Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

O GRITO
H. Espírito Santo



Antonioni é, seguramente, um dos mais destacados cineastas do nosso tempo. Quando em 1950 surgiu o seu primeiro filme, Crimes d’Alma (Cronaca di un Amore), o movimento neo-realista apresentava-se em declínio (...). Encontrava-se num período de comédias “cor-de-rosa” e de dramas lacrimogêneos. Apenas um Visconti, um Fellini, um Rossellini e alguns novos resistiam.
Continuador da experiência neo-realista, Antonioni usará outras armas e outros caminhos, bem diferentes daqueles que nos tinham sido dados pelos melhores diretores da Libertação.
Como o romancista Cesare Pavese, Antonioni é o narrador da dificuldade de viver e do isolamento do homem, dos seus problemas e angústias. As suas personagens encontram-se sempre num ponto de crise cujo processo evolutivo atinge o impasse. O impasse que pode conduzir ao suicídio, como acontece em O Grito.
Fala-se da incomunicabilidade, desespero, alienação, a propósito dos seus filmes. Antonioni esclarece que não foi ele que inventou a palavra alienação: ela “faz parte há anos da linguagem crítica e filosófica européia desde (Karl) Marx a (Theodor) Adorno; expressa um fenômeno real, um problema concreto da humanidade, que provavelmente se tornou mais agudo nestes últimos anos”.
Para lá das histórias que nos conta, Antonioni procura explicar criticamente o comportamento do indivíduo dentro das coordenadas sociais que o cercam. Importa-lhe a análise rigorosa do íntimo das personagens em crise, motivos e conseqüências, ignorando qualquer espécie de compromisso – por isso a crueza com que narra os acontecimentos e a amargura que põe no diálogo.
O Grito, realizado em 1957 e que, assinale-se, permanece atual, é a história de um homem separado do seu meio proletário. Perdido o amor de Irma, a mulher com quem vivia, Aldo pensa na fuga como uma via possível para esquecer o passado e encontrar outra mulher. Neste drama de amor, Aldo é um alienado sentimental que Antonioni julga e condena. Irma sofre também duro castigo, não porque se faça no filme a apologia do “amor eterno”, mas porque ambos, embora coerentes na sua conduta, isolaram-se egoisticamente da coletividade. As conseqüências são inevitáveis. Reflexão atenta sobre os sentimentos particulares em contato com os mitos tradicionais da sociedade, eis o que nos propõe Antonioni.
Na sua vagabundagem, Aldo encontrará algumas mulheres (Edera, Elvia, Virginia), mas nenhuma conseguirá apagar a imagem de Irma; e, cada vez mais, o seu desespero se vai acentuando, até a penosa separação da filha. O seu sofrimento atinge o ponto mais agudo do isolamento quando encontra Andreina e quando também mais ampla é a paisagem. Então regressa a Gordiano para se enganar pela última vez. (...) Na ânsia de voltar a ver Irma, assiste indiferente às manifestações de protesto dos conterrâneos. Não participa. Alheio ao que o rodeia, subirá a escada metálica da fábrica e, do cimo da torre, reverá a paisagem familiar. Enquanto outros homens lutam, Aldo tomba no chão, aos pés da mulher que não conseguiu esquecer. Irma grita. Será o grito que nos obrigará a meditar sobre a degradação de um homem que desespera da vida quando a ela devia estar ligado.
Que nos sirva de lição este admirável confronto entre a tragédia individual e a epopéia coletiva.

 

O Grito (Il Grido, 1957, 102')
Direção: Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Elio Bartolini & Ennio De Concini, a partir de uma idéia original de Antonioni
Elenco: Steve Cochran (Aldo), Alida Valli (Irma), Dorian Gray (Virginia), Lyn Shaw (Andreina), Gabriella Pallotti (Edera), Betsy Blair (Elvia), Mirna Girardi
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Versátil

 

Esta crítica foi publicada originalmente no Programa de janeiro de 1970 do Cineclube Imagem, de Lisboa



REVISITANDO ANTONIONI
Sibélius Olivério



Presenteado pelos grandes amigos Rubens Francisco Lucchetti e Marco Aurélio Lucchetti com o DVD de O Grito (1957), do mestre Michelangelo Antonioni, fui assistir ao filme com uma dúvida: estaria a fita muito superada? Estaria muito fora do atual contexto cinematográfico uma realização de cinqüenta anos atrás? O fato é que eu já tinha visto quase todos os filmes de Antonioni – A Aventura, A Noite, O Eclipse, O Deserto Vermelho, Blow-Up, O Passageiro (Profissão: Repórter) e o mais recente, Além das Nuvens, feito a quatro mãos com o discípulo Wim Wenders. Porém, ainda não havia assitido a O Grito, que enfoca a INCOMUNICABILIDADE HUMANA e o VAZIO EXISTENCIAL, temas caros ao cineasta italiano, que os desenvolveria, com mais rigor e precisão, em seus filmes posteriores.
Pois bem, o frescor das imagens, a marca da autenticidade e da modernidade de Antonioni (falecido em 2007) já estão lá, nesta fita antiga, no cenário árido, nos grandes planos vazios, na paisagem do Vale do Pó (paisagem essa coberta por uma densa névoa), por onde divaga o personagem Aldo (acompanhado por sua filha pequena), em busca da compreensão dos fatos (após a traição da mulher) ou de um sentido para a vida. São nestas paisagens áridas e nos longos planos da bela fotografia de Gianni Di Venanzo que se sobressai o drama individual e tão próprio dos personagens do realizador italiano e que marcou o seu estilo cinematográfico. Então, agora se compreende facilmente porque Wim Wenders idolatra Antonioni: é que o italiano, seu mestre, foi o verdadeiro precursor dos filmes de estrada (ou da estrada), que têm como personagens principais os sem rumo, pessoas que estão deslocadas, fora do cenário comum, normal e, por isso, estão em constante deslocamento físico, indo de um lugar para outro. Temas recorrentes, depois, na obra do alemão Wim Wenders, especialmente nos notáveis Movimento em Falso e Paris, Texas e mais recentemente em A Estrela Solitária.
O interessante em O Grito é que a ação não se passa nos setores da burguesia italiana em crise, no vazio das festas ou dos grandes negócios da bolsa de valores, ambientes dos filmes posteriores do cineasta. Aqui, a ação (ou melhor, a anti-ação ou não-ação) ocorre no meio de personagens simples, proletariados, gente do povo, com problemas reais de sobrevivência. Mas é nesse cenário mesmo que ocorrem as angústias e o desencanto. O que não impede Antonioni de mesclar à análise individual observações e investigação sobre a estrutura social da época, ou seja, a eterna luta entre opressores e oprimidos. Neste sentido, deve-se observar as cenas de enfrentamento dos operários do campo contra os militares da região, que pretendem efetuar desapropriações no local para a construção de uma pista de pouso para aviões de guerra.
Enfim, nem parece que O Grito foi feito há mais de meio século; e foi uma ótima surpresa tê-lo assistido e revisitar, assim, o eterno Antonioni.

 

Sibélius Olivério é advogado