Ano 6 - nº 19 - maio/agosto de 2014

OUÇA O APITO DE DUQUESNE
Marco Aurélio Lucchetti



Não sou um entusiasta de videoclipes. Pois, de maneira geral, as músicas que eles “ilustram” não são do meu agrado. Há, porém, alguns que chamaram minha atenção, por serem muito bem-feitos e contarem uma história coerente, com começo, meio e fim.
Dentre esses videoclipes, que são autênticos curtas-metragens e resgatam a própria essência do Cinema...
Abre um parêntese.
O Cinema, que nasceu sem som, é, como meu pai, o roteirista Rubens Francisco Lucchetti, diz, “a arte da expressão pela imagem”. Isto é, num filme o que importa, na verdade, são as imagens e não as palavras, as falas dos personagens. Portanto, o bom cineasta é aquele que sabe contar uma história com poucas ou nenhuma palavra e sabe criar imagens que irão ficar na memória dos espectadores. Lamentavelmente, com o advento do cinema falado, os cineastas e também o público desaprenderam que o Cinema é uma arte essencialmente visual. Assim, vemos cada vez mais fitas excessivamente dialogadas e com cenas vazias que logo iremos esquecer.
Fecha o parêntese.
Voltando ao que eu estava dizendo...
Dentre os videoclipes que chamaram minha atenção – as histórias de todos eles são contadas apenas por meio das imagens, ou seja, não necessitam de nenhuma palavra para serem entendidas –, posso citar: “Juliet” (1983), em que o cantor Robin Gibb (1949-2012) chega a uma mansão senhorial abandonada, encontra uma máquina de escrever e começa a criar e datilografar uma história que parece saída de algum romance histórico vendido em bancas de jornal; “Nikita” (1985, direção de Ken Russell), que mostra Elton John como um cidadão inglês que, em visita ao setor russo de Berlim, se apaixona por uma guarda da fronteira, a Nikita do título da música; “It’s My Life” (2003; dirigido por David LaChapelle), cuja ação se passa presumivelmente no final da década de 1930 e início dos anos 1940, tem uma atmosfera de Filme Noir e no qual a vocalista do conjunto No Doubt, Gwen Stefani, encarna uma loura sensual, espevitada e que parece uma mistura de Jean Harlow (1911-1937) (1) com Marilyn Monroe (1926-1962) e está sendo julgada por haver matado seus maridos e amantes; “Papi” (2011; direção de Paul Hunter), protagonizado pela atriz, dançarina e cantora Jennifer Lopez, que interpreta uma mulher que, após comer um biscoito mágico, deixa excitados todos os homens que a veem; “Roar” (2013; direção de Grady Hall & Mark Kudsi), em que a personagem principal, representada pela cantora Katy Perry, é obrigada a se transformar num misto de Tarzan e Sheena (2) para poder sobreviver, depois que seu avião caiu numa selva tropical e seu companheiro (seria ele seu namorado?), um arremedo do aventureiro e arqueólogo Indiana Jones, foi atacado e morto por um tigre; e “Duquesne Whistle” (2012), que “ilustra” a canção homônima (3), cantada por Bob Dylan e composta pelo próprio Dylan e Robert Hunter.

   
   
 

A HISTÓRIA

Filmado no centro de Los Angeles, “Duquesne Whistle” foi escrito e dirigido por Nash Edgerton (4), tem quase seis minutos de duração, inicia-se com diversas cenas de rua (pessoas andando, veículos passando, pombos no chão, mendigo remexendo uma lata de lixo) e narra a seguinte história, entrecortada, sempre nos momentos mais inesperados, por algumas sequências mostrando Bob Dylan seguido por um grupo heterogêneo de pessoas caminhando pela cidade (5):
Numa calçada, um rapaz brinca com um baralho, tendo a atenção voltada para o outro lado da rua.
De repente, uma moça sai de um edifício. O rapaz começa a segui-la, fazendo trejeitos e micagens.
Percebendo que a seguem, a moça apressa o passo.
Ao passar diante de uma floricultura, o rapaz rouba uma flor. Um velho, que deve ser o dono da loja, vê o roubo da flor e nada faz.
A moça entra num carro. O rapaz quer dar a flor para ela e, sorrindo, abre a porta do veículo. Assustada, a moça joga um spray nos olhos dele. O rapaz cai, colocando as mãos no rosto; e o carro parte.
Num outro dia, o rapaz se encontra parado no mesmo local de antes. Ele vê a moça sair do edifício e a segue.
A moça logo percebe que está mais uma vez sendo seguida.
Quando passa em frente da floricultura, o rapaz rouba uma nova flor. O velho vê e dessa vez não perdoa: dá um assobio e chama dois guardas que estão do outro lado rua.
Os guardas iniciam uma perseguição ao rapaz.
Notando que os guardas estão atrás dele, o rapaz corre e, no momento em que passa perto da moça, procura chamar sua atenção.
Enquanto abre a porta do carro, a moça olha para o rapaz. Sua expressão parece dizer: “Nossa! Que cara mais doido!”
O rapaz continua correndo e encontra uma escada aberta na calçada. A fim de escapar dos policiais, ele joga a escada no chão, sem perceber que um homem está no alto dela. A seguir, corre mais um pouco, esbarra num transeunte e cai. Devido a isso, os guardas acabam alcançando-o e o prendem.
Sentindo dor (seu braço esquerdo, que segura com a mão direita, parece estar quebrado), o homem que estava no alto da escada levanta-se lentamente (ele havia caído na calçada), ao mesmo tempo em que olha fixo para o rapaz, que, por sua vez, o encara.
Depois, o rapaz é colocado em liberdade e fica novamente à espera da moça. E, assim que ela sai do edifício, ele volta a segui-la. Então, dois homens – um deles é careca, o outro usa um boné – descem de um furgão, agarram o rapaz e jogam-no dentro do veículo.
Mais tarde, numa casa abandonada, o rapaz se encontra sentado numa cadeira, amordaçado e amarrado. Daí, o homem de boné aponta-o com um dedo, perguntando se é ele. Com o braço esquerdo numa tipoia e o pescoço imobilizado por uma tala, o homem que estava no alto da escada faz um gesto afirmativo, movimentando levemente a cabeça. Imediatamente, o homem de boné pega um bastão de beisebol e, com ele, bate diversas vezes numa das pernas do rapaz. Em seguida, ajudado pelo motorista do furgão, o careca soca o rapaz.
À noite, o rapaz está inconsciente, deitado no chão do furgão, que percorre as ruas da cidade. O rapaz sonha. E, em seu sonho, dança e faz trejeitos, em volta da moça, que ri para ele e aceita a flor que lhe é oferecida. Nesse instante, o sonho é interrompido. Aí, o careca e o homem de boné retiram o rapaz de dentro do furgão e o colocam na calçada, onde ele fica estirado, desacordado.
No final, Bob Dylan e seu grupo passam junto do rapaz e, não dando a mínima para ele, continuam calmamente sua caminhada.



O PROTAGONISTA

Num videoclipe, o personagem principal é representado geralmente pelo próprio intérprete da música que o clipe “ilustra”. Isso, entretanto, não ocorre em “Duquesne Whistle”, uma vez que o protagonista não é interpretado por Bob Dylan, e sim por Daniel “Cloud” Campos, um dançarino, diretor e ator bissexto nascido em 1983, na pequena cidade de Adel, no estado norte-americano da Geórgia.
E o personagem principal de “Duquesne Whistle”, o rapaz, é um romântico que deseja despertar a atenção de sua amada, a moça (interpretada por Rosie O’Laskey) e presenteá-la com uma flor, símbolo de seu amor (puro) por ela. No entanto, as intenções do rapaz não são compreendidas por ninguém, nem mesmo pela moça. E, tal como Jean Valjean (6), que foi preso somente por ter roubado um pão, ele termina na cadeia por haver furtado duas simples rosas, criadas e dadas de graça pela Mãe-Natureza. E, se Jean Valjean roubou o pão para dar de comer a sete crianças – filhas de sua irmã Jeanne – que passavam fome, o rapaz rouba as rosas para conseguir um pouco de carinho e amor; mas, em vez disso, encontra a incompreensão e sofre as mais diversas humilhações e formas de violência. E o único momento em que consegue ser verdadeiramente feliz, atraindo a atenção da moça e fazendo-a rir, é quando sonha (7), isto é, quando está completamente desligado da realidade. Todavia, essa felicidade dura pouco; e o rapaz é retirado abruptamente da maravilhosa Terra dos Sonhos e retorna ao triste mundo real, onde jaz solitário numa fria calçada e não desperta a atenção ou a compaixão daqueles que passam à sua volta.



A MENSAGEM

Assistir a “Duquesne Whistle” é como receber uma bofetada. Pois:
1 - nos faz refletir sobre a nossa época – que o escritor estadunidense Henry Miller (1891-1980) chamaria apropriadamente de “o tempo dos assassinos” –, um período no qual os valores morais foram esquecidos e as pessoas, que só são lembradas pelos políticos nas eleições, que são meros números nas estatísticas do governo, que são tratadas como idiotas pelos meios de comunicação e que apenas interessam como consumidores e força produtiva, se tornaram escravas do tempo, do trabalho, do dinheiro e das máquinas que foram criadas para facilitar suas vidas;
2 - nos leva a meditar a respeito da sociedade em que vivemos: uma sociedade cada vez mais violenta, egoísta, injusta, hipócrita, hedonista e insensível.
Por tudo isso, o videoclipe merece ser visto – e revisto – com muita atenção.



NOTAS:

(1) No filme O Aviador (The Aviator, 2004; direção de Martin Scorsese), que focaliza o período mais prolífico (de meados da década de 1920 até o final dos anos 1940) na vida do magnata norte-americano Howard Hughes (1905-1976), Gwen Stefani tem uma pequena participação, interpretando justamente a atriz Jean Harlow.

(2) Em 1937, Jerry Iger criou para o Editors Press Service a primeira heroína das selvas a dar nome à sua própria história em quadrinhos: Sheena, cujas aventuras destinavam-se, a princípio, aos jornais ingleses. Porém, não foi nos jornais que Sheena fez sucesso, e sim nos gibis norte-americanos, em histórias completas publicadas entre 1938 e 1952 nas revistas Jumbo Comics e Sheena Queen of the Jungle, da Fiction House Magazines. E grande parte do sucesso de Sheena deveu-se ao seu físico exuberante coberto apenas por uma decotada vestimenta feita de pele de leopardo.
Uma informação adicional: no Brasil, Sheena estreou em 19 de agosto de 1937, no número 587 do Suplemento Juvenil.

(3) “Duquesne Whistle” é a canção que abre o álbum Tempest (lançado em 28 de agosto de 2012), que contém mais nove músicas compostas e cantadas por Bob Dylan.

(4) Nash Edgerton já havia dirigido outros clipes que “ilustram” músicas de Bob Dylan.

(5) Sem contar a sequência final, Bob Dylan e o grupo de pessoas que o seguem aparecem nove vezes em “Duquesne Whistle”. E, na primeira delas, só é mostrado Bob Dylan; e, ainda por cima, de costas.

(6) Jean Valjean é o personagem principal do romance Os Miseráveis (Les Misérables, 1862), de Victor Hugo (1802-1885).

(7) O sonho do rapaz faz com que nos lembremos imediatamente de uma das cenas mais marcantes do filme Em Busca de Ouro (The Gold Rush, 1925; direção de Charles Chaplin): a cena em que o vagabundo Carlitos sonha que sua amada, a bela dançarina de saloon Georgia (representada por Georgia Hale) e três amigas comparecem a seu jantar de Ano-Novo.