Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

O CINEMA CULT
À MARGEM DO "NORMAL"

Valter Martins de Paula



Não se pode pensar Cinema de uma forma isolada, vazia. O Cinema só existe porque há pessoas que o vêem e o apreciam. Esta afirmação, que se contrapõe ao início do cinematógrafo, com os Irmãos Lumière, em 1895 (devido ao desespero das pessoas ao verem um trem em movimento nos trilhos), é um bom começo para se discutir o impacto social de alguns filmes no decorrer dos tempos, além de, indo mais fundo na análise e discussão, perceber e estudar os diversos rótulos e gêneros que surgiram com a consolidação da Sétima Arte, não só como fonte de entretenimento, mas como retrato de épocas  e costumes.
Das meras imagens em movimento com músicas ao fundo à consolidação do cinema falado, o que se viu foi a criação de diversos gêneros (Aventura, Drama, Ficção Científica, Suspense etc.) para abarcar em imagens as diferentes sensações e os conturbados sentimentos humanos, que foram traduzidos em histórias com as quais os espectadores se identificaram de alguma maneira, direta ou indiretamente.
A discussão se estende para além das sensações e sentimentos, quando se percebe que o Cinema é uma representação de sociedades e costumes (e, a partir destes, de todos os outros cacoetes sociais e culturais). E o Cinema só encontra seu verdadeiro significado graças à importância que as pessoas dão a ele. Daí a possibilidade do surgimento – dentro da indústria e do comércio de filmes – dos rótulos e daquilo que se convencionou chamar Cult.
É engraçado percebermos a aplicação deste termo para qualificar determinados filmes. Mesmo porque o que se convencionou denominar Cult segue no sentido oposto do que o Cinema é em sua essência: público. Porque os filmes que se tornaram objeto de culto – pelo menos os primeiros deles – não conseguiram público: são aqueles que ninguém viu; e, se viu, esqueceu. São os que chamamos, hoje em dia, tão corriqueiramente, de fracassos retumbantes.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que temos estes fracassos, temos aqueles filmes populares que se tornam referências obrigatórias para um público cada vez mais seletivo. É complicado analisarmos o Cinema por meio deste viés dúbio e inconcluso, porque muitas vezes os filmes alcançam uma importância para determinado grupo de pessoas e não para outros. E o que dizer, por exemplo, dos autores destes filmes, cineastas que fizeram com que determinadas histórias fossem filmadas e perpetuadas por todo o sempre, seja para o bem ou para o mal?
Se o Cinema é fruto de transformações sociais e industriais, os responsáveis por trás desta engrenagem também são frutos de transformações sociais e, principalmente, políticas. Alguns cineastas importantes dentro deste cenário desolador ousaram desafiar sistemas e imprimiram em seus filmes (ou, dependendo do ponto de vista de quem os vê, “seus filhos”) uma visão pessoal sobre aquilo que viviam à época de cada filmagem.
Pode estar parecendo complicado, mas o fato é que, se pegarmos filmes de Ed Wood (Edward D. Wood Jr., 1922-1978), Jean Rollin, John Waters, Tobe Hooper e, atualmente, Tim Burton e Quentin Tarantino (para me ater somente a alguns exemplos de um grande número de diretores que se tornaram cult hoje em dia), perceberemos que – obviamente, por diferentes motivações e em diferentes contextos históricos e culturais (o Flower Power, a Guerra do Vietnã, o Maio de 1968, a contracultura, a depressão da era Regan, a ressaca pós-1980) – existe algo que une estes cineastas: apesar de tão díspares em suas propostas, eles têm em comum a paixão pela Sétima Arte e a forma original de contar uma história.
Tais cineastas viveram (e ainda vivem) na corda bamba da indústria cinematográfica: hoje em dia, são representantes autênticos de exemplos bem-sucedidos; mas nem sempre foram enxergados desta maneira. Atualmente, sabe-se que filmes como Plano 9 Invasão Intergalática (Plan 9 from Outer Space, 1959), Le Frisson des Vampires (1971), Pink Flamingos (1972), O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), As Grandes Aventuras de Pee-Wee (Pee-Wee’s Big Adventure, 1985) e Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992) têm importância no meio cinematográfico. E tais filmes foram inovadores nos gêneros aos quais estão ligados (o que vem casar com a discussão inicial do texto): Ficção Científica, Terror, Comédia, Policial.
O Cinema Cult – e todas as suas vertentes sociológicas, políticas, econômicas – sempre existiu, na verdade. Porque sempre existiram filmes que foram menosprezados pelo público (e, aqui, caberia mais uma possibilidade de análise, já que, em peso, tal público era elitista; só mais tarde se tornou popular) e que, em suas épocas, não encontraram aprovação. Se a evolução do tempo mostra que o Cinema ainda persiste e todos os filmes sobrevivem às mudanças e intempéries, não deveria existir razão de haver tal diferenciação e distanciamento por parte de um seleto grupo de analistas. Devemos lembrar que, se o Cinema é fruto de transformações sociais, como já foi dito anteriormente, ele também é passível de falhas e defeitos, já que é um retrato fidedigno daquilo que se vive e se vê. Os filmes que se tornam objeto de culto são, portanto, aqueles que, mesmo sem a desconfiança do público, melhor traduzem os anseios e as angústias de uma geração. Mesmo que permaneçam sempre anônimos e à margem do que se convencionou chamar “normal”.

 

Valter Martins de Paula é jornalista e historiador