio de “Aujourd’Hui, Gaston Leroux”, que é muito mais que um artigo (é, na verdade, um ensaio), que tomei conhecimento de quão vasta é a obra desse autor – lamentavelmente, em nosso país, talvez por uma total incompetência ou ignorância dos editores (um amigo, o saudoso Jaime Rodrigues, dizia que aqui não tínhamos editores, mas sujadores de papel), foram lançados, há mais de meio século, apenas uns seis ou sete romances de Gaston Leroux, em traduções não muito confiáveis. Fecha esse novo parêntese.
Tendo um dicionário Francês-Português ao meu lado, já que meus conhecimentos da língua francesa eram incipientes, comecei a ler “Aujourd’Hui, Gaston Leroux”.
Devo ter demorado uns quinze dias para ler o artigo todo (ele tem 68 páginas). E foi somente quando terminei de lê-lo que reparei no nome de seu autor: Jean Rollin. Então, perguntei a mim mesmo: “Quem é Jean Rollin?” A resposta a essa pergunta obtive no número 24 de Midi-Minuit Fantastique, no qual encontrei duas páginas a respeito dele e de seus filmes. Devo confessar que fiquei frustrado por não haver nessas duas páginas nenhuma foto de Jean Rollin ou de alguma de suas fitas.
O tempo passou... Talvez uns cinco anos depois, revendo os exemplares de Midi-Minuit Fantastique, fiquei surpreso ao deparar, no número 23, com duas páginas com fotos de Le Frisson des Vampires. Reparei também que a capa e a segunda capa da revista eram inteiramente dedicadas a esse filme. Isso tudo me passara despercebido, quando lera o artigo sobre Gaston Leroux.
Acho importante destacar que ver essas fotos – neste momento, elas estão bem à minha frente, juntamente com algumas outras (também de Le Frisson des Vampires), que foram publicadas no número de março de 1972 da revista masculina norte-americana Daily Girl – despertou meu interesse e minha curiosidade em assistir a Le Frisson des Vampires e outras fitas de Jean Rollin. Porque percebi que Rollin é, antes de tudo, um criador de imagens. Imagens essas com um quê de diferente, estranho, mágico. Imagens fortes e impactantes, que não se esquecem jamais. Imagens que mesclam romantismo, erotismo e mistério. Imagens nas quais se destacam figuras femininas que são, a um só tempo, etéreas e carnais. Mas nunca alimentei esperança de assistir a algum filme de Jean Rollin, uma vez que nossas distribuidoras de DVDs raramente lançam fitas de Horror produzidas na França. Portanto, tive uma grande surpresa quando, há cerca de um mês, um amigo, Valter Martins de Paula, presenteou a mim e a meu pai com um pacote cheio de DVDs de filmes de Jean Rollin. E um dos DVDs continha Le Frisson des Vampires.
Pude, então, finalmente, ver essa fita, que tem quase quarenta anos de existência. E pretendo dizer minhas impressões sobre ela num dos próximos números do Jornal do Cinema...