Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

FRENESI
Marco Aurélio Lucchetti



Um dos temas mais freqüentes nos filmes de Alfred Hitchcock é o do homem inocente que, vítima das circunstâncias e da disposição apressada de seus semelhantes em tudo julgar e concluir, se vê acusado de um crime que não cometeu. Para exemplificar, basta citar os seguintes títulos da longa filmografia de Hitchcock: O Inquilino (The Lodger, 1926), Os Trinta e Nove Degraus (The Thirty-Nine Steps, 1935), Jovem e Inocente (Young and Innocent, 1937), Sabotador (Saboteur, 1942), Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1955), O Homem Errado (The Wrong Man, 1957) e Intriga Internacional (North by Northwest, 1959).
Após dois fracassos comerciais, Cortina Rasgada (Torn Curtain, 1966) e Topázio (Topaz, 1969), nos quais, ao contrário do que ocorre em Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent, 1940) e Interlúdio (Notorious, 1946), a política não cumpre bem sua parte de comentário, Hitchcock muito naturalmente – ou sabiamente – resolveu voltar ao seu tema mais comum, realizando Frenesi (Frenzy, 1972), cuja ação se passa em sua velha e querida Londres.
Aqui, cabem bem as palavras do alemão Bodo Fründt (Alfred Hitchcock e Seus Filmes, Rio de Janeiro, Ediouro, 1992, pp. 197-198):

(...) com Frenesi, Hitchcock volta, pela primeira vez desde Pavor nos Bastidores (1950), a Londres, seu torrão natal.
Hans-Christoph Blumenberg escreve, por ocasião da estréia alemã, no
Kolner Stadt Anzeiger:
‘Deve ter sido assim que os vitoriosos imperadores, retornando de longas batalhas campais em terra estranha, festejavam seu sucesso em Roma.
‘Quando, no começo de Frenesi, aparecem os brasões londrinos acompanhados de uma música meio triunfal meio patética, e a câmera, imitando a perspectiva da visão de um pássaro, passeia por pontos turísticos como as pontes de Londres, sentimos a forte atmosfera de volta a casa. Alfred Hitchcock está de novo em casa. (...) o filho pródigo volta à Inglaterra e pode se dar ao luxo de comemorar isso.’
E ele comemora com um filme que fala de assassinato e que vibra com a vida. Um filme que reserva espaços iguais tanto para dores particulares quanto para acrobacias com a câmera e façanhas de encenação. A história de um assassino patológico de mulheres é tão antiga quanto os filmes de Hitchcock.
Desde
The Lodger, (...) ele já fala sobre essa figura que, como diz em Frenesi, é tão parte de Londres como a neblina.

Enquanto Intriga Internacional é a mais norte-americana de todas as fitas de Hitchcock, Frenesi é o mais britânico filme dirigido pelo mestre do Suspense. Ele conta a história de um inocente, Richard Blaney, contra o qual se acumulam provas cada vez menos questionáveis e em torno do qual a polícia fecha um cerco que o levará inevitavelmente à condenação.
E o verdadeiro culpado, o assassino da gravata (seus crimes são tão brutais quanto os cometidos, em 1888, por Jack o Estripador), é conhecido dos espectadores praticamente desde o início do filme (sua identidade é revelada após trinta minutos de projeção). Dessa forma, o suspense, a angústia... o diretor guarda para situações menos físicas (e aparentes) e libera nas manifestações psicológicas dos personagens, culpados ou não. E o personagem objeto de suspense nem sempre é necessariamente simpático ou herói da história; e certamente uma das melhores seqüências do filme ocorre quando o criminoso, Bob Rusk, um comerciante de frutas e legumes, mistura-se a sacos de batatas e um cadáver, na carroceria de um caminhão, a fim de tentar resgatar uma prova denunciadora de um de seus crimes. Nessa cena acontecem coisas incríveis e o cadáver assume as posições mais grotescas e desrespeitosas, enquanto o macabro e o humor constroem desesperadamente um antológico e angustiante momento cinematográfico em torno de um personagem pelo qual, durante quase todo o filme, diretor e espectadores não sentem a menor simpatia.
Frenesi é uma fita que alterna momentos de extrema violência – um desses momentos é o do assassinato da ex-mulher de Richard Blaney, Brenda, proprietária de uma bem-sucedida agência matrimonial (nessa seqüência, a exemplo do que já fizera em Cortina Rasgada, na cena do assassinato do agente comunista Hermann Gromek, Hitchcock mostra que não é nada fácil matar uma pessoa) – com momentos de suspense ou de humor (evidentes, por exemplo, nas cenas do inspetor Oxford, da New Scotland Yard, com a esposa, que, nas refeições, insiste em substituir alimentos substanciais por receitas de uma cuisine française bastante discutível). É verdade que o argumento, baseado no livro Goodbye Piccadilly, Farewell Leicester Square, de Arthur La Bern, jamais se revela plenamente satisfatório em termos de verossimilhança; porém, vale lembrar que Hitchcock nunca se preocupou muito com a verossimilhança, quando o que estava em jogo era despertar as mais diversas emoções e reações nos espectadores. A lógica implacável e cartesiana torna-se, assim, questão de segunda importância. E, além do mais, a Hitchcock nunca interessou muito a história a ser contada, e sim a forma como contar essa história (a forma reveste o conteúdo).
Com relação aos atores do filme, são todos oriundos dos palcos londrinos e não muito conhecidos do público, já que dessa vez Hitchcock não se sentiu obrigado a usar grandes astros, que, com freqüência, lembram mais a si mesmos do que aos personagens que devem representar. Jon Finch (visto em Macbeth, de Roman Polanski) é um Richard Blaney convincente (homem intempestivo e mal-humorado, Blaney vive um período de má sorte, sendo caçado e desprezado por quase todos que o cercam); Barry Foster, interpretando Bob Rusk, o assassino da gravata, revela bem as emoções contraditórias e compulsivas de um maníaco sexual; Alec McCowen faz o inspetor Oxford, lembrando muito a imagem tradicional que se tem de um policial da Scotland Yard; Vivien Merchant, num papel pequeno (ela interpreta a sra. Oxford), está admirável e inesquecível como a dona-de-casa obcecada por um curso de culinária francesa; e Barbara Leigh-Hunt e Anna Massey representam respectivamente Brenda Blaney e Babs Milligan (garçonete de um pub, Babs é a única pessoa que fica ao lado de Blaney), duas vítimas do assassino da gravata.
Penúltimo filme de Hitchcock (o diretor viria a falecer em 29 de abril de 1980, aos oitenta anos de idade), Frenesi é, como bem afirmou o crítico português Carlos Melo Ferreira (O Cinema de Alfred Hitchcock, Porto, Enfrentamento, 1985, p. 123), um dos filmes mais completos, indispensáveis e perfeitos na obra de Hitchcock, que nele nem sequer evita os momentos mortos, transformando-os em momentos de expectativa justificada, por contraposição aos momentos de violência e de esforço físico. Em Frenesi podemos encontrar resumida em duas horas toda a espantosa obra do realizador, dos seus temas favoritos (a transferência da culpa, o falso culpado, o crime, o desejo, a necessidade de descoberta da verdade) aos processos de filmagem mais depurados (o permanente e funcional e significativo movimento da câmara em todos os sentidos). Em suma: Frenesi  é um filme-chave, porque é um filme-síntese (o filme-síntese) da obra de Alfred Hitchcock.

 

Frenesi (Frenzy,1972, 116')
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Anthony Shaffer, baseando-se no romance Goodbye Piccadilly, Farewell Leicester Square, de Arthur La Bern
Elenco: Jon Finch, Barry Foster, Barbara Leigh-Hunt, Anna Massey, Alec McCowen, Vivien Merchant, Billie Whitelaw, Clive Swift
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Universal

 

O QUE DISSERAM A RESPEITO DE FRENESI

Frenesi é a imagem exata de um grande esquema de palavras-cruzadas tendo como tema o assassinato.”
François Truffaut

“Ao contrário de seus filmes anteriores, onde pessimismo e amargor beiram o desespero, neste a infelicidade é vista de um prisma tranqüilo, como se Hitchcock se tivesse afastado em definitivo do ardor do mundo para simplesmente observar o espetáculo da vida.”
Inácio Araújo

“Uma redescoberta do Cinema como arte mágica, através do qual exprime-se o amor de Hitchcock pelas ferramentas de criação estética, o prazer quase lúdico com que ele converte o rotineiro no excepcional, conferindo aos clichês e às implausibilidades de seu tema um charme de ineditismo e uma força de convicção quase trágica.”
Paulo Perdigão

Frenesi não é um grande filme, mas uma peça cada vez mais rara de eficácia, profissionalismo, charme, humor e inteligência.”
Sérgio Augusto

“A elegância britânica está por toda parte, e Hitchcock encerra seu filme com um genial Mr. Rusk, o senhor não está usando gravata...’ (...) Hitchcock recupera o prazer de fazer Cinema e volta a oferecer ao espectador o prazer tão simples de ver Cinema, bom Cinema; esta simplicidade e tranqüilidade tão difíceis neste tempo em que insistem em enfiar pelas nossas goelas ou a mediocridade mais absoluta ou a mensagem mais enfadonha.”
Wilson Cunha