Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

CARTA ABERTA A FEDERICO FELLINI
Marcello Mastroianni



Desde menino, depois de tomar meu banho de sábado na tina, eu me olhava no espelho embaçado. Franzia as sobrancelhas e tentava imitar as expressões mefistofélicas, mas simpáticas, de Mandrake. Como eu queria, naquela época, ser capaz de repetir seus truques! Teria, com certeza, empregado seus poderes para me arredondar os bíceps: meu grande complexo sempre foi o de ser tão franzino. Ao recriar o herói, eu também tinha um Lothar: minha tia Angelina com a cara coberta de betume. E uma meninazinha loura que vivia no andar de cima era Narda. Só que, para minha infelicidade, ela estava apaixonada pelo filho único de um conde que eu não conseguia fazer desaparecer da face da Terra, por mais que me concentrasse. Para me consolar destes fracassos, eu transformava Ginger Rogers em Narda. Embora a atriz nada tivesse a ver com a personagem – namorada tímida e educadinha. Mas, então, isso me agradava, como também me agradava Joan Blondell... e isso me bastava.
Todos os personagens de histórias em quadrinhos estiveram, num dia ou no outro, na sala de almoço lá de casa, comigo na rua ou debaixo da cama na hora de me deitar. A dona do botequim da minha rua era a desapiedada Rainha dos Pássaros. Cheia de carnes, seus olhos verdes a faziam alvo de inúmeros admiradores. Pelo que me recordo, ela era mais linda que Mae West; e (...) eu sentia calafrios quando me dizia com voz entre cavernosa e sensual:
Ciao, menino! Diga à sua mãe que ela já me deve dois quilos de sal.
Por isso eu já lhe disse: “Federico, temos que fazer um filme sobre Mandrake.” Não é verdade, Federico? Quantas vezes foram? Eu seria Mandrake, naturalmente. E Claudia Cardinale poderia ser Narda (retifico: eu queria dizer Catherine Deneuve, que está a meu lado, no momento em que escrevo). E Oliver Reed, pintado de negro, poderia ser Lothar... Federico... Quando?

 

Este texto – escrito possivelmente no começo da década de 1970 – foi publicado no Brasil no álbum Mandrake no País dos Faquires/Mandrake no País dos Homens Pequeninos, lançado pela EBAL, do Rio de Janeiro, em 1975