Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

LOUISE BROOKS
Marco Aurélio Lucchetti



Louise Brooks, a segunda de quatro irmãos, nasceu em 14 de novembro de 1906, em Cherryvale, uma pequena cidade do estado norte-americano do Kansas. Seu pai, Leonard Porter Brooks (1868-1960), tinha apenas dois amores na vida: Myra Rude Brooks (1884-1944), com quem se casou em 1904, e a profissão de advogado. Quanto à mãe de Louise, pouca atenção dispensava aos filhos, uma vez que dedicava quase todo o tempo ao cultivo de diversos interesses artísticos.
Foi com cinco de idade, quando já exibia o corte de cabelo à la garçonne, que Louise viu despertar em si a paixão pelas palavras – aprendeu a ler olhando por cima dos ombros da mãe, que lia, em voz alta, para os filhos os livros A Child’s Garden of Verses (1885), de Robert Louis Stevenson (1850-1894), e Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1865), de Lewis Carroll (1832-1898). A partir de então, passou a sentir uma verdadeira adoração pela biblioteca familiar, que, além dos livros de Direito de Leonard, possuía obras de Thomas Carlyle (1795-1881), John Stuart Mill (1806-1873), Alfred Tennyson (1809-1892), Charles Darwin (1809-1882), William Makepeace Thackeray (1811-1863) e, entre outros autores ingleses do período vitoriano, Charles Dickens (1812-1870); obras dos escritores norte-americanos Ralph Waldo Emerson (1803-1882), Nathaniel Hawthorne (1804-1864) e Mark Twain (1835-1910); e obras de Goethe (1749-1832). “Eu devorava tudo com êxtase”, escreveu ela em suas memórias, “aborrecendo-me muito por nem sempre entender” aquilo que estava lendo.
Desde cedo, Louise sentiu uma forte atração pela Dança. Aos dez anos de idade, mais ou menos na mesma época em que estava tendo lições de Dança com Mae Argue Buckpitt, já dançava profissionalmente, apresentando-se em clubes e em festas públicas realizadas no sudeste do Kansas. Durante as apresentações, tinha o hábito de sofrer, segundo suas próprias palavras, “crises de raiva em razão de um traje amarrotado ou um tempo de dança inadequado”. Sua mãe, que era, a um só tempo, sua guarda-roupa e sua acompanhante ao piano, suportava essas crises com uma calma inalterável.
Em 1919, Louise e sua família mudaram-se: primeiro para Independence, uma localidade próxima de Cherryvale; depois, para Wichita, uma das maiores cidades do Kansas. Então, Louise entrou no Wichita College of Music, a fim de prosseguir seus estudos de Dança.
No Wichita College of Music, Louise não aprendeu nada de novo, porque nas aulas eram ensinadas às alunas tão-somente as cinco posições da dança clássica – posições essas que já tinha aprendido com Mae Argue Buckpitt. Por outro lado, ela e a principal professora do estabelecimento, Alice Campbell Wriggly, não conseguiram se entender. E, em pouco tempo, considerada por Alice como uma “menina cheia de vontades, intratável e agressiva”, Louise acabou sendo expulsa do curso.

 

DE DANÇARINA A ATRIZ

Acompanhada pela mãe, Louise assistiu, em 17 de novembro de 1921, no Crawford Theatre, em Wichita, à apresentação de uma das mais inovadoras companhias norte-americanas de Dança, a Denishawn Dancers, dirigida pelo casal Ruth St. Denis (1878-1968) e Ted Shawn (1891-1972). Apresentando vinte e três danças e tendo seu ápice no número final intitulado Xochitl, o espetáculo fascinou Myra e Louise. Mãe e filha ficaram fascinadas principalmente com a espantosa diversidade das coreografias, executadas sobre uma gama de obras musicais de compositores que iam de Scarlatti (1660-1725) e Chopin (1810-1849) a John Philip Sousa (1854-1932) e Erik Satie (1866-1925). Após a função, as duas dirigiram-se aos bastidores do teatro. Então, Louise foi apresentada a Ted Shawn. Atraído, de imediato, pelo ar maroto e sedutor da jovem, o dançarino a convidou para, no verão seguinte, ir a Nova York e ser uma de suas alunas na Denishawn School of Dancing. Louise aceitou o convite e, em julho de 1922, embarcou num trem rumo a Nova York.
Durante as aulas na Denishawn School of Dancing, Louise revelou todo o seu talento na arte de dançar, o que lhe possibilitou, apesar de sua rebeldia em não seguir todas as regras da escola (1), ingressar na Denishawn Dancers. Como integrante da companhia, apresentou-se em diversas cidades dos Estados Unidos e Canadá. No entanto, não permaneceu muito tempo na Denishawn Dancers, já que, no final da primavera de 1924, talvez devido a seu caráter rebelde, foi demitida por Ruth St. Denis.
Após seu desligamento da Denishawn Dancers, Louise trabalhou como dançarina nos espetáculos musicais George White’s Scandals e Ziegfeld Follies, produzidos respectivamente por George White (1890-1968) e Florenz Ziegfeld (1868-1932). Em 1925, quando participava do show de Ziegfeld, Louise recebeu convite para interpretar um pequeno papel no filme A Rua dos Esquecidos (The Street of Forgotten Men, 1925), produzido pela Famous Players-Lasky e dirigido por Herbert Brenon (1880-1958). Ela aceitou a proposta e deu, assim, início à sua carreira de atriz cinematográfica.
Entre 1926 e meados de 1928, Louise apareceu em doze fitas (2), em que foi dirigida por James Cruze (1884-1942), Frank Tuttle (1892-1963), Richard Rosson (1894-1953), Alfred Santell (1895-1981), Howard Hawks (1896-1977), William Wellman (1896-1975), Edward Sutherland (1897-1974), Malcolm St. Clair (1897-1952), Frank Strayer (1891-1964) e Luther Reed (1888-1961); e contracenou com alguns dos mais populares e/ou relevantes atores da época, entre os quais, W.C. Fields (pseudônimo de William Claude Dukenfield, 1879-1946), Wallace Beery (1885-1949), Victor McLaglen (1886-1959), Chester Conklin (1888-1971) e Adolphe Menjou (1890-1963). Em seguida, sob a direção de Malcolm St. Clair, participou, junto com William Powell (1892-1984) e Jean Arthur (1905-1991), do filme The Canary Murder Case (O Drama de uma Noite, 1929), uma adaptação do livro homônimo de S. S. Van Dine (3). Nessa fita, ela representou uma dançarina assassinada (4).

E, em 6 de outubro de 1928, Louise viajou para Berlim, a fim de ser a intérprete principal de A Caixa de Pandora (Die Büchse der Pandora), cuja história é baseada nas peças teatrais Erdgeist (numa tradução literal, Espírito da Terra, 1895) e Die Büchse der Pandora (1904), escritas por Frank Wedekind (1864-1918).
Apesar de se completarem em si mesmas, Erdgeist e Die Büchse der Pandora são partes de uma única história: a da bela Lulu. A primeira peça narra a ascensão dessa mulher, que passa de ladra a herdeira de uma imensa fortuna; a segunda mostra sua decadência, desde o momento em que se torna uma fugitiva da Justiça até quando acaba sendo uma das vítimas de Jack o Estripador, após ter se tornado uma meretriz em Londres.
E, quando o cineasta Georg Wilhelm Pabst (1885-1967) decidiu realizar uma fita baseada em Erdgeist e Die Büchse der Pandora, Lulu já havia sido interpretada nos palcos teatrais e nas telas cinematográficas por Gertrud Eysoldt (1870-1955), Tilly Newes (1886-1970), Gerda Müller, Erna Morena (1885-1962), Claire Lotto (1893-1952) e, entre outras atrizes, pela dinamarquesa Asta Nielsen (1883-1972). Contudo, não foi nada fácil para Pabst encontrar a Lulu de seu filme. Teve de realizar uma longa busca (5) para, enfim, achar a intérprete ideal do papel. E encontrou-a ao assistir ao filme Uma Noiva em Cada Porto (A Girl in Every Port, 1928) e ver que uma das atrizes da fita, Louise Brooks, possuía os atributos plásticos da Lulu que estava imaginando.

 

DE ATRIZ A MITO DO CINEMA

Em 30 de janeiro de 1929, nos cinemas de Berlim, ocorreu a estréia mundial de A Caixa de Pandora. Poucos meses depois, Louise Brooks estrelou outro filme de Pabst, Das Tagebuch einer Verlorenen (6) (1929). Em seguida, trabalhou, sob a direção de Augusto Genina (1892-1957), na fita Miss Europa (Prix de Beauté, 1930), rodada em Paris. Depois, já de volta aos Estados Unidos, participou de películas pouco expressivas – It Pays to Advertise (1931), Windy Riley Goes Hollywood (1931), O Rancho das Feitiçarias (Empty Saddles, 1936) e, entre outras, Prelúdio do Amor (When You’re in Love, 1937) – e encerrou sua carreira de atriz com uma pequena participação no western moderno Bandidos Encobertos (Overland Stage Raiders, 1938), estrelado por John Wayne (1907-1979).
Na década de 1950, quando já estava esquecida, Louise, graças sobretudo aos dois filmes em que trabalhara sob as ordens de Pabst, foi descoberta e aclamada por Ado Kyrou (1923-1985), Henri Langlois (1914-1977), James Card (1915-2000) e, entre outros importantes críticos, historiadores e pesquisadores cinematográficos, Lotte H. Eisner (1896-1983). A partir de então, começou a escrever artigos (7) nos quais relembrava sua carreira artística ou enfocava algum(a) ator(atriz). E, ao falecer em 8 de agosto de 1985, vítima de um ataque do coração, já havia se tornado um mito do Cinema.

 

NOTAS:

(1) Uma das razões do sucesso da Denishawn School of Dancing era sua reputação de ser uma escola de rígida moralidade. Seus alunos deviam, de acordo com o regulamento estabelecido por Ruth St. Denis, “levar uma vida calma, ler bons livros, ouvir a boa música e buscar uma atmosfera de cultura”. Louise Brooks seguia os três últimos preceitos de bom grado, mas se irritava com o primeiro. Pois via-se bruscamente diante de um código moral que jamais, nem mesmo na infância, havia conhecido. Um código que significava: nada de amigos, nada de álcool e, entre outras coisas, nada de relações sexuais.

(2) Essas fitas, em sua maioria comédias despretensiosas, são: Vênus Americana (The American Venus
, 1926), A Social Celebrity (1926), Risos e Tristezas (It’s the Old Army Game, 1926), The Show-Off (1926), Just Another Blonde (1926), Love ’em and Leave ’em (1926), Evening Clothes (1926), Meias Indiscretas (Rolled Stockings, 1927), Dois Águias no Ar (Now We’re in the Air, 1927), A Cidade Buliçosa (The City Gone Wild, 1927), Uma Noiva em Cada Porto e Mendigos da Vida (Beggars of Life, 1928).

(3) S. S. Van Dine é pseudônimo de Willard Huntington Wright (1888-1939). Crítico de Arte e Literatura, editor, jornalista e autor de aproximadamente uma dezena de obras sobre Arte, Filologia, Filosofia e Música, Wright sofreu, por volta de 1925, uma depressão nervosa. Então, durante a convalescença, para passar o tempo, começou a escrever romances de Detetive & Mistério. Seu primeiro livro no gênero, O Caso Benson (The Benson Murder Case), no qual criou o rico e refinado detetive amador Philo Vance, foi publicado em 1926. A seguir, veio The Canary Murder Case (O Crime da Canária, no Brasil; A Morte da Canária, em Portugal, 1927), inspirado no assassinato jamais esclarecido de Dot King – em 1923, Dot, uma dançarina das Ziegfeld Follies, foi assassinada no apartamento que dividia com Hilda Ferguson, outra integrante do show de Ziegfeld. Além de O Caso Benson e O Crime da Canária, Wright escreveu mais dez romances de Detetive & Mistério, protagonizados por Philo Vance e editados com o pseudônimo de S. S. Van Dine. Indagado, certa vez, a respeito de não haver assinado esses livros com seu nome verdadeiro, Wright respondeu: “Evitei subscrever essas obras com o meu nome verdadeiro porque, tendo subscrito com este várias obras sobre Filologia, Arte, Filosofia e Música, tive medo de que o aparecimento do mesmo nome como autor de romances policiais viesse a prejudicá-los na aceitação do público. Eram capazes de pensar que estes trabalhos de ficção haviam de ser áridos e secos como aqueles!... Assim, lancei-os com um nome inteiramente novo.” (Citado em Anônimo, “O Drama de uma Noite”, in Mensageiro Paramount, volume 9, número 5, Nova York, Departamento Estrangeiro da Paramount Pictures, maio de 1929, pp. 12-13).

(4) No livro de S. S. Van Dine, essa personagem, que se chama Margaret Odell, é descrita da seguinte maneira: (...) não se podia negar que a jovem fosse de uma sedutora beleza que fascinava até entontecer. Lembro-me de a ter visto dançar uma noite no Antlers Club (...). Impressionou-me, então, pela sua grande beleza e pelo seu natural encanto, se bem que nas suas feições se pudessem ver traços característicos de um temperamento friamente calculista. Margaret Odell era de estatura mediana, delgada e elegante, de uma graciosidade de felino e de maneiras cautelosas e arrogantes (...). Tinha os lábios que caracterizam a cortesã, carnudos e avermelhados, e uns grandes olhos que lembravam os da ‘Madona Ferida’ de Rossetti. Havia em sua face um estranho conjunto de sensual promessa e de espiritual renúncia, à semelhança do que os pintores de todas as épocas têm atribuído à ‘Madalena Arrependida’. No rosto de Odell transparecia aquele misto de voluptuosidade e de mistério que fascina os homens e os conduz à prática de tudo quanto tende à sua total perdição.” (A Morte da Canária, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., pp. 6-7). Uma descrição que parece estar enumerando também os encantos físicos da Louise Brooks dos anos 1920 e os da Lulu de Wedekind.


(5) Essa busca, que é semelhante à realizada pelo produtor norte-americano David O. Selznick (1902-1965) para encontrar a intérprete da Scarlett O’Hara de ...E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939), foi assim relatada em 1955 por Paul Falkenberg, um dos assistentes de direção de Pabst em A Caixa de Pandora: “Nenhuma das atrizes disponíveis agradava a Pabst; e, durante vários meses, todas as pessoas que tinham uma ligação com a produção se puseram a procurar uma Lulu. Eu abordava diversas moças na rua, no metrô, nas estações de trem, dizendo a elas: ‘Aceitaria comparecer ao nosso escritório? Eu gostaria de apresentá-la ao Sr. Pabst.’ Ele examinava-as cuidadosamente da cabeça aos pés e rejeitava-as.” (Citado em Barry Paris, Louise Brooks, Paris, Pygmalion/Gérard Watelet, 1987, p. 303).

(6) No Brasil, esse filme foi exibido com os seguintes títulos: Diário de uma Pecadora e Diário de uma Perdida.

(7) Publicados em diversas revistas especializadas, dentre as quais se destacam a canadense Objectif, a francesa Positif, a inglesa Sight and Sound e a norte-americana Film Culture, muitos desses artigos foram reunidos no livro Lulu in Hollywood (Louise Brooks, na França), editado pela Alfred A. Knopf, de Nova York, em 1982.