Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

MONSTROS DO CINEMA
Rubens Francisco Lucchetti



Em 1919, o lunático dr. Caligari utiliza o sonâmbulo Cesare para seus abomináveis desígnios, difundindo a morte e o pavor nas cidades da Alemanha.
Cesare tem a fisionomia branca de um cadáver, veste-se todo de preto e insinua-se de modo sorrateiro pelas ruas de paredes e muros deformados. Produto da mente de um louco que cria um mundo fantástico, ele foi a primeira criatura a entenebrecer verdadeiramente as telas, aterrorizando os espectadores aconchegados nas salas escuras dos cinemas.
Três anos depois do aparecimento de Cesare, surge Nosferatu, a primeira encarnação do Conde Drácula no Cinema.
Nosferatu repousa em seu ataúde, enquanto a luz do dia brilha no céu; mas, tão logo as trevas encobrem o mundo, ergue-se de seu esquife e lança-se à sua obra de destruição, espalhando a maldade pela noite e chupando o sangue de lindas e incautas donzelas. Morto há trezentos ou quatrocentos anos, esse ser que habita um sinistro castelo, adquiriu, ao longo dos séculos, uma vasta sabedoria. Somente a aurora ou uma estaca cravada em seu coração podem destruí-lo; e, para conter sua sede de sangue, suas vítimas contam apenas com o crucifixo e o alho.
Drácula, surgido em 1931, é o mesmo Nosferatu. Sua palidez é a mesma, sua figura é ainda esguia, suas vítimas preferidas continuam sendo belas e indefesas donzelas... Drácula é intelectual como Nosferatu; e, na mitologia cinematográfica do Horror, ambos se confundem numa só e tenebrosa figura.
Incontáveis vampiros e vampiresas, sem a intelectualidade e a nobreza de Drácula e Nosferatu, apareceram e foram destruídos, expostos que foram à luz do alvorecer, trespassados que foram por uma estaca... E, ainda hoje, Drácula e seus congêneres continuam a infestar os cinemas, apavorando e seduzindo os espectadores.
Na Alemanha, berço das superstições que redundaram na criação de uma dezena das mais terríveis criaturas, o dr. Henry Frankenstein planejou e executou a construção de um monstro formado com o cérebro de um anormal e pedaços de vários cadáveres.
Enorme, de fisionomia horrível e andar claudicante, o monstro criado pelo dr. Frankenstein mata pessoas como a foice corta plantas. Muito lúgubre, ele percorre as imediações do castelo de seu criador; e sua falta de piedade é total. Porém, às vezes, tem atitudes desconcertantes; e, então, pode ser visto, por exemplo, junto com uma linda garotinha loura, entregue a folguedos infantis.
Idealizado – nas sombras de porões úmidos e pestilentos – pela mente insana de um cientista que queria brincar de ser Deus, esse monstro assombrou, ou melhor, ainda assombra o mundo com sua maldade. E, desde 1931, quando apareceu em sua versão mais famosa nas telas, foi várias vezes abatido e várias vezes voltou à vida, já que é fruto de um grande número de cadáveres.
A partir de 1932, nas areias escaldantes e milenares do Egito, múmias começam a voltar à vida, para vingar a violação de seus túmulos eternos e buscar as mulheres que amaram há mais de trinta séculos.
Nas noites de lua cheia, em vários países (sobretudo nos países da Europa Central), quando soam as doze batidas da meia-noite, um uivo sinistro corta a escuridão. Nesse instante, os ciganos fecham as suas tendas e recolhem-se temerosos, calando suas vozes e silenciando suas guitarras. Porque sabem que esse uivo indica que o horripilante lobisomem, um ser de dentes aguçados e rosto e corpo peludos, está pronto para atacar os viandantes noturnos. Na manhã seguinte, o lobisomem transforma-se novamente num homem comum. Então, compreendendo todo o mal que fez durante a noite, ele fica angustiado. E sua angústia aumenta ainda mais, ao lembrar que somente encontrará a paz na morte, que tem de ser por uma bala de prata.
A genealogia moderna do lobisomem é extensa. Porém, nenhum foi mais terrível e mais torturado do que um dos primeiros lobisomens das telas cinematográficas, Larry Talbot, aparecido em 1941.
Em Londres, o bondoso dr. Jekyll impensadamente faz surgir um monstro de perversidade e fúria, o asqueroso sr. Hyde, que, na verdade, é um desdobramento de sua própria personalidade.
Também em Londres, um assassino cruel, o célebre Jack o Estripador, dissemina o pânico entre as prostitutas do miserável distrito de Whitechapel.
Nos porões inundados do teatro da Ópera de Paris, vive um homem de rosto desfigurado, que ama uma jovem cantora e deseja transformá-la na estrela da companhia de ópera. E, para atingir seu objetivo, ele mata todos aqueles que cruzam seu caminho.
Ainda em Paris, um  orangotango comete uma série de assassinatos na Rua Morgue.
Enquanto isso, em cemitérios – cemitérios que podem estar em qualquer país – abandonados, mortos se erguem de seus túmulos e põem-se a caminhar na escuridão da noite, impulsionados por estranhas forças da natureza ou por vontades desconhecidas. São os zumbis, os mortos-vivos, que empesteiam a noite com seu cheiro do Além. Silenciosos e de olhos esbugalhados, eles atacam, destroem e matam.
Em ilhas misteriosas e perdidas nos mares, sons de tambores de vodu e lamentos agônicos enchem de horror a solidão da noite; plantas carnívoras devoram sofregamente suas vítimas indefesas; uma equipe de filmagem trava contato com um enorme gorila que se apaixonará por uma bela atriz e espalhará o terror entre a população de Nova York.
Em locais inóspitos, médicos malucos realizam estranhas experiências, transformando pessoas normais em seres pequeninos ou em seres meio humanos e meio animais; um grupo de cientistas encontra uma singular espécie de criaturas anfíbias...
E no outro lado do mundo, no Japão, surgem diversos monstros, dentre os quais se destacam o da Bomba H e Godzilla.
Assim, vemos que há cerca de nove décadas o mundo do horror começou a invadir o Cinema. Foi uma invasão disfarçada, iniciada com o sonâmbulo Cesare e, aos poucos, intensificada com  o aparecimento das mais bizarras e tenebrosas criaturas.

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos