Ano 1 - nº 3 - maio/julho de 2009

A BELA E A FERA DA ERA CAPITALISTA
Marco Aurélio Lucchetti



A superprodução King Kong, cuja estréia mundial ocorreu em dezembro de 2005, custou aproximadamente US$ 200 milhões e foi filmada nos estúdios Weta, nos arredores de Wellington, uma pacata e pequena cidade da Nova Zelândia.
Dirigido pelo neozelandês Peter Jackson – o mesmo realizador da trilogia O Senhor dos Anéis (Lord of the Rings, 2001-2003) e do pouco comentado, mas envolvente, Almas Gêmeas (Heavenly Creatures, 1994) –, King Kong é uma refilmagem do clássico de 1933.
A exemplo do original, essa refilmagem, cuja ação se passa na década de 1930, mostra um grupo de norte-americanos – tendo à frente um cineasta obcecado, Carl Denham (interpretado por Jack Black) – em busca de um gorila gigantesco que habita a Ilha da Caveira, no sul do Pacífico. E, como o antigo Kong, o Kong moderno (criado digitalmente) possui a capacidade do afeto, apesar de sua extrema violência e agressividade.
Na verdade, há uma explicação para Kong ser tão violento: ele é o único de sua espécie e tem de lutar todos os dias – usando de toda sua força bruta – por sua sobrevivência, enfrentando os ferozes dinossauros que infestam a Ilha da Caveira.
E todo o afeto de Kong é dirigido à jovem Ann Darrow, interpretada pela australiana Naomi Watts (ela demonstrou todo seu talento como atriz em Cidade dos Sonhos/Mulholland Drive, 2001, ao encarnar Betty, uma personagem cândida mas cheia de sensualidade), que aceitou prontamente o convite de Jackson, mesmo sabendo que, muitas vezes, teria a difícil tarefa de contracenar com o nada, uma vez que a figura de Kong seria acrescentada depois à cena.
King Kong é, antes de tudo, uma versão moderna de A Bela e a Fera. Porém, ao contrário do que acontece no conto de fadas – escrito por Madame Leprince de Beaumont, esse conto de fadas já foi diversas vezes adaptado para o Cinema (a melhor e mais bonita dessas adaptações é, sem dúvida, a que o francês Jean Cocteau realizou em 1946, tendo Jean Marais e Josette Dey nos principais papéis) –, o filme não tem um final feliz: Ann Darrow, a Bela, não consegue salvar Kong, a Fera. E isso acontece por uma razão bem simples: Kong foi tirado de seu habitat e levado para um local muito mais selvagem e cruel do que a própria selva. E que lugar é esse? É a sociedade capitalista, onde o diferente não é aceito, onde alguns privilegiados ditam as normas para uma imensa maioria de desfavorecidos, onde tudo aquilo que representa uma ameaça ao stablishment deve ser destruído.
A seu modo, Kong vivia feliz na Ilha da Caveira. No entanto, ao ser tirado de lá, não lhe restou outra alternativa, a não ser morrer. E, ao assistir à cena em que ele despenca do alto do Empire State Building, o espectador que ainda é capaz de emocionar-se deve sentir vontade de chorar. Alguns, os mais emotivos, talvez até cheguem a derramar uma lágrima, possivelmente furtiva. Mas uma lágrima é sempre uma lágrima. E essa lágrima, derramada por Kong, o gorila solitário – e, de certa forma, indefeso –, é também dirigida à Mãe-Natureza, que está, pouco a pouco, sendo assassinada por causa de alguns “homens” ambiciosos, inescrupulosos e destituídos de qualquer traço de humanidade.