Ano 1 - nº 2 - fevereiro/abril de 2009

SOBRE O BEIJO
Marco Aurélio Lucchetti



Num dos trechos mais conhecidos do filme Casablanca (1943), o personagem Sam canta e toca ao piano a canção “As Time Goes By”, cujos primeiros versos dizem: “You must remember this; A kiss is just a kiss” (“Você deve se lembrar disto; Um beijo é só um beijo”).
Mas será verdade que
“um beijo é só um beijo”?
É claro que não! E, para comprovar isso, bastam as seguintes palavras de Elsie Lessa, extraídas do artigo “Beijo, Logo Existo” (Ele Ela nº 7, Rio de Janeiro, Bloch, novembro de 1969, p. 16):

“O ato de beijar é uma espécie de explosão nuclear.
(...) Ao iniciar-se o beijo, desencadeia-se uma série de processos fisiológicos. Aceleram-se as batidas cardíacas e o ritmo respiratório, certas regiões do corpo são mais irrigadas pelo sangue. É o que os sexólogos chamam de sex-flux. (...) segundo os cientistas, certos sentidos tornam-se menos agudos: olfato, paladar, visão e tato.”

Também é verdade que o beijo é uma das mais antigas formas de comunicação inventadas pelo homem – de acordo com o prof. Arnold Toynbitch, autor do mais completo estudo já escrito a respeito do ato de beijar, Kiss: A Study in History, em três volumes, “o homem, antes mesmo de falar, já beijava”.
Não se conhece ao certo a origem do beijo – muitos sexólogos, inclusive o inglês Havelock Ellis (1859-1939), explicam o beijo como um resquício da fixação adquirida no período de amamentação no seio materno –; porém, tudo indica, segundo as pesquisas feitas pelo prof. Toynbitch, que devem ter sido os sumérios (habitantes da região sul da Mesopotâmia, eles construíram uma das mais importantes civilizações da antiguidade, entre os séculos IV e II a.C.) os primeiros a aperfeiçoar o beijo. Ou seja, foram os sumérios que descobriram que o beijo não era apenas uma combinação de lábios, mas também de dentes, gengivas, línguas, saliva...
Não se conhece igualmente o caminho que o beijo percorreu entre os povos, até ser disseminado em boa parte do mundo. Só se sabe que há cerca de 3.500 anos os indianos já conheciam o beijo. E, por falar em indianos, o célebre Kama Sutra, um dos clássicos da literatura amorosa universal, escrito em Sânscrito pelo sábio hindu Vatsyayana (ele viveu entre os séculos VI e IV a.C.), ensina que uma jovem tem três classes diferentes de beijos à sua disposição: o beijo nominal, quando apenas se limita a tocar os lábios do amante com os seus; o beijo palpitante, quando toca os lábios que oprimem a sua boca, movendo o lábio inferior e deixando o lábio superior imóvel; e o beijo patético, quando usa a língua para tocar os lábios do amante, mantendo os olhos cerrados. Nos dicionários da Roma antiga, o beijo também assumia três formas e nomes diferentes: osculum, o beijo da amizade; basium, a carícia dos pais e esposos; e suavium, o beijo dos amantes. Os franceses também consideram três tipos de beijos totalmente distintos entre si: o beijo de amizade, o de amor e o de deboche. E o Dicionário das Mulheres (Dictionnaire des Femmes, tradução de Hédon Casanova, São Paulo, Grijalbo, 1967, pp. 47-48) cataloga quatro espécies de beijo:

“O
beijo familiar, o dos tios e tias, dos pais após o jantar... toque furtivo na face ou na testa. O beijo das adolescentes, primeiro contato do amor. Está tudo contido nele e nada está. É a inocência da fé... O beijo dos amantes ineptos (...) é uma troca de salivas, uma luta de línguas, uma desordem bucal raramente satisfatória. (...) o beijo de amor, feito de audácia  e ternura, em que não se sabe se os lábios estão abertos ou fechados.”

Como se pode perceber, o beijo, dentre todas as manifestações amorosas e afetivas, é uma das mais ricas em variações (ele é também muito importante sob o ponto de vista psicológico, mas não vamos falar a respeito disto aqui). Entretanto, não chega a ser sucesso em todo o mundo: há povos que não o apreciam – um destes povos é o japonês, haja vista a indiferença com que, em 1924, foi recebida numa exposição em Tóquio a famosa estátua “O Beijo” (1886), do francês Auguste Rodin (1840-1917) – ou que o desconhecem por completo (como exemplo destes povos pode ser citada a tribo africana dos tongas, que irrompeu em gargalhadas ao presenciar uma cena de beijo entre um casal europeu, comentando em seguida: “Vejam, eles estão comendo a saliva um do outro.”
Capaz de expressar todos os sentimentos afetivos, do arrebatamento que inflama dois jovens amantes à ternura da mãe pelo filho recém-nascido, o beijo, segundo alguns autores e pesquisadores, esteve desvalorizado no Ocidente entre o período da Renascença (séculos 15 e 16) e a época da Revolução Industrial (c. 1750-1830). Ainda de acordo com esses mesmos autores e pesquisadores, o beijo só voltou a ser valorizado no mundo ocidental a partir do final do século 19, quando dois jovens apaixonados tinham de esperar meses a fio de namoro antes de tocarem a boca um do outro – quase sempre esse primeiro beijo era roubado pelo rapaz e, como tudo o que é proibido, vinha carregado de um inebriante sabor de pecado. Então, surgiu a Sétima Arte, o Cinema, que deu ao beijo a sua definitiva consagração.

 

O PRIMEIRO BEIJO, O PRIMEIRO ESCÂNDALO

Surgido em dezembro de 1895, o Cinema tinha poucos meses de existência quando provocou o primeiro escândalo, por causa de... uma cena de beijo. Na verdade, não era uma cena de beijo qualquer, era o primeiro beijo no Cinema. E aconteceu no filme The May Irwin-John C. Rice Kiss (O Beijo de May Irwin e John C. Rice, numa tradução literal), filmado em Nova York e produzido pelo inventor Thomas Edison (1847-1931).
Existe uma controvérsia sobre a origem dessa fita. No primeiro volume de Una Historia del Cine (Barcelona, Ediciones Destino, 1948, p. 22), o pesquisador espanhol Angel Zuñiga afirma:

“Sobre a mania osculatória se apoiará parte do edifício social cinematográfico. (...) A origem é teatral. (...) May Irwin e John C. Rice se beijavam numa peça teatral da Broadway, The Widow Jones, motivando o protesto de todas as senhoras da vizinhança. Em 1896 e com o título de The May Irwin-John C. Rice Kiss, os dois intérpretes foram filmados, dando esse já famoso beijo. Foi o primeiro beijo no Cinema, sem contar os da platéia nas salas cinematográficas.”

Já no primeiro volume de História Ilustrada do Cinema (Histoire Illustrée du Cinéma, tradução de Fernando Luís Cabral e revisão técnica de Vasco Granja, Lisboa, Livraria Bertrand, s. d., pp. 64-65), René Jeanne e Charles Ford dizem:

(...) dois associados de Edison lançaram-se ao trabalho no terraço do próprio prédio em que moravam. Foi neste local que se filmou o primeiro beijo da História do Cinema (...), trocado entre dois bons atores de teatro: May Irwin e John C. Rice. Este filme, com o comprimento de cento e sessenta e cinco metros, foi incluído num espetáculo da Broadway, The Widow Jones, e causou escândalo, o primeiro de uma longa série que o cinema americano iria ocasionar (...).”

Assim, o filme The May Irwin-John C. Rice Kiss foi realizado a partir de um beijo já existente na peça The Widow Jones ou foi produzido para ser inserido em determinado trecho da peça? Talvez jamais tenhamos a resposta para essa pergunta, a menos que seja  inventada uma máquina de viajar no tempo (nos moldes da que o Viajante do Tempo constrói no romance A Máquina do Tempo, de H. G. Wells) e possamos recuar até o longínquo ano de 1896, assistir à feitura da fita e saber porque ela foi realizada. Bem, isso não importa muito. O que interessa mesmo é que o beijo trocado por May Irwin e John C. Rice no filme inaugurou uma série incalculável de beijos no Cinema...