Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

UM BEIJO ROUBADO
UMA AMOSTRA DE COMO UM CINEASTA ESTRANGEIRO PODE MIGRAR PARA HOLLYWOOD SEM SACRIFICAR SUA ALMA

João Rodolfo Franzoni



Sempre que um diretor europeu, latino-americano ou asiático – como é o caso de Wong Kar-Wai, de Hong Kong – decide aventurar-se em solo estadunidense, nada mais comum do que esperar uma chuva de protestos da crítica, que, por pura má vontade ou acomodada a esse tipo de ataque, acaba renegando pequenas preciosidades a um gueto insignificante, a ponto, inclusive, de sacrificar a descoberta do público. Amostras há diversas: daqui do Brasil, Hector Babenco foi surpreendido com uma recepção imerecidamente fria quando reuniu Jack Nicholson e Meryl Streep no fatalista Ironweed (Ironweed, 1987) e não esperava o fracasso monumental de seu memorável Brincando nos Campos do Senhor (At Play in the Fields of the Lord, 1991); Walter Salles não se deu nada bem em sua experiência no terror Água Negra (Dark Water, 2005); o francês Louis Malle, por sua vez, apresenta uma filmografia bem irregular, em que obras festejadas como Menina Bonita (Pretty Baby, 1978) e Atlantic City (Atlantic City, 1980) foram alternadas com as críticas negativas dos notáveis A Baía do Ódio (Alamo Bay, 1985) e Tio Vânia em Nova York (Vanya on 42nd Street, 1994); já o alemão Wim Wenders, após realizar Paris, Texas (Paris, Texas, 1984), uma obra-prima sobre os marginalizados da América, viu seus trabalhos em língua inglesa serem isolados sem a menor cerimônia (com isso, O Hotel de Um Milhão de Dólares, Land of Plenty e Estrela Solitária, filmes no mínimo interessantes, estão aí à espera de um resgate após lançamentos malsucedidos). Inclusive é com o melhor filme de Wenders, o já citado Paris, Texas, que esta apaixonante transição de Kar-Way para Hollywood guarda certas lembranças. Mas que isso não signifique alusões a plágio: a constatação aqui é no sentido de evocar as imagens sedutoras, advindas de ambientes capazes de oferecer ao mesmo tempo aconchego e opressão, e aqueles olhares penetrantes que Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski registraram com tanta paixão no filme ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984. A exemplo de Wenders, Kar-Wai demonstra aquele olhar europeu (no caso de Kar-Wai, olhar asiático) sobre coisas tão norte-americanas, num véu de sensibilidade e poesia que pareciam definitivamente sepultados no cinema romântico dos anos 2000, salvo vez ou outra por uma Sofia Coppola, com seu Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003), ou pelo próprio Kar-Wai, com seu afamado Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa, 2000), que, segundo o jornal New York Post, é “elegante e profundamente sexy de uma forma deliciosamente proibida”.
Num filme que se dispõe a tratar da melancolia do amor perdido e da constatação de que não resta outra saída senão ocupar corpo e mente com essa tarefa ingrata e custosa que é seguir adiante, a platéia é geralmente tratada como uma perfeita imbecil e soluções milagrosas e artificiais são despejadas sem contenções para evitar qualquer discussão mais apurada da situação. Não se pode culpar os produtores por usarem esse artifício, pois a platéia, sobretudo aquela formada por mulheres que consomem exclusivamente esse tipo de filme, exige total desprendimento em fitas românticas (assim, nenhuma fórmula pode ser desafiada; e o desfecho só pode ser aquela bobagem calculada que por fim é oferecida). Um pouco de raciocínio e rejeição às idéias preestabelecidas são artifícios tratados com desconfiança e sequer cogitados (utilizá-los, então, nem pensar). E é nesse deserto de romances, que arrebatam pela simplicidade de sua verossimilhança, que Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, 2007) apresenta-se como uma miragem altamente bem-vinda. É um filme que recorre àquele otimismo nas relações sem enfeitar, movido por uma paixão contagiante do diretor e de seus atores em endossar o relato.
Um Beijo Roubado é estrelado pela cantora Norah Jones. Ela interpreta Elizabeth, jovem de coração partido que, no início, freqüenta uma cafeteria em Nova York, cujo proprietário, Jeremy (Jude Law), é um rapaz com um histórico amoroso também mal resolvido, mas com uma visão serena e de certa forma inspiradora da situação. Em seguida, Elizabeth e Jeremy passam a compartilhar impressões e histórias acerca da afetividade; e desse confronto, ancorado no respeito, o filme tira sua motriz. Os diálogos são brilhantes, alguns até mesmo inesquecíveis: em certa ocasião, Jeremy filosofa sobre a desilusão de Elizabeth, recordando que, quando criança, sua mãe o alertava para permanecer num só lugar, caso se perdesse durante seus passeios no parque. E funcionava?, indaga a protagonista. Mais ou menos, ela às vezes se perdia ao me procurar!, responde o rapaz. Essa constatação de que somos todos ingênuos em acreditar que existe uma segurança inviolável nas relações e que o aflorar de um novo eu inicia-se no exato momento em que essa ilusão é rompida parece ser a tônica dominante no registro de Kar-Wai. Sua narrativa ruma, a seguir, para dois ambientes nos quais Elizabeth, no papel de observadora, vai encontrar em seu coração fragilizado uma chance de redescoberta de si própria – ainda que ela sequer imagine isso e use sua decisão de comprar um carro como motivo para seu isolamento, traduzido numa rotina de trabalho (que a ocupa dia e noite) de garçonete. Assim que deixa Jeremy e parte para Memphis, Elizabeth depara-se com o policial Arnis (David Strathairn, o ótimo ator de Boa Noite e Boa Sorte/Good Night, and Good Luck), que, desde que foi abandonado por sua bela mulher (Raquel Weisz, também exemplar em sua composição de desgaste), se entregou ao álcool. Elizabeth mantém um vínculo com esse homem, mas não a ponto de interferir ou impedir a conseqüência que por fim é oferecida. O diretor extrai um misto de fúria e paixão (daqueles de manter o espectador atento e prostrado), em parte por causa dos atores envolvidos. O próximo destino de Elizabeth são os cassinos de Nevada, onde uma sensual jogadora de pôquer (Natalie Portman) torna-se sua amiga, a despeito de suas diferenças. É o segmento menos inspirado do filme, e seu otimismo pode soar como uma concessão imperdoável aos finais felizes hollywoodianos; mas até lá Kar-Wai já conquistou a afeição do espectador, a ponto de não restar qualquer queixa sobre sua condução. E, afinal de contas, não seria o caso de elogiar um ser humano que decide não mudar sua decisão de confiar nas pessoas, mesmo cercado por quem o encoraje a fazer o contrário? Um Beijo Roubado entrega esse registro, sem apresentar-se como uma defesa à ingenuidade ou dar a impressão de que a platéia foi manipulada.
Eis um filme para ser admirado por sua cacofonia rara. Impossível não deixá-lo sem a lembrança deliciosa das canções escolhidas a dedo para pontuar a jornada de Elizabeth. A música aqui se integra às cenas com uma precisão indiscutível, mesclando a voz brilhante de Cat Power (que tem uma participação na fita) e Cassandra Wilson com os acordes exímios de compositores como Ry Cooder e Gustavo Santaolalla. E, falando em cantores, Norah Jones prova aqui ter carisma e força suficientes para uma segunda carreira – a de atriz. Em nenhum momento, a jovem, considerada uma das revelações da música norte-americana desta década, apresenta-se como alguém despreparado recitando diálogos: ela incorpora todos os receios e decisões de sua Elizabeth (faz isso com extrema delicadeza), além de acompanhar com maestria sua mudança gradual.
Apesar de ser uma obra-prima, haverá aqueles que tacharão Um Beijo Roubado de filme europeu (ou asiático, se preferir) para americano ver, ressaltando o quanto as obras anteriores de Kar-Wai são superiores etc. Se um cineasta oriental entende que a omissão silenciosa é o registro mais correto para inserir nas obras que realiza em seu país de origem, nada mais natural que, ao produzir um filme no Ocidente, seus personagens não hesitem em verbalizar e exceder-se. Esse mimetismo é o grande fascínio no cinema de Kar-Wai, e nada seria mais injusto do que Um Beijo Roubado não freqüentar um lugar bem à frente em sua filmografia. E prepare-se para o tal beijo que coroa a história (segundo o crítico Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo, este beijo vai entrar para a História)... irão demorar para equiparar sutileza assim!

 

Um Beijo Roubado (94')
Direção: Wong Kar-Wai
Roteiro: Wong Kar-Wai & Lawrence Block, a partir de uma história de Wong Kar-Wai
Elenco: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman, Frankie Faison, Cat Power
Disponível no Brasil em DVD simples (para locação) e DVD duplo (para venda)
Distribuidora: Europa

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista