Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

CURSO: A AVENTURA NO CINEMA

Continuando sua série de cursos sobre a arte cinematográfica, o Cineclube Canarinho dará início, a partir de 28 de fevereiro de 2009, a A AVENTURA NO CINEMA.
Neste curso, que seguirá o mesmo modelo dos cursos já apresentados (O CINEMA DE ALFRED HITCHCOCK, O SUSPENSE – HITCHCOCK E SEUS SEGUIDORES, OS FILMES QUE ABALARAM O CINEMA e NAZISMO, FACISMO E OUTROS ISMOS NO CINEMA), serão exibidos oito filmes – inclusive, dois clássicos dirigidos por Steven Spielberg (Tubarão e Os Caçadores da Arca Perdida), o envolvente O Feitiço de Áquila (nunca Michelle Pfeiffer esteve tão linda) e a fita brasileira Cidade Oculta – que representam o que de melhor foi produzido nestes últimos 75 anos em termos de aventura no Cinema.

 

Importante: Todas as sessões terão uma palestra do professor e pesquisador Marco Aurélio Lucchetti
a respeito do filme exibido
Maiores informações: (16) 3941-4341 (falar com Pierre ou Nicole)

Informações sobre os filmes
PROGRAMAÇÃO

OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA
(exibição: 28 de fevereiro)
 
Surge um novo personagem: Indiana Jones
Os seriados cinematográficos dos anos 1930 e 1940
A estrutura dos seriados nos filmes de Indiana Jones
A volta dos filmes de Aventura 
LARA CROFT: TOMB RAIDER
(exibição: 07 de março)
 
A Lara Croft dos videojogos e a Lara Croft do Cinema
Lara Croft, uma versão feminina de Indiana Jones?
Lara Croft e Angelina Jolie
Personagens inspiradas em Lara Croft
O FEITIÇO DE ÁQUILA
(exibição: 14 de março)
 
O romance de Joan D. Vinge
O Feitiço de Áquila
, uma história de um amor impossível?
Alguns elementos característicos dos filmes de Aventura
Quando magia e aventura se encontram
BARBARELLA
(exibição: 21 de março)
A história em quadrinhos de Jean-Claude Forest
Barbarella e a nova mulher dos Quadrinhos
Barbarella, um símbolo dos revolucionários anos 1960
Barbarella e Jane Fonda 
TUBARÃO
(exibição: 28 de março)
 
O romance de Peter Benchley
O terror vem do mar
Tubarão, um filme de Aventura com um toque de suspense
Steven Spielberg e os cineastas norte-americanos surgidos na década de 1970 
KING KONG
(exibição: 04 de abril)
 
King Kong (a versão de 1933)
King Kong
, de Peter Jackson
O mito da Bela e a Fera
King Kong
e a questão ecológica 
CIDADE OCULTA
(exibição: 18 de abril)
 
Cidade Oculta e a história em quadrinhos The Spirit
A linguagem cinematográfica e a linguagem quadrinhística
Cidade Oculta e a representação da cidade de São Paulo no Cinema
Cidade Oculta
e o cinema brasileiro dos anos 1980 
TARZAN O HOMEM MACACO
(exibição: 25 de abril)
 
O romance de Edgar Rice Burroughs
Os filmes de Tarzan com Johnny Weissmuller e Maureen O’Sullivan
Um grito que ficou famoso
Outros filmes de Tarzan 

 

Todas as sessões serão aos sábados, às 16 horas, no Espaço Cênico Débora Duboc
(Rua Floriano Peixoto, 479 – Centro – Ribeirão Preto) 


INFORMAÇÕES SOBRE OS FILMES
Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981,115') 

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Lawrence Kasdan
Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliott

Sinopse: Acompanhado por sua decidida e independente ex-namorada Marion Ravenwood, o professor, arqueólogo e explorador Indiana Jones tem de enfrentar os mais diversos perigos, incluindo o exército nazista, a fim de localizar e apoderar-se da Arca da Aliança, preciosa relíquia bíblica de grande poder.

Comentário: Em maio de 1977, George Lucas e Steven Spielberg passavam férias no Havaí. Lucas estava ali para aliviar a forte apreensão que o assaltara às vésperas da estréia de seu novo filme, Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977); quanto a Spielberg, queria esquecer os problemas enfrentados durante as filmagens de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977).
Lucas e Spielberg nunca haviam trabalhado juntos, e essas férias proporcionou-lhes a oportunidade de unirem-se em um projeto ambicioso. E tudo começou quando Spielberg confessou a Lucas o desejo de dirigir um filme da série 007 (na época, James Bond era interpretado por Roger Moore e estava para estrear a décima fita da série, 007 – O Espião Que Me Amava/The Spy Who Loved Me). Então, Lucas retrucou que tinha algo melhor do que James Bond e apresentou a Spielberg a idéia de um novo herói, um herói inspirado nos personagens dos antigos seriados cinematográficos, dos quais era um velho fã.
“George Lucas chegou a mim com os elementos de uma idéia já pronta”, lembrou Spielberg, certa vez, ao lhe perguntarem a respeito da criação da saga de Indiana Jones. “Um personagem chamado Indiana, que seria um arqueólogo aventureiro em filmes que lembrariam os seriados da Republic dos anos 40 (...). Decidimos situar a ação nos anos 30 e 40 porque eram períodos ‘masculinos’. Neles eram possíveis a alta aventura e o romance exótico. Assim, para cada aventura de Indiana, ele tem uma parceira diferente, uma mulher forte com uma caracterização marcante. E, além disso, tem de sobreviver a todas as armadilhas que inventamos para ele no roteiro. Mas qualquer aventura de Indiana seria impossível de se passar nos anos 80. É mais lógico, mais verossímil, criar uma aventura romântica quando romance era romance e a aventura ainda era possível. Como em 1935.”
Entretanto, o tempo passou. Steven Spielberg envolveu-se com a realização do filme 1941 – Uma Guerra Muito Louca (1941, 1979) e George Lucas com a continuação de Guerra nas Estrelas, O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980), dirigida por Irvin Kershner. Assim, Indiana Jones foi momentaneamente esquecido.
Com o fracasso de bilheteria de 1941 – Uma Guerra Muito Louca, Lucas procurou Spielberg com um argumento desenvolvido por ele e pelo diretor e roteirista Philip Kaufman. Esse argumento, tendo Indiana Jones como personagem principal, girava em torno da Arca da Aliança (acredita-se que Moisés tenha guardado nela os fragmentos das tábuas em que foram escritos os Dez Mandamentos) e do fascínio do ditador alemão Adolf Hitler (1889-1945) pelo Ocultismo e por artefatos religiosos.
Ao contrário do amigo, que se mostrava plenamente confiante na idéia, Spielberg não acreditava muito em seu sucesso. Mesmo assim, aceitou levá-la adiante.
Então, para escrever o roteiro, baseado no argumento de Lucas e Kaufman, foi contratado Lawrence Kasdan, que, antes de se tornar roteirista de Cinema, trabalhara muitos anos em agências de publicidade.
E assim nasceram Os Caçadores da Arca Perdida e Indiana Jones.
Mas quem é Indiana Jones?
Indiana Jones, um personagem que se identifica com o cidadão médio e que luta contra o Mal (não importa onde esse Mal esteja e sob qual forma se apresente), é o mocinho da década de 1980. No entanto, em sua personalidade, estão presentes características dos heróis de outras épocas: possui o gosto pela aventura e o perigo, tal como o aventureiro e explorador Jim Bradley, personagem principal de Jim das Selvas (Jungle Jim), história em quadrinhos bastante popular nas décadas de 1930 e 1940; é dotado do charme e do poder de sedução dos personagens encarnados por Cary Grant (1904-1986) nos anos 1950; e tem o cinismo e o destemor do James Bond da década de 1960. Em Indiana, também está presente a ânsia de lutar contra os nazistas e mostrar que os norte-americanos são melhores do que eles – algo tão comum no Capitão América (Captain America) dos anos 1940; e as cavalgadas do herói trazem à mente dos espectadores as cavalgadas dos mais célebres cowboys do Cinema, de Tom Mix a Cisco Kid, passando por Hopalong Cassidy e Durango Kid.
Para o crítico e pesquisador norte-americano David Kaufman, Indiana Jones é “um êmulo de todos os heróis criados na Sétima Arte. Possui a habilidade de um Douglas Fairbanks, os reflexos rápidos de um Errol Flynn, a astúcia de Clark Gable e a graça de Tyrone Power”.
Indiana Jones, o arqueólogo e professor que descobre peças antigas e valiosas para museus, é, a um só tempo, aventureiro, explorador e sedutor, seduzindo e encantando não apenas as mulheres que encontra ao longo de suas arriscadas jornadas pelos mais diferentes pontos da Terra, mas também todos aqueles que assistem, nas telas, às suas aventuras.
E, sempre que está numa missão (seja essa missão encontrar um ídolo indígena ou a Arca da Aliança ou o Santo Graal), Indiana Jones não se detém por nada. Nada o afasta de sua meta. Nem mesmo uma pedra imensa rolando em sua direção ou dezenas de flechas atiradas por índios sul-americanos ou a queda numa cova repleta de serpentes.
E, nas primeiras páginas da adaptação literária de Os Caçadores da Arca Perdida, Indiana Jones é assim descrito:
“Oito homens avançavam lentamente por uma trilha estreita, parando de vez em quando para cortar uma trepadeira ou um galho baixo no caminho. À frente do grupo, seguia um homem alto, de blusão de couro e chapéu de feltro. Por trás dele, iam dois peruanos, que observavam a selva cautelosamente, e cinco nervosos índios quéchuas, lutando com o par de mulas que carregava as mochilas e provisões.
O homem que liderava o grupo chamava-se Indiana Jones. Era musculoso, da maneira que se pode associar a um atleta que ainda não passou totalmente do auge da forma. Tinha uma barba loura de vários dias e riscas escuras de suor no rosto, que poderia outrora ter sido bonito, de maneira fotogênica. Agora, no entanto, havia pequenas rugas em torno dos olhos, nos cantos da boca, transformando a aparência atraente e quase afável numa expressão de determinação, profundeza. Era como se as experiências por que passara começassem a definir lentamente sua aparência.
Indy Jones não se movimentava com a mesma cautela dos dois peruanos. Sua extrema confiança dava a impressão de que era ele e não os peruanos que nascera naquela terra.”
(Campbell Black, Caçadores da Arca Perdida, tradução de A. B. Pinheiro de Lemos, Rio de Janeiro, Record, s. d., p. 5).
E Indiana Jones encontrou seu intérprete ideal em Harrison Ford.
Nascido em 13 de julho de 1942, em Chicago, Illinois, no seio de uma família de classe média – seu pai, diretor de uma agência de publicidade, era um irlandês de segunda geração e católico praticante; sua mãe, uma judia russa também de segunda geração –, Harrison Ford ingressou na carreira artística nos meados da década de 1960, num papel inexpressivo no filme O Ladrão Conquistador (Dead Heat at a Merry-Go-Round), dirigido por Bernard Girard.
Durante aproximadamente onze anos, Ford fez pequenas participações ou interpretou papéis secundários em cerca de uma dezena de filmes. Durante esse tempo, teve de dividir o trabalho de ator com o de marceneiro, já que, por volta de 1970, se casara com uma namorada dos tempos de escola e tinha um filho para sustentar. A grande oportunidade de mostrar seu talento aconteceu quando George Lucas, que já o dirigira em Loucuras de Verão (American Graffiti, 1973), convidou-o para ser Han Solo, o piloto espacial de Guerra nas Estrelas. Então, Harrison Ford lançou-se ao estrelato e solidificou sua carreira ao interpretar Indiana Jones. E, hoje, ao assistirmos aos quatro filmes da série, temos a nítida impressão de que nenhum outro ator conseguiria interpretar melhor do que ele o herói criado por George Lucas. Se ninguém foi tão perfeito quanto Warner Oland (1880-1938) na pele do detetive oriental Charlie Chan, ou Clint Eastwood na do violento policial Dirty Harry, ou Sean Connery na de James Bond, ou Margaret Rutherford (1882-1972) na de miss Marple, ou Basil Rathbone (1892-1967) na de Sherlock Holmes, ou Humphrey Bogart (1899-1957) na do detetive particular Philip Marlowe, ou Johnny Weissmuller (1904-1984) na de Tarzan, não haverá outro Indiana Jones como o de Harrison Ford.

“Aprendi mais sobre Cinema fazendo filmes do Indiana Jones do que em E.T., o Extraterrestre ou Tubarão.”
Steven Spielberg

Lara Croft: Tomb Raider (Lara Croft: Tomb Raider, 2001, 100')

Direção: Simon West
Roteiro: Patrick Massett & John Zinman
Elenco: Angelina Jolie, Iain Glen, Noah Taylor, Daniel Craig, Leslie Phillips, Christopher Barrie, Jon Voight

Sinopse: A jovem lady Lara Croft, que tem a arqueologia como hobby, vive numa mansão inglesa, onde treina para suas missões em busca de tumbas e tesouros antigos. Certo dia, uma relíquia lendária (pertencente à coleção de seu falecido pai) é roubada por uma sociedade secreta que quer dominar o mundo. Lara procura, então, reaver o tal objeto e enfrenta mil perigos.

Comentário: Nascida em 14 de fevereiro de 1968 (segundo outra fonte, o ano de seu nascimento é 1967), em Londres (mais precisamente em Wimbledon, um subúrbio do sudoeste de Londres), Lara Croft é filha de lord Henshingly e Mary Croft (ambos faleceram num desastre aéreo); tem 1m75 de altura, 89 cm de busto, 61 cm de cintura, 86 cm de quadris (de acordo com outra fonte, tem 1m70 de altura, 96 cm de busto, 55 cm de cintura e 86 cm de quadris), cabelos compridos e castanhos, olhos castanhos amendoados, lábios carnudos, um rosto bonito, um corpo atraente, pele bronzeada e muito dinheiro; pesa 59 kg (segundo outra fonte, pesa 55 kg); teve professores particulares até os onze anos de idade; estudou num internato perto das montanhas da Escócia; pratica esqui, tiro e alpinismo; depois de sofrer um desastre de avião e vagar durante duas semanas pelas montanhas do Himalaia, decidiu ser arqueóloga e ter uma vida cheia de aventuras; localizou e matou um exemplar dos legendários Pés-Grandes; fez uma travessia de carro do Alasca (extremo noroeste da América do Norte) até a Terra do Fogo (extremo sul da América do Sul), entrando para o Guiness – O Livro dos Recordes; ficou mundialmente famosa ao encontrar a Pirâmide de Atlântida e localizar a Adaga de Xian; até o presente momento, escreveu dois livros de memórias: A Tyrannosaurus Is Jawing at My Head (Um Tiranossauro Está Prestes a Morder Minha Cabeça, numa tradução literal) e Slaying Big Foot (Matando Pé-Grande, numa tradução literal); quase sempre usa pouca roupa (normalmente está vestida com uma camiseta verde ou azul e um short marrom); sabe manejar diversas armas (pistolas automáticas, facas, lança-chamas, arpões, uma metralhadora M-16, entre outras); ama o perigo e emoções fortes; viaja o mundo inteiro em busca de tesouros antigos e misteriosos; ambiciona escalar a mais alta montanha da Terra, o Monte Everest, no Himalaia; adora os personagens da História que mandaram construir grandes tumbas; combate constantemente demônios, monstros pré-históricos, alienígenas, sociedades secretas; já lutou pelo menos duas vezes ao lado da detetive Sara Pezzini, da polícia de Nova York; e é, antes de tudo, uma mulher atrevida, muito divertida e nada convencional.
Esses são os dados pessoais de Lara Croft, heroína (algumas pessoas, entre as quais Sandie Newton, da CBS-TV, equivocam-se, ao afirmarem que ela é uma super-heroína; Lara não é uma super-heroína, uma vez que não possui superpoderes e, portanto, não é nenhuma Mulher-Maravilha ou Supergirl) que surgiu em Tomb Raider (Invasora de Túmulo, numa tradução literal), uma série de videogames – produzida pela Eidos Interactive – de grande sucesso (principalmente entre os adolescentes) e, depois, tornou-se personagem de histórias em quadrinhos (no Brasil, algumas dessas histórias em quadrinhos foram publicadas pelas editoras Abril e Panini) e de dois filmes, Lara Croft: Tomb Raider e Lara Croft Tomb Raider: A Origem da Vida (Lara Croft Tomb Raider: The Cradle of Life, 2003).
Adaptar um romance, uma história em quadrinhos ou um videogame sempre é um desafio para produtores, roteiristas, diretores e atores. Para os envolvidos em Lara Croft: Tomb Raider não foi diferente. Segundo um dos produtores da fita, Lloyd Levin, os maiores desafios que tiveram de enfrentar foram “transformar um videogame em filme e encontrar a atriz perfeita para o papel de Lara”.
Inicialmente, cogitaram-se Elizabeth Hurley, Heather Graham e Catherine Zeta-Jones para interpretar Lara, mas quem acabou sendo escolhida para o papel foi Angelina Jolie, que, de acordo com Levin, “é a melhor atriz de sua geração” e, nas palavras do diretor Simon West, “linda e fisicamente perfeita para o papel”. E Angelina foi a escolha acertada, uma vez que é uma atriz que sempre se preocupa em compor bem as personagens que interpreta. E não foi nada fácil para ela encarnar Lara Croft, uma aventureira sensual e ousada, uma espécie de versão feminina de Indiana Jones. Teve de treinar muito – supervisionado por Simon Crane, esse treinamento (envolvendo treino de luta corporal, treino com armas, treino para dirigir motocicleta, treino para esquiar na neve, prática de canoagem e muita ginástica) começou cerca de três meses antes do início das filmagens – para adquirir o tipo físico que a personagem exigia e poder realizar todas as façanhas descritas no roteiro. Também teve de se esforçar para falar com um convincente sotaque britânico (Angelina é norte-americana) e não deixar a interpretação caricata demais.
E o que motivou Angelina Jolie, uma atriz, até então, muito mais acostumada a papéis dramáticos – ela, inclusive, ganhou, em 2000, o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em Garota, Interrompida/Girl, Interrupted (nesse filme, baseado em livro autobiográfico de Susanna Kaizen, Angelina interpreta Elisa, uma interna de um manicômio) – a aceitar o papel de heroína (heroína essa que passa quase todo o tempo usando roupas curtas e apertadas) num filme repleto de ação?
Quem responde a essa pergunta é a própria Angelina:
“Um dos motivos que me levaram a fazer Tomb Raider é que Lara é uma grande personagem, um papel modelo, uma mulher forte e independente, mas ao mesmo tempo extremamente feminina. (...) e o melhor de tudo é que Lara não precisa fingir que não é menina, não precisa se vestir como um garoto para provar que é forte. (...) Não deve ser comparada a um homem. Se estivesse competindo com um cara, ela poderia ganhar, não porque é uma garota, mas porque é uma lutadora melhor. Foi o trabalho mais difícil da minha vida. Existem milhões de fãs de Lara espalhados pelo mundo. Tive de respeitar isso e me esforçar para alcançar uma ótima atuação e não desapontá-los; afinal de contas, Lara é a musa desse  pessoal.”
E os fãs de Lara Croft não se decepcionaram com Angelina Jolie (poucas vezes ela esteve tão bem-humorada ao encarnar uma personagem) nem com o filme, cuja intenção é, como bem disse Rubens Ewald Filho, em seu Guia de Filmes DVD News (São Paulo, NBO, 2001, p. 205), “levar o espectador numa ‘ride’ como se fosse um parque de diversões”.
Rodado na Inglaterra (nos estúdios de Pinewood, em que são filmados as fitas da série James Bond) e em locações na Islândia e Camboja, países raramente vistos em filmes de Aventura e de Ação,  Lara Croft: Tomb Raider é uma película destinada a todas as idades e agrada a todos (evidentemente, o espectador tem de aceitar o filme tão-somente como diversão pura, ou seja, um produto para fazê-lo esquecer durante pouco mais de noventa minutos os problemas do cotidiano).
Resta ainda dizer que inspirada em Lara Croft foi criada, por volta de 2002, para a televisão norte-americana, a personagem Sydney Fox.
Interpretada pela exuberante Tia Carrere, Sydney Fox é uma sexy professora de História que viaja os cinco continentes em busca de peças raras perdidas ou roubadas.

“Lara Croft: Tomb Raider não tem enredo nem história, mas vive das cenas e de uma anti-sofisticação que dispensa cenas a la Matrix (...). (...) é um flagrante cruzamento entre 007 (os locais exóticos, o charme da sedução) e Indiana Jones (o conhecimento arqueológico, o sentido de desembaraço etc.).”
Rui Pedro Tendinha, Premiere (edição portuguesa) número 21

O Feitiço de Áquila (Ladyhawke, 1985, 121')

Direção: Richard Donner
Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas & Tom Mankiewicz, baseando-se no romance homônimo de Joan D. Vinge
Elenco: Michelle Pfeiffer, Rutger Hauer, Matthew Broderick, Leo McKern, John Wood, Alfred Molina, Ken Hutchison

Sinopse: A bela lady Isabeau d’Anjou e o capitão da guarda Etienne Navarre se amam. Os dois estão sempre juntos, mas não podem concretizar seu amor. Foram punidos pelo poderoso e diabólico Bispo de Áquila, que, enciumado por ter sido preterido pela moça, lançou um feitiço sobre eles: durante o dia, Isabeau se transforma num falcão e só retoma a forma humana ao pôr-do-sol; e, durante a noite, Etienne se transforma num lobo e só volta a ser humano ao alvorecer. Procurando um meio de se livrarem da maldição e acompanhados pelo ladrão Phillipe, mais conhecido como Rato, Isabeau e Etienne vagam por lugares ermos.

Comentário: Certa vez, o cineasta francês François Truffaut (1932-1984) afirmou: “O Cinema é uma arte de mulher, isto é, de atriz. O trabalho do diretor consiste em fazer mulheres bonitas fazerem coisas bonitas...”
Concordo com essa afirmação. O Cinema é realmente “uma arte de mulher”. As mulheres são a razão de ser do Cinema. A Sétima Arte foi criada – ou inventada, se preferirem – para captar e preservar a beleza (não somente a beleza exterior, mas também a beleza interior) da mulher. A razão de o Cinema existir é a mulher. E vou mais longe, respondendo à pergunta feita pelo crítico e pesquisador Henri Agel (durante muitos anos, ele foi professor do IDHEC/Institut des Hautes Études Cinématographiques) no título de seu livro O Cinema Tem Alma? (Le Cinema A-T-Il une Âme?, 1952): sim, o Cinema tem alma; e essa alma é a mulher. E digo mais, tomando como ponto de partida o que disse o próprio Henri Agel nesse mesmo livro: “No seu excelente estudo, Le Cinema et la Montagne, Pierre Leprohon cita a frase de Michelet: ‘Quem escala a montanha sobe em direção à luz.’” (O Cinema Tem Alma?, tradução de Celso Lúcio Ferreira, Belo Horizonte, Itatiaia, 1963, p. 22). Ao assistirmos a um filme (e considero filme toda película com algum conteúdo e cujas cenas sejam impactantes) é como se estivéssemos escalando uma montanha em direção à luz, em direção ao ser supremo do Universo, representado aqui, na Terra, pelas mulheres, que são as únicas que podem gerar, criar, dar à luz outro ser. Sem Deus, não existiria a luz, seriam apenas as trevas; e sem as mulheres, de nada adiantaria a luz, pois estaríamos ainda nas trevas. E o Cinema é luz. E a alma e a luz do Cinema são as mulheres, mulheres que têm um brilho e um encanto especiais, mulheres como Michelle Pfeiffer, que “tem o gosto de pecar sem abrir mão da inocência”, que “perdura, incomoda e enamora”, que é “dona daquela virtude estranha de ser vista, revista, contemplada e deixar a impressão de que manteve escondido o que tem de melhor” (Set número 34, São Paulo, Azul, abril de 1990, p. 10). O Cinema só existe porque existem neste mundo mulheres como Michelle Pfeiffer.
Filha de uma dona-de-casa e de um proprietário de uma empresa de ar-condicionado, Michelle Pfeiffer nasceu em Orange County, ao sul de Los Angeles, na Califórnia, em 29 de abril de 1957.
Teve seu primeiro emprego, como vendedora de roupas em um shopping center, aos quatorze anos. Nessa época, já desejava ser atriz de Cinema.
No final da adolescência, venceu um concurso de beleza em sua cidade natal e, em seguida, mudou-se para Los Angeles. Então, começou a ter aulas de interpretação, determinada a ser realmente atriz. E, pouco tempo depois, por sugestão de seu cabeleireiro, atuou como modelo publicitário e fez uma ponta no popular seriado de televisão A Ilha da Fantasia (Fantasy Island).
Em 1980, conseguiu um papel em Delta House, uma série de televisão que não ficou muito tempo no ar; e estreou no Cinema em Quando o Amor Renasce (Falling in Love Again), um filme inexpressivo, dirigido por Steven Paul e estrelado por Elliott Gould e Susannah York.
Durante três anos, só trabalhou em fitas medíocres – The Hollywood Knights (1980), Charlie Chan Contra a Rainha Dragão (Charlie Chan and the Curse of the Dragon Queen, 1981) e Os Tempos da Brilhantina Continuam (Grease 2, 1982). Foi somente em 1983 que conseguiu seu primeiro grande papel: o da cocainômana Elvira, esposa do gângster Tony Montana, em Scarface (Scarface), de Brian De Palma.
E, em 1985, sua carreira se consolidou definitivamente, graças a dois filmes: Um Romance Muito Perigoso (Into the Night), interpretando Diana, uma jovem um tanto desmiolada que está o tempo todo fugindo dos mafiosos; e O Feitiço de Áquila, encarnando a bela e meiga lady Isabeau d’Anjou.
Michelle Pfeiffer foi a escolha certa para o papel de lady Isabeau, pois, como bem disse Antonio Querino Neto, “seu sex-appeal não é do tipo muito óbvio ou imediatamente decodificável. Não se detecta facilmente o que há por trás daquela voz frágil e langorosa”. Michelle é “uma sereia que nos puxa para o fundo de um oceano (...). Sua estratégia de sedução inclui doses maciças de pudor e pureza, que o inconsciente masculino necessita tanto quanto necessita de pecado. (...) Esconde as garras felinas sob um manto de timidez delicioso que acende qualquer mortal” (Set número 34, p. 24).
Realmente, lady Isabeau (ela irradia tanto pecado quanto inocência, representando, a um só tempo, a mulher-amante e a mulher-mãe) encontrou a intérprete perfeita em Michelle Pfeiffer, que sabe ser extremamente sensual sem nunca cair na vulgaridade, que sabe (com seu aspecto gélido e frágil) se tornar um objeto de desejo, que sabe (não sei se consciente ou inconscientemente) que  para ser uma estrela é necessário sobretudo ser uma grande atriz.
Agora, falando de O Feitiço de Áquila... O filme é uma adaptação de um romance de Joan D. Vinge (nascida em Baltimore, no estado norte-americano de Maryland, em 1948, Joan D. Vinge começou a escrever profissionalmente em 1973, especializando-se em histórias de Ficção Científica. Seus livros mais conhecidos são: A Rainha do Gelo (The Snow Queen, 1980), ganhador do prêmio Hugo de 1981 para a Melhor Novela de Ficção Científica; Psion (Psion, 1982); e O Feitiço de Áquila, cuja narrativa, inspirada numa lenda do século 12 ou do século 13, mistura em doses exatas aventura, magia, mistério e suspense).
Tendo custado 23 milhões de dólares e trazendo no elenco, além de Michelle Pfeiffer, o ator holandês Rutger Hauer, que se consagrou no Cinema ao viver o replicante rebelde que enfrenta Harrison Ford no cult-movie Blade Runner, O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982), e Matthew Broderick, o astro de Jogos de Guerra (WarGames, 1983), O Feitiço de Áquila é uma fita bonita e comovente, que agrada a todos (crianças e adultos).

“O lobo rodeou a mulher cautelosamente, chegando mais perto, (...) com o pêlo arrepiado, os olhos ambarinos nunca se desviando do rosto dela. A mulher sorriu, como sorriria para um amigo querido. Estendeu a mão, chamando o animal, convidando-o a aproximar-se. Ele obedeceu com cautela, farejando. Suas mandíbulas manchadas de escuro se abriram. Phillipe conteve a respiração.
O lobo prendeu o braço da mulher entre as mandíbulas, mas os caninos reluzentes não derramaram sangue. As mandíbulas se fecharam tão levemente que aquilo era quase uma carícia. Então, ele a largou. A mulher ajoelhou-se e passou delicadamente o braço em torno do pescoço do animal. O lobo estremeceu ao seu toque, depois baixou a cabeça, em dócil aquiescência à sua afeição.”
Trecho do romance O Feitiço de Áquila

“O mais importante em O Feitiço de Áquila – mais do que a belíssima fotografia de (Vittorio) Storaro, mais do que a feliz escolha dos cenários e a inspirada direção de arte (de Giovanni Natalucci), mais do que o casamento perfeito dos personagens com seus intérpretes, mais do que a utilização hábil dos animais, não somente lobos e falcões, mas também o cavalo do herói – (...) é a volta ao tema do amor em toda a sua plenitude, com os ingredientes clássicos do sacrifício e da renúncia (...), inserido num contexto mágico de lenda.”
Fernando Albagli

Barbarella (Barbarella, 1967, 98')

Direção: Roger Vadim
Roteiro: Terry Southern, Roger Vadim, Claude Brûlé, Brian Degas, Tudor Gates, Jean-Claude Forest
Argumento: História em quadrinhos de Jean-Claude Forest
Elenco: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O’Shea, David Hemmings, Marcel Marceau, Ugo Tognazzi, Claude Dauphin, Catherine Chevallier, Marie-Thérèse Chevallier, Serge Marquand, Véronique Vendell

Sinopse: No ano 40.000, o presidente da Terra incumbe Barbarella, uma linda e sensual aventureira espacial, de encontrar o cientista Durand-Durand, que inventou um raio com grande poder de destruição. Então, tempestades magnéticas obrigam Barbarella a pousar no planeta Lythion. Ali, ela conhece o anjo cego Pygar, cai nas mãos da sádica Rainha Negra da cidade de Sogo e tem de enfrentar inúmeros perigos.

Comentário: Deus criou a mulher; e, segundo A Bíblia, a primeira mulher foi Eva, criada a partir de uma costela de Adão, o primeiro homem. Muitos séculos mais tarde, o cineasta Roger Vadim (1928-2000) criou, no filme E Deus Criou a Mulher (Et Dieu Créa la Femme, 1956), uma nova Eva, a menina-mulher Juliette, que encontrou sua intérprete perfeita em Brigitte Bardot. E, em 1962, o ilustrador e quadrinhista Jean-Claude Forest (1930-1998) criou a melhor encarnação de Eva nos Quadrinhos, a sedutora Barbarella, fortemente inspirada em Juliette e em Brigitte Bardot, que, na época, já era um dos maiores mitos do Cinema.
Surgida na primavera de 1962, nas páginas de V-Magazine (revista de vanguarda editada por Georges H. Hallet, amigo pessoal de Jean-Claude Forest), Barbarella é uma jovem da Terra que viaja pelo espaço sideral em busca de novas experiências e de novas emoções. Ela é inteligente e muito charmosa; tem longos cabelos louros, um rosto provocante, um corpo sinuoso e uma grande disposição para ajudar aqueles que se encontram em dificuldades; não tem medo do perigo, pois sabe que pode usar o corpo como arma de defesa e ataque; quase sempre é mostrada com pouca ou nenhuma roupa (ficar e mostrar-se nua não a incomoda nem um pouco); está sempre disposta a fazer sexo, não se importando em ter relações com um homem ou um robô; e, para melhor defini-la, pode-se dizer que reúne certas características de algumas das mais conhecidas estrelas cinematográficas do começo da década de 1960 (a naturalidade de Brigitte Bardot, a beleza escultural de Ursula Andress, a impetuosidade de Virna Lisi e a sensualidade selvagem de Sophia Loren). E, num artigo publicado na edição de 4 de agosto de 1967 da revista Visão, foi dito o seguinte a respeito dela:
“Barbarella é, fisicamente, a Vênus do nosso tempo, um manequim desbonecado. Seria como uma daquelas magníficas mulheres das capas da Vogue ou da Elle, se elas tivessem sexo. Ela é imediatista, sensorial, intuitiva, amoral. Barbarella pode igualmente ser um símbolo do nosso tempo na medida em que a mulher pretende ser total, a fêmea do homem, um animal feminino e, ao mesmo tempo, um ser autônomo, independente, criador, mulher e não escrava. Naturalmente, Barbarella não existe. Ela é um personagem de ficção, heroína de história em quadrinhos. Porém, mais viva e real, justamente por ter sido este gênero de divulgação revalorizado em nosso tempo como meio de comunicação de massa. (...) foi criada por inteiro, desde que sua primeira aventura foi publicada em Paris, em 1962. Quando o leitor deu por Barbarella, foi de corpo todo. Ele podia discutir, inclusive, se ela era ou não a cara de Brigitte Bardot, ou a própria Brigitte, como querem alguns. Existem ainda outros que acreditam que Jean-Claude Forest (...) usou Brigitte Bardot como modelo. Isto, porém, não tem a menor importância. Barbarella é tão mito quanto o mito que teria inspirado sua criação. Para os homens, ela é ideal porque se dá com fúria e não exige nada, porque é uma mulher muito importante, mas acha o homem importantíssimo.”
E, em 1967, Barbarella teve sua história adaptada para o Cinema, numa co-produção francesa e italiana.
Com um custo – alto, para a época – de três milhões e meio de dólares e distribuição da Paramount, o filme teve direção de Roger Vadim (ele foi escolhido para ser diretor, após os produtores terem contatado diversos cineastas, entre os quais, Guy Hamilton, Marco Ferreri, Mario Monicelli e Richard Fleischer. Jean-Luc Godard se mostrou interessado em dirigir a fita; mas suas brigas com Robert Benayoun, um dos redatores de Positif, revista especializada em Cinema e editada por Éric Losfeld, o detentor dos direitos de adaptação cinematográfica de Barbarella, não permitiram que realizasse seu desejo) e apresentou Jane Fonda (ela, que, na época, era a esposa de Vadim, foi eleita para encarnar Barbarella, após Brigitte Bardot e Sophia Loren terem recusado o papel e depois de testes feitos com as atrizes Ira de Furstenberg, Joan Shrimpton e Elizabeth Wiener), John Phillip Law e Anita Pallenberg nos principais papéis.
Muito mal recebido pela crítica, o filme Barbarella vale pela seqüência inicial (um strip-tease da heroína), pelo cenário (aqui, Jean-Claude Forest interviu de maneira decisiva, criando cenários com conotações mitológicas e bíblicas), pela belíssima fotografia (em technicolor) de Claude Renoir, pelo figurino criado pelos estilistas Jacques Fonteray e Paco Rabanne (responsável pelo traje usado por Barbarella na última seqüência) e pelo desfile ininterrupto de mulheres bonitas [a respeito disso, o crítico, pesquisador e editor espanhol Luis Gasca afirmou o seguinte: “O desfile de belezas surrealistas é contínuo, ainda que Vadim se limite a apresentá-las em seqüências rápidas, quase subliminares. Num catálogo futuro da mulher fantástica no Cinema, deverá haver referência: às heteras que se alimentam de orquídeas; às garotas-arbóreas de Sogo; às mulheres que ficaram cristalizadas ao fundirem-se com as rochas da cidade; às hirsutas mulheres-leões; às jovens que cobrem a cabeça com chapéus em forma de lábios; às Justines martirizadas pela Rainha Negra, como numa história em quadrinhos masoquista. Anita Pallenberg, a inesquecível Rainha Negra de Barbarella, foi quem comandou em seus domínios esse desfile de mulheres de sonho (...)].

“(...) Barbarella vive um pouco no jeito de ser da filha de Henry Fonda. As duas têm em comum a maneira, digamos, largada de viver a vida, o rosto sensual e, apesar disso, ou por isso, cheio de uma terna doçura, o corpo longo e fino, as longas pernas, o busto nunca tão raro como nas assexuadas Twiggies (...). O busto justo. As duas têm aquela capacidade de vestir minissaia por serem longilíneas e, ao mesmo tempo, usarem bem um suéter por terem guardada no peito sua arma mais poderosa.”
Revista Visão (edição de 4 de agosto de 1967)

Barbarella atravessa o campo de diversos gêneros, sempre apressadamente e só na superfície. O encontro da heroína recém-chegada a Lythion com duas meninas gêmeas e sinistras poderia perfeitamente figurar num desses neuróticos ensaios de, por exemplo, Freddie Francis, sobretudo quando as gêmeas servem Barbarella, de mãos atadas, à sua coleção de bonecas carnívoras. Entre todos os gêneros, o que menos se representa em Barbarella é exatamente o conto de science-fiction. (...) nada conduz o filme à idéia mais delirante que se possa ter da paisagem e do ser humano, no ano 40.000. O coeficiente de antecipação é muito reduzido (...).
No vôo ao futuro mais distante, volta-se ao passado mais remoto, aos tempos heróicos, aos mitos primitivos. Teria sido válida a experiência, se não nos parecesse fortuita – e nunca calculadamente híbrida – essa mistura. É bem conhecida a hipótese da destruição de Sodoma e Gomorra por uma arma atômica, possivelmente empregada por tripulantes de um disco voador (até estudos geológicos, feitos na região em que teriam existido as cidades do vício, poderiam confirmar a suspeita metafísica). Em Barbarella, também Sogo, essa cidade do Mal, vem a ser destruída pelo Raio Positrônico, arma também apocalíptica. E, quando isso ocorre, apenas três pessoas sobrevivem, voando sem olhar para trás: o Anjo cego e lúbrico, carregando com um braço a Rainha Negra e com o outro Barbarella (...). A câmara os deixa suspensos no espaço, na última cena do filme; e, por ser Vadim quem dirigiu, pode-se admitir que a intenção dessa cena foi programar ou pelo menos sugerir as possibilidades de ménage à trois, ad infinitum.”
Antonio Moniz Vianna

Tubarão (Jaws, 1975, 120')

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Peter Benchley & Carl Gottlieb, baseando-se no romance homônimo de Peter Benchley
Elenco: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Murray Hamilton

Sinopse: Numa noite quente de verão, uma jovem mergulha nua no mar calmo, tornando-se a primeira vítima de um impiedoso e faminto tubarão. Na manhã seguinte, as sobras do corpo da garota vão dar na praia, na pequena e pacata cidade de Amity. A seguir, o tubarão reaparece, causando pânico nos banhistas. Então, o xerife de Amity, um experiente caçador e um oceanógrafo unem-se e saem num barco, a fim de matar o tubarão.

Comentário: Em certa noite de 1958, no estado norte-americano do Arizona, Arnold Spielberg, um senhor de cerca de quarenta anos de idade, chegou à sua casa e chamou seus três filhos, Nancy, Sue e Steven, para uma reunião na cozinha. Em seguida, mostrou-lhes um objeto minúsculo, anunciando: “Isto é o futuro!” O objeto era um transistor; e Steven, um garoto de onze anos, quis examiná-lo melhor. Então, pegou-o das mãos do pai, colocou-o na boca e, sem querer, engoliu-o. Em meio ao desespero das duas filhas, Arnold falou para o filho: “Steven, você é o primeiro menino transistorizado do mundo. O futuro lhe pertence!”
E o futuro do menino Steven Spielberg era o Cinema.
E muito cedo Steven – ele nasceu em 1948, em Ohio, no seio de uma família de origem judia – descobriu que os filmes eram a porta mágica que se abria para um mundo de infinitas possibilidades e um universo de emoções e excitações. Então, ao contrário dos demais garotos de sua idade, que se expressam por meio de desenhos no papel, passou a comunicar-se por intermédio de imagens em movimento e, certa vez, numa entrevista para o jornal The New York Times, confessou: “Sempre fui capaz de representar minha vida em vinte e quatro quadros por segundo.”
E, aos doze anos de idade, Steven filmou uma colisão de seus trenzinhos elétricos. Também mais ou menos nessa mesma época, realizou, em 8 mm e ao custo de dez dólares, um filme de três minutos e meio que mostrava um de seus amigos assaltando uma diligência e contando o dinheiro roubado. Depois, quando tinha treze anos, fez, também em 8 mm, Escape to Nowhere, uma fita de Guerra de cerca de quarenta minutos. E, aos dezesseis anos, quando sua família estava se estabelecendo na Califórnia, realizou seu projeto mais ambicioso: Firelight, um filme de Ficção Científica com quase duas horas de duração e no qual já se podem detectar elementos que seriam posteriormente desenvolvidos em Contatos Imediatos do Terceiro Grau.
Durante o tempo em que esteve matriculado no California State College, em Long Beach, Steven Spielberg, um amante de filmes feitos para a televisão e dos desenhos animados produzidos por Walt Disney (1901-1966) – particularmente Fantasia (Fantasia, 1940), Dumbo (Dumbo, 1941) e Bambi (Bambi, 1942) –, passava a maior parte do tempo realizando fitas em 16 mm. E, em 1969, rodou, em dez dias, um curta-metragem, Amblin, cujos personagens principais são dois caronas que viajam pelo deserto da Califórnia. Ainda em 1969, foi contratado pela Universal para dirigir “Eyes”, um dos três episódios de Retrato de um Pesadelo (Night Gallery), o piloto de uma nova série para a televisão, Galeria do Terror (Nigth Gallery, 1970-1973), criada e apresentada pelo produtor e roteirista Rod Serling (1924-1975).
Estrelado pela veterana atriz Joan Crawford (1904-1977), “Eyes” abriu as portas da televisão para Steven Spielberg e proporcionou-lhe a oportunidade de ganhar experiência e poder desenvolver seu talento criativo. E, entre 1970 e 1971, Steven dirigiu episódios das séries televisivas Marcus Welby, Médico (Marcus Welby), Galeria do Terror, Os Audaciosos (The Name of the Game), The Psychiatrist e Columbo; e realizou dois telefilmes [A Força do Mal (Something Evil), que narra a luta de uma mãe, Marjorie Worden (Sandy Dennis), contra as forças demoníacas que se apossaram de seu filho, Stevie (Johnny Whitaker); e Encurralado (Duel), baseado num conto de Richard Matheson publicado na revista Playboy].
Com um suspense crescente, Encurralado mostrou ao espectador todo o talento de Steven Spielberg para criar cenas de intenso realismo e impacto. E cenas de intenso realismo e impacto são o que não faltam em Tubarão, em que o Mal assume a forma de um animal faminto e feroz, o tubarão do título, que aterroriza Amity, uma pequena cidade litorânea cuja renda é oriunda principalmente dos dólares conseguidos no verão, quando para lá se dirigem turistas atraídos por seu mar de águas limpas.
A direção de Spielberg, o roteiro de Peter Benchley e Carl Gottlieb, a montagem de Verna Fields e a música de John Williams fizeram de Tubarão um marco do cinema norte-americano da década de 1970.

King Kong (King Kong, 1976,129')

Direção: John Guillermin
Roteiro: Lorenzo Semple Jr., baseando-se no roteiro de James Creelman & Ruth Rose
Argumento: Merian C. Cooper & Edgar Wallace
Elenco: Jeff Bridges, Charles Grodin, Jessica Lange, John Randolph, René Auberjonois

Sinopse: Durante uma expedição, técnicos da empresa petrolífera Petrox encontram numa ilha perdida no Oceano Pacífico um gorila de dimensões gigantescas. Ganancioso, o chefe da expedição decide capturar o gorila e levá-lo para Nova York, a fim de mostrá-lo como atração ao público.

Comentário: Nascido na Itália, em 1919, Dino De Laurentiis estudou interpretação no Centro Sperimentale di Cinematografia e chegou a trabalhar como ator (segundo algumas fontes, ele foi apenas extra) em algumas fitas; porém, logo desistiu da carreira e decidiu tornar-se produtor cinematográfico. E, em 1949, produziu o filme que possibilitaria o reconhecimento internacional e a popularização do Neo-Realismo Italiano: Arroz Amargo (Riso Amaro), que mostra a dura vida das mondine (mondadeiras de arroz).
Durante as filmagens de Arroz Amargo, De Laurentiis sentiu-se fortemente atraído por uma das atrizes principais da fita, Silvana Mangano (1930-1989), dona de uma beleza natural, quase selvagem. Os dois namoraram e, ainda em 1949, contraíram  matrimônio.
Por volta de 1950, Dino De Laurentiis associou-se ao também produtor Carlo Ponti, fundando a Ponti-De Laurentiis, responsável pela produção de alguns filmes importantes: Anna (Anna, 1951), que consagraria definitivamente Silvana Mangano como a primeira musa erótica do cinema italiano do pós-guerra; Europa ’51 (Europa ’51, 1952), dirigida por um dos criadores do Neo-Realismo, Roberto Rossellini (1906-1977); A Loba (La Lupa, 1953); e, entre outros, A Estrada da Vida (La Strada, 1954), um dos filmes memoráveis de Federico Fellini (1920-1993).
Depois de terminar sua sociedade com Carlo Ponti, De Laurentiis produziu inúmeras fitas, dentre as quais merecem ser destacadas: As Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria, 1957), que teve direção de Fellini; Barrabás (Barabbas, 1961), baseada no romance homônimo do escritor sueco Pär Lagerkvist (1891-1974); A Bíblia (The Bible, 1966), um grande fracasso; e Barbarella.
No começo de 1970, Dino De Laurentiis vendeu seus estúdios (chamados de Dinocittà) para o governo italiano e mudou-se para Nova York. Queria conquistar a América, a terra do Cinema. E um dos primeiros filmes que produziu nos Estados Unidos foi Serpico (Serpico, 1973), dirigido pelo veterano Sidney Lumet e que conta a história real de Frank Serpico (Al Pacino), um policial honesto que denunciou a corrupção existente no departamento de polícia de Nova York.
O êxito de Serpico abriu as portas de Hollywood para Dino De Laurentiis, que, no início de 1975, se reuniu com o então presidente e diretor administrativo da Paramount, Barry Diller, para discutir novos projetos.
Diller estava procurando outro grande filme, que repetisse o sucesso de O Poderoso Chefão (The Godfather), produzido pela Paramount e lançado em 1972.
Durante a reunião, De Laurentiis recordou-se de um pôster que vira no quarto de sua filha Francesca – esse pôster reproduzia a mais famosa cena da fita King Kong (King Kong, 1933): a que mostra o gorila no alto do Empire State Building – e disse que sabia que filme deveriam realizar: a refilmagem de King Kong. Em seguida, falou que o novo Kong deveria ser totalmente diferente do gorila criado por Merian C. Cooper e Willis O’Brien. Então, explicou que o Kong original mais parecia um personagem de sonho, enquanto que o novo Kong teria de ser uma figura bem real, um animal dotado de características e sentimentos humanos.
Entusiasmado com a idéia, Diller aprovou-a de imediato. E, pouco tempo depois, a imprensa noticiou que Dino De Laurentiis e a Paramount haviam comprado da RKO os direitos de King Kong. Imediatamente, a Universal, que também tinha planos de produzir uma nova versão da fita, iniciou uma ação judicial, pedindo 25 milhões de dólares de indenização – o estúdio alegava que a RKO havia quebrado o compromisso de ceder-lhes os direitos para a produção e distribuição do novo King Kong.
Enquanto corria o processo, De Laurentiis começou a procurar um roteirista para o filme. Lembrou-se de Lorenzo Semple Jr., que, junto com David Rayfiel, lhe havia escrito recentemente o roteiro de Três Dias do Condor (Three Days of the Condor, 1975). E, ato contínuo, telefonou para o escritório dele em Aspen, no Colorado.
Para ver a reação do roteirista, Dino De Laurentiis disse apenas o título da próxima fita que pretendia produzir: King Kong. Como a reação de Semple Jr. foi positiva, De Laurentiis pediu que ele fosse vê-lo em seu escritório em Los Angeles.
Durante esse encontro, realizado no dia seguinte, a primeira coisa que Semple Jr. quis saber foi se a fita seria, como o primeiro King Kong, ambientada na década de 1930. De Laurentiis respondeu que não, informando que o filme se passaria na época atual, meados dos anos 1970. Depois, falou que o final seria igual ao do King Kong original: o gorila seria abatido do alto de algum arranha-céu de Nova York. E acrescentou que o amor da Fera pela Bela teria de ir muito além do que tinha sido mostrado no filme produzido por Merian C. Cooper. Então, começou a caminhar de um lado para o outro do escritório, fazendo os gestos de um macaco arrancando com extrema delicadeza as roupas de uma garota.
Lorenzo Semple Jr. retornou a Aspen e, algumas semanas mais tarde, remeteu para Dino De Laurentiis umas quarenta páginas, datilografadas em espaço duplo, com um esboço do roteiro. Essas quarenta páginas foram traduzidas para o Italiano – De Laurentiis sempre faz questão de que tudo o que lhe passa pelas mãos (roteiros, argumentos, sinopses etc.) esteja escrito em Italiano, pois tem o hábito de ler cada página com o máximo de atenção, detendo-se até mesmo nos mínimos detalhes.
Alguns dias depois de ter enviado o esboço do roteiro, Lorenzo Semple Jr. voltou ao escritório de Dino De Laurentiis.
Como ocorre nas reuniões entre roteiristas e produtores, Semple Jr. estava um pouco apreensivo. Temia que De Laurentiis tivesse feito várias modificações na história. Mas seu temor era infundado, já que o produtor gostara do esboço do roteiro e aprovara-o quase inteiramente.
Houve apenas três modificações importantes:

  1. O personagem Jack Prescott (interpretado no filme por Jeff Bridges) era inicialmente um italiano excêntrico e cômico, adido à biblioteca do Vaticano. De Laurentiis rejeitou essa idéia e transformou-o num antropólogo, num professor universitário;
  2. Joe Perko, o capataz dos perfuradores de petróleo, que tem uma pequena participação na fita, era originalmente um dos personagens principais da história. Era o par romântico da mocinha; e, para criá-lo, o roteirista baseou-se num artigo que lera numa revista (segundo esse artigo, as ligações entre homens truculentos e mulheres semi-intelectualizadas estavam na moda);
  3. No início, a mocinha do filme era uma operadora de câmera que fazia parte da equipe que realizava comerciais para a Petrox; e, para interpretá-la, Semple Jr. pensou em Candice Bergen. Mas De Laurentiis transformou-a numa aspirante à atriz, que é encontrada à deriva num bote inflável; e Candice Bergen logo foi descartada para o papel, que acabou sendo dado a Jessica Lange (foi sua estréia no Cinema).

Feitas essas alterações, a história do novo King Kong estava pronta. E essa história mostra um homem ambicioso (interpretado na fita por Charles Grodin), que não hesita em pôr em risco a vida de quem quer que seja, desde que tenha êxito a prospecção de um lençol petrolífero existente numa ilha localizada no sul do Oceano Pacífico.
Definida a história e com o roteiro em andamento, faltava agora encontrar um diretor. A princípio, De Laurentiis pensou em Roman Polanski, que havia dirigido para a Paramount Chinatown (Chinatown, 1974), estrelado por Jack Nicholson e Faye Dunaway. Chegou, inclusive, a contatá-lo e explicar-lhe o filme que pretendia realizar.
Ao saber que Kong seria a estrela da fita, Polanski disse que não poderia dirigi-la, uma vez que não saberia o que fazer com um gorila imenso. Falou ainda que “sua loucura não chegara a tanto”.
De Laurentiis procurou, então, John Guillermin, que já trabalhava para ele, preparando uma nova versão do clássico O Furacão (Hurricane, 1937), de John Ford (1895-1973).
Tão logo se inteirou do que De Laurentiis pretendia, Guillermin falou que aceitaria dirigir a fita, desde que Kong tivesse uma cabeça de tamanho natural e uma mão mecânica que pudesse pegar a garota, coisas essas que faltaram no filme de Merian C. Cooper. De Laurentiis concordou com o pedido. E o projeto Hurricane foi deixado de lado, e John Guillermin passou a dedicar-se em tempo integral à refilmagem de King Kong.
Nesse meio tempo, Lorenzo Semple Jr.  terminou de escrever o primeiro tratamento do roteiro e remeteu-o para Dino De Laurentiis.
O produtor achou-o extenso demais para um filme de Aventura, que requer muita ação e poucos diálogos, e ordenou que suas 140 páginas fossem condensadas em, no máximo, noventa.
Como condensar não é simplesmente cortar, John Guillermin ficou preocupado e prontificou-se em auxiliar Semple Jr. nesse duro e ingrato trabalho.
O roteirista acalmou-o, falando que faria o que estava sendo pedido e que estaria de volta “num piscar de olhos, com um script formidável que faria todos pularem de alegria”.
Disse isso e partiu para Aspen.
Durante dias, Lorenzo Semple Jr. trabalhou intensamente e ficou satisfeito com as 92 páginas que resultaram no segundo tratamento do roteiro. E, quando as enviou para o escritório de Dino De Laurentiis, tinha certeza de que receberia os maiores elogios pelo trabalho. Mas não foi bem isso que aconteceu. O segundo tratamento foi repudiado. Guillermin disse que “tudo o que distinguia o esboço e o primeiro tratamento tinha desaparecido”. De Laurentiis foi mais contundente e falou que Semple Jr. não seria capaz de escrever um “lixo” daqueles, que possivelmente fora escrito por outro roteirista.
Lorenzo Semple Jr. acabou aceitando, então, a oferta que John Guillermin lhe fizera; e trabalharam juntos no roteiro. Muita coisa foi cortada, muita coisa foi reescrita, muita coisa foi acrescentada. E, enfim, o roteiro definitivo da nova versão de King Kong estava pronto.
Enquanto isso, a questão judicial envolvendo King Kong chegava ao final; e Dino De Laurentiis podia produzir o filme, que nada mais é do que uma nova interpretação da história da Bela e da Fera.

Cidade Oculta (1986, 75')

Direção: Chico Botelho
Roteiro: Chico Botelho, Walter Rogério & Arrigo Barnabé, com a colaboração de Luiz Gê
Elenco: Arrigo Barnabé, Carla Camurati, Cláudio Mamberti, Celso Saiki, Chiquinho Brandão, Cristina Sano, Wilson Sampson

Sinopse: As vidas de quatro personagens – o marginal Anjo; Shirley Sombra, misto de estrela de boates decadentes e bandida (ela é namorada do Anjo); Ratão, um policial corrupto; e o bandido Japa – se entrelaçam na noite paulistana.

Comentário: Francisco Cassiano Botelho Jr., mais conhecido como Chico Botelho, nasceu em Santos, no litoral paulista, em 1948. Aos dezesseis anos de idade, mudou-se para a cidade de São Paulo e, em 1973, graduou-se em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, da qual se tornaria professor em 1975.
Integrante do grupo de cineastas da Vila Madalena, Chico Botelho dirigiu dois curtas-metragens, Gare do Infinito (1972) e Corpo de Baile (1974), e um documentário em 16 mm, São João del Rey del Povo (1976), sobre a música de Minas Gerais. Foi o responsável pela fotografia dos filmes As Três Mortes de Solano (1975), Parada 88 (1977), Estrada da Vida (1980) e Céu Aberto (1985), dirigidos, respectivamente, por Roberto Santos (1928-1987), José de Anchieta, Nelson Pereira dos Santos e João Batista de Andrade. Trabalhou, ainda, na televisão, como diretor e fotógrafo. E dirigiu Janete (1982).
Primeiro longa-metragem realizado por Chico Botelho, Janete narra a trajetória de uma adolescente sem família (interpretada por Nice Marinelli) no submundo – ladra e prostituta, ela é presa e, no presídio, sofre as mais horríveis humilhações – e sua tentativa de mudar de vida e conseguir um pouco de carinho.
Falecido, prematuramente, em 1991, Chico Botelho dirigiu, além de Janete, apenas mais um longa-metragem: Cidade Oculta, inspirado na história em quadrinhos norte-americana The Spirit, de Will Eisner (1917-2005).
Ganhador do prêmio de Melhor Filme no Rio-Cine Festival de 1986, Cidade Oculta [segundo o crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva, Cidade Oculta é “um filme macho, dinâmico, realista, emocionante” (História Ilustrada dos Filmes Brasileiros 1929-1988, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1989, p. 232)] é uma aventura policial – na verdade, a fita é uma síntese de vários gêneros cinematográficos (faz referência aos musicais norte-americanos, aos filmes Noir, aos filmes de Ação) – ambientada na cidade de São Paulo (a fita mostra o lado  oculto da metrópole).
E a figura principal de Cidade Oculta é Shirley Sombra (Carla Camurati), que toma parte, direta ou indiretamente, em todos os trágicos acontecimentos que envolvem os demais personagens da história, atuando como uma espécie de agente do Destino.
E Cidade Oculta é a História em Quadrinhos apresentada/representada no Cinema. É The Spirit transposta para as telas cinematográficas, sem ser, de verdade, The Spirit no Cinema. Sua equipe realizadora, encabeçada por Chico Botelho, conseguiu algo muito raro: sem transpor diretamente The Spirit para as telas, produziu um filme com as principais características e os elementos mais marcantes dessa história em quadrinhos.
Se para Will Eisner trabalhar em The Spirit foi como fazer filmes (certa vez, o quadrinhista afirmou: “Trabalhar em The Spirit, foi como estar fazendo filmes. Deu-me uma chance de ser, a um só tempo, ator, produtor, roteirista, diretor e cinegrafista.”), pode-se afirmar que, para Chico Botelho – e equipe –, realizar Cidade Oculta foi como produzir uma história em quadrinhos.
E, se The Spirit é uma história em quadrinhos que deve ser lida por todos aqueles que desejam saber o que é a História em Quadrinhos, Cidade Oculta é um filme que deve ser visto por todos aqueles que desejam saber o que é o Cinema: uma arte na qual o que interessa, verdadeiramente, não é ter uma boa história para contar, mas, sim, saber contar essa história por meio de imagens – o Cinema é uma arte em que diversos detalhes, como a cor, a iluminação, o cenário e o figurino, são importantes; e Cidade Oculta é uma fita em que a cor, a iluminação, o cenário e o figurino têm um papel fundamental.

“A estética do filme resgata o lixo, as sujeiras de uma metrópole metida num irreversível processo pós-industrial. São Paulo é o quinto grande personagem. Seus esgotos, suas mensagens cifradas em néons, seus fantasmas soterrados por ruidoso redemoinho noturno aparecem como delírios cosmopolitas, fantasmagorias que alimentam o grande caldeirão de referências embutidas na linguagem de Cidade Oculta. A fotografia de José Roberto Eliezer não tem paralelos no cinema brasileiro. Lugares comuns, como o Minhocão, as alamedas orientais do bairro da Liberdade ou sobrados da Vila Madalena, ascendem feito explosivos emblemas do milênio que aponta na reta da largada. O prédio do Banespa, repetido diversas vezes durante a narrativa, com sua forma de seringa, é o sinal da dolorida picada que abre as portas do inferno. Também não é à toa que o cabaré onde Shirley Sombra camufla sua bandidagem seja a tenebrosa Estação Madame Satã.”
Ademir Assunção

Tarzan o Homem Macaco (Tarzan the Ape Man, 1932, 99')

Direção: W. S. Van Dyke
Roteiro: Cyril Hume & Ivor Novello (diálogos), baseando-se no romance Tarzan of the Apes, de Edgar Rice Burroughs
Elenco: Johnny Weissmuller, Maureen O’Sullivan, Neil Hamilton, C. Aubrey Smith

Sinopse: A jovem Jane Porter chega à África e reúne-se com seu pai. Em seguida, os dois partem numa expedição, em busca do lendário cemitério dos elefantes, e acabam encontrando Tarzan, um homem criado pelos macacos.

Comentário: Escrito por Edgar Rice Burroughs (1875-1950) e publicado pela primeira vez no número de outubro de 1912 da revista The All-Story, o romance Tarzan of the Apes (Tarzan dos Macacos, numa tradução literal) narra uma história que é, a um só tempo, comovente e empolgante:
Em maio de 1888, no porto de Dover, na Inglaterra, John Clayton, lord Greystoke, e sua linda esposa, lady Alice, que estão casados há apenas três meses, embarcam num navio. Seu destino é uma colônia britânica na costa ocidental da África, onde John Clayton terá de investigar, a serviço do British Colonial Office, algumas denúncias envolvendo nativos que estão sendo explorados por outra potência européia. Um mês mais tarde, o navio chega a Freetown, em Serra Leoa. Imediatamente, John Clayton aluga uma pequena embarcação, a Fuwalda, a fim de continuar viagem até seu destino final.
Certo dia, os marinheiros da Fuwalda amotinam-se e matam o capitão e os demais oficiais, que só sabiam usar da violência para serem respeitados.
A seguir, temendo que John Clayton e lady Alice possam mais tarde testemunhar contra eles num tribunal, os amotinados abandona-os – com toda a bagagem (roupas, jóias, livros etc.), provisões e algumas ferramentas – num ponto deserto da costa africana.
Dois meses depois desses acontecimentos, John Clayton termina de construir uma cabana, que, a partir de então, será o lar de sua família.
O tempo passa...
Lady Alice dá à luz um menino e, cerca de um ano mais tarde, morre.
Abatido pela tragédia. John Clayton não percebe a cabana ser invadida por um grupo de orangotangos e termina sendo morto pelo feroz Kerchak, o macaco-rei da tribo.
Em seguida, Kala, uma jovem macaca cujo filhote morreu poucas horas antes, salva o pequenino lord Greystoke de ser morto por Kerchak e adota-o como seu filho.
Sob os cuidados da zelosa Kala, o filho de lord e lady Greystoke cresce e, devido à sua coragem, força e inteligência, passa a ser temido por todos os orangotangos da tribo, que o chamam de Tarzan (na linguagem dos símios, Tarzan quer dizer “pele branca”).
Um dia, Tarzan entra na cabana construída por seu pai e encontra ali vários livros, que lhe possibilitam aprender a ler e a escrever. E a leitura desses livros fazem-no descobrir que é um homem. Então, começa a sentir-se só entre seus companheiros. Depois, quando já é adulto, luta com Kerchak e mata-o, tornando-se o rei dos macacos.
Alguns dias após ter matado Kerchak, Tarzan volta à cabana e percebe que alguém esteve ali, pois está tudo revirado. Em seguida, vê através da janela algumas pessoas na praia. Uma dessas pessoas é a jovem e graciosa Jane Porter, por quem se apaixona à primeira vista.
Tarzan torna-se o protetor de Jane e salva-a de diversos perigos – salva-a, inclusive, das mãos de Terkoz, um terrível gorila.
E, no final, Tarzan descobre que é filho de lord e lady Greystoke.
Entre 6 de janeiro e 27 de fevereiro de 1913, Tarzan of the Apes foi publicado em capítulos no jornal New York Evening World, tornando-se um sucesso. E o sucesso foi tanto que motivou a A. C. McClurg & Co., uma editora de Chicago, a publicá-lo em livro.
Lançada em junho de 1914, a primeira edição de Tarzan of the Apes (no Brasil, esse romance recebeu o título de Tarzan o Filho das Selvas e foi publicado em 1933, pela Companhia Editora Nacional, na Coleção “Terramarear”) esgotou-se rapidamente. O mesmo aconteceu com a segunda edição, impressa também em 1914.
Edgar Rice Burroughs, que era até aquele momento um autor obscuro, tornou-se conhecido. Então, os repórteres o procuraram e fizeram-lhe perguntas a respeito de onde e como aprendera a arte de escrever. Burroughs respondeu simplesmente: “Nunca aprendi a escrever!”
A resposta desconcertou os repórteres. Mesmo assim, eles não desistiram e quiseram saber o segredo de seu sucesso.
Foi quando Burroughs lhes falou:
“Para escrever um bom romance é preciso:

  1. Ser um homem desiludido e desencorajado;
  2. Ter malogrado em tudo o que tentou fazer;
  3. Ter levado uma vida insuportavelmente monótona e desinteressante;
  4. Estar francamente enjoado da civilização;
  5. Saber mal a Gramática e ler pouco;
  6. Possuir uma inteligência mediana e gostos comuns;
  7. Nunca tratar de um assunto do qual entenda alguma coisa.”

Ele poderia ter mencionado uma oitava regra: ter uma grande imaginação.
E é inegável que Edgar Rice Burroughs tinha uma grande imaginação. Para provar, basta dizer que a África descrita em Tarzan of the Apes quase nada tem da África verdadeira. É uma África fictícia, uma África criada pelo autor (deve ser ressaltado que tudo o que Edgar Rice Burroughs sabia a respeito da África resumia-se no que havia lido num livro escrito pelo jornalista e explorador inglês Henry Morton Stanley, que, em 1869, fora enviado para a África pelo jornal The New York Herald, para encontrar o missionário e explorador escocês David Livingstone, o que conseguiria em 10 de dezembro de 1871, em Ujiji, na margem leste do Lago Tanganica). E fictícia é também a raça de macacos à qual pertecem Kala, Kerchak e Terkoz – Burroughs chama-os de orangotangos, mas não existem orangotangos no continente africano (como se sabe, eles vivem no sudeste da Ásia, nas ilhas de Sumatra e Bornéu).
E, como bem disse o prof. Diamantino da Silva, Burroughs, “segundo parece, nunca sentiu necessidade de visitar a África de Tarzan, trazia dentro de si um mundo quimérico. Projetou nos seus romances mais os seus sonhos, obsessões e alucinações do que a experiência multiforme de sua vida. ‘Muitas das histórias que escrevi foram as que contei para mim mesmo antes de dormir. (...) Era minha idéia refazer uma espécie de folclore moderno com o velho mito de Rômulo e Remo, duas crianças criadas por uma loba.’ Tarzan nasceu pois do encontro dos fantasmas próprios de um homem do século XX com os mitos originários das eras mais recuadas” (Tarzan o Mito da Liberdade, São Paulo, M&B, 1986, pp. 8-9).
Devido ao enorme sucesso de Tarzan of the Apes, Edgar Rice Burroughs escreveu outras histórias com o personagem – enquanto se lê cada uma dessas histórias, “seguidamente a respiração fica suspensa. Quando Tarzan dá combate aos leões, quando mata seus inimigos gorilas, quando ataca os indígenas de surpresa, quando medita, solitário, em seu covil no meio da floresta, a história tem cor, tem vida, é cheia de dinamismo, é comovedora” (C. Riess, Best-Sellers!, tradução de Paulo Armando, Rio de Janeiro, Renes, 1970, p. 104) –; e, em 1918, Tarzan chegou às telas cinematográficas, no filme Tarzan of the Apes, que no Brasil foi exibido com o título de Tarzan, O Homem Macaco.
Dirigido por Scott Sidney e roteirizado por Fred Miller e Lois Weber (o roteiro foi mais ou menos fiel ao livro de Burroughs), Tarzan of the Apes apresentou Elmo Lincoln e Enid Markey nos papéis de Tarzan e Jane, respectivamente.
Entre 1918 e o começo da década de 1930, foram realizados diversos filmes com Tarzan. Mas o verdadeiro surto de fitas com o personagem só aconteceria a partir de 1932, após o lançamento de Tarzan the Ape Man (Tarzan o Homem Macaco), que teve produção da Metro-Goldwyn-Mayer e trouxe o célebre campeão de natação Johnny Weissmuller e Maureen O’Sullivan nos principais papéis.