Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

UM CLÁSSICO DO CINEMA ITALIANO
Aurélio P. Cardoso



Um dos mais expressivos filmes do Neo-Realismo Italiano completou sessenta anos em novembro de 2008. Foi em 1948 que o diretor Vittorio De Sica (1902-1974) lançou em Roma o filme Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette), um dos marcos desse magnífico movimento cinematográfico, em que se adotava uma técnica narrativa nova, quase documental.
O cinema do Neo-Realismo tinha como cenário as ruas destruídas e as ruínas de uma Itália faminta, dolorida e que tentava se reerguer em meio aos escombros da recém-terminada Segunda Guerra Mundial. Seus personagens eram pessoas comuns e anônimas, trabalhadores, pescadores (La Terra Trema, 1947), donas-de-casa, idosos (Umberto D, 1951), crianças desamparadas (Vítimas da Tormenta, 1945-1946). A poesia das imagens estava no rosto sofrido de gente do povo, um povo que lutava – de maneira insana – contra as infames condições sociais e buscava reconstruir uma Itália devastada pela guerra.
Colocando atores não-profissionais na maioria de seus filmes, os grandes cineastas italianos daquele período – De Sica, Alberto Lattuada (1914-2005), Carlo Lizzani, Giuseppe De Santis (1917-1997), Federico Fellini (1920-1993), Pietro Germi (1914-1974), Roberto Rossellini (1906-1977), entre outros – deram uma lição de poesia e harmonia emocional, usando uma estética destituída totalmente do formalismo e do artificialismo. Esses diretores deixaram claro, então, que o Cinema não precisava do mercantilismo pomposo de Hollywood para atingir o público (usavam a sensibilidade para atingir o coração e a mente dos espectadores). Aliás, até mesmo Hollywood teve de se render ao sucesso alcançado por Ladrões de Bicicleta em seu território; e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi obrigada a criar uma nova categoria no Oscar, a de Melhor Filme Estrangeiro, reconhecendo o valor da grande obra de De Sica. E as lições do Neo-Realismo, mostrando que o cotidiano não precisa ser manipulado ou enfeitado, foram seguidas com maestria por vários cineastas brasileiros – Glauber Rocha (1939-1981), Leon Hirszman (1937-1987), Roberto Santos (1928-1987), Carlos Diegues –, a partir do filme Rio 40 Graus (1954-1955), realizado por Nelson Pereira dos Santos.
Ladrões de Bicicleta, que narra a saga de um operário desempregado que é obrigado a roubar uma bicicleta para conseguir trabalho, foi meu primeiro contato com uma obra do Neo-Realismo. Assisti à fita no final dos anos 1970, na sessão inaugural do Clube de Cinema de Ribeirão Preto. O impacto foi tremendo. E, empolgados pelas emocionantes imagens criadas por De Sica, um grupo de jovens estudantes partiu algum tempo depois para a criação e formação do Cineclube Cauim.
Ladrões de Bicicleta é um daqueles grandes filmes que não envelhecem nunca, que ficam retidos perpetuamente na memória. E, ainda hoje, ele emociona a todos aqueles que o assistem.

 

Aurélio P. Cardoso é pesquisador, historiador, crítico e ativista da área de Cinema e membro fundador do Cineclube Cauim