Ano 6 - nº 19 - maio/agosto de 2014

LAMENTAÇÕES DE NOSFERATU
Rubens Francisco Lucchetti



I

Andava a noite em meio.
Eu, no Altar do Paraíso,
não ansiava mais neste mundo habitar,
quando minh’alma conheceu o mais triste despertar.
Foi a noite mais infeliz e a hora mais amarga,
trazendo-me a lembrança de mil visões passadas
e já sepultadas no Lago dos Tempos,
onde se espelha a Eternidade.



II

O veneno da vida corre em minhas veias.
Sinto cada vez mais distante
– tal qual quimera –
a doce essência de um sonho: a morte.



III

Sob a bruma e os raios da Lua,
sonho com as virgens
– adormecidas em ilhas esquecidas,
elas são como estrelas cintilantes
que atormentam meu sonho de vida.

Aos meus ouvidos chegam o ritmo cantante
de seus anseios perdidos;
e em meu leito de jazigo abrigo-as todas,
para as longas noites da vida
– tão distante da morte quanto das estrelas.

E que leito mais suave pode haver,
senão o macio fundo de um esquife?
E que lugar mais tranquilo e indevassável pode haver,
senão o próprio túmulo?
É só no jazigo que os amantes ficam realmente a sós,
sem serem importunados.



IV

Meu mundo é habitado por eleitas.
E cada ventre é um altar
de culto ao Príncipe das Trevas.



V

Vivo – condenado –
entre sonhos de vento ululante
como o som das correntes que ouço
arrastando-se no horizonte.



VI

Sou o senhor de uma terra estranha,
onde não existe o Tempo nem o Espaço,
onde impera o Amor que é um deus sem par,
onde só a beleza da Mulher se aprende a adorar.



Se estás ávida de amor
e já cansada de seu peregrinar,
vem, linda donzela,
em meu Paraíso reinar.

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos