Ano 6 - nº 19 - maio/agosto de 2014

O VALE DO SILÊNCIO
Rubens Francisco Lucchetti



– Quem é você?
Foi esta as pergunta que, certa noite, a certa hora, fiz junto à grande macieira do bosque desolado.
Minha voz ecoou pelo espaço entre as árvores, e a resposta não se fez ouvir. Tudo era silêncio... um silêncio angustiante, sufocante.
– Quem é você?
Voltei a perguntar e, uma vez mais, não obtive resposta.
Olhei ao meu redor e me vi num imenso vale de árvores frondosas e todo rodeado por montanhas escarpadas que, para qualquer lado que me voltasse, me tiravam a perspectiva de horizonte. Sobre o chão pairava uma tênue névoa... E aquela névoa tinha um movimento sucessivo, convulsivo.
Nada se movia ali. Nem a mais leve brisa perturbava os olmeiros. Apenas a névoa parecia pulsar.
Ergui o olhar, e minha vista encontrou um vazio negro – não o negrume noturno, mas aquele sugerido pelos precipícios dos quais não conseguimos vislumbrar o fim. Senti, então, um mal-estar, uma náusea, ao imaginar-me que naquele vazio poderia perder-me.
Como cheguei aqui? Quem me trouxe a este vale infernal? Ah, seguia aquele homem... Mas seria mesmo um homem?
Nesse momento, vi o imenso lago. Caminhei para ele, embora não sentisse o chão sob os pés.
As águas do lago borbulhavam como lavas de um vulcão e delas se desprendiam um odor fétido. E minhas pernas afundavam num lodo que até então eu não havia percebido.
Abaixei-me para apanhar um pouco do lodo. Foi um movimento instintivo, como se eu fosse impelido por uma força superior.
Tive um estremecimento de horror. Aquilo não era lodo... e sim uma massa pútrida e fétida, como as carnes de cadáveres em decomposição.
Com repugnância, atirei a massa ao lago, cujas águas continuavam borbulhando e haviam adquirido um tom avermelhado.
Novamente impelido por uma força não minha, abaixei-me e peguei, na palma da mão, um pouco do líquido do lago. Uma vez mais, estremeci de pavor. O que eu tinha na mão era sangue! Sangue borbulhante... como se acabasse de sair de um ser vivente.
Eu quis correr, fugir daquele lugar maldito; porém, minhas pernas me mantinham preso ali, não obedeciam aos comandos do meu querer.
Angústia, terror e solidão eram as únicas sensações que dominavam meu corpo e meu espírito.
Foi nesse instante que ressoou a gargalhada. Uma gargalhada metálica, sibilante, tenebrosa, assemelhando-se a mil demônios gargalhando a uma só voz. Uma gargalhada que certamente mortal algum seria capaz de repetir.
Levantei os olhos e, então, eu o vi. Não posso afirmar se era um demônio ou um anjo, se era um emissário do bem ou do mal... Aquele ser, inteiramente negro, era, na verdade, uma sombra... Uma sombra materializada do nada. Reconheci-a: era o estranho que eu perseguira no bosque.
– Que lugar é este? – Indaguei à sombra. – Vamos, responda-me, você que é o único ser que parece habitar estas paragens...
– Quer respostas? – A voz da sombra, a exemplo da gargalhada, também parecia proferida por um coro harmonioso vindo do espaço. – Bem, aqui pode ser o inferno!
– Sim, responda: morri?!
– O círculo da vida é uma eterna ilusão, sem princípio nem fim... Somos o que nada somos
– Mas quem é você?
– Não pertenço a seu mundo. Minha existência é uma angústia sem fim. Já presenciei todas as desgraças e misérias que têm assolado a Terra. Tenho visto as maldades cometidas por homens poderosos, cujas almas formam aquele lago putrefato. Presenciei, ao longo dos séculos, a peste e tantas outras doenças devorarem civilizações inteiras...
A sombra nada mais disse. Afastou-se e perdeu-se no nada.
Guardarei para todo o sempre a lembrança daquele vale, onde sequer havia o hálito confortante de um vento que nos transmitisse vida.
E, num dia muito distante, compreendi que aquele era “o vale da sombra da morte”, de que nos fala o salmista.

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos