Ano 6 - nº 18 - janeiro/abril de 2014

UM LADO INÉDITO DE GROUCHO MARX
Dennis McLellan



O Groucho Marx que o público conheceu era um iconoclasta, fumante inveterado de charutos, um sujeito desconfiado, que usava bigode postiço, andava de maneira esquisita (geralmente abaixado) e tinha um humor cáustico. A uma mulher elegante, em Um Dia nas Corridas (A Day in the Races, 1937), que reclamava de que nunca tinha sido tão maltratada em sua vida , Groucho respondeu: “Não se preocupe, ainda é cedo; haverá outras oportunidades.”
O Groucho que sua filha mais velha, Miriam Marx Allen, conheceu foi um tipo caseiro, que fazia pessoalmente as compras da casa, geralmente um tipo temperamental, mas sempre um pai afetuoso, apaixonado pela leitura.
É o lado gentil de Groucho que Miriam quer mostrar no livro que está escrevendo sobre sua vida com o homem que o mundo conheceu como um dos mais inventivos e anárquicos comediantes de todos os tempos.
Provisoriamente intitulado Love and Kisses, Padre: Letters from Groucho Marx with a Memoir by His Daughter Miriam Marx Allen (Amor e Beijos, Padre: Cartas de Groucho Marx, Incluindo as Memórias de Sua Filha Miriam Marx Allen, numa tradução literal), o livro conterá trechos das 255 cartas que Groucho escreveu para Miriam (ela e seu irmão, Arthur Marx, chamavam seu pai de “padre”, desde que Arthur aprendera essa palavra espanhola na escola).
“Quero que as pessoas vejam um lado diferente de Groucho, não o sujeito sempre engraçado, desconfiado, louco por sexo. Pretendo mostrá-lo como ninguém antes o fez”, disse Miriam, 62 anos, sentada na sala de seu modesto apartamento em San Clemente, Califórnia.
A parte de memória do livro abrangerá especialmente a infância de Miriam em Beverly Hills. (...) Miriam recebeu a primeira carta de seu pai quando tinha dez anos. Ela estava de férias, e Groucho lhe escreveu para dizer quanta saudade ele sentia “daqueles pezões andando pela casa...”
Groucho escreveu muitas cartas para a filha, quando viajava a serviço, especialmente em apresentações para os soldados americanos, durante a Segunda Guerra Mundial. “Ele não gostava dos telefonemas de longa distância”, Miriam recorda, “achava que uma pessoa deveria gastar um tempinho e escrever uma carta.”
Excertos das cartas – incluindo erros gramaticais e de ortografia – ilustram o que ela diz de seu pai:
Sobre o show business (1941): “É um negócio duro. Todas as dores de cabeça e noites sem dormir tornam esta profissão bastante ingrata, a não ser, é claro, que você seja um dos poucos sortudos que alcançam  o sucesso; aí tudo fica diferente, e esses momentos de ansiedade são esquecidos.”
Sobre Duque, cão da família (1941): “Como vai você? E o meu cachorro Duque? Você deve pensar que o Duque é seu, não é? Bem, outro dia, nós saímos juntos... Eu estava de bicicleta, quando lhe perguntei: ‘Duque, você é de quem? Da Miriam ou meu?’ Ele olhou para mim e, piscando, disse: ‘Eu gosto da Miriam. Ela é uma menina legal, limpa meu pêlo e me atira de vez em quando um osso. Mas compará-la a você é maluquice. Groucho, meu velho, você é o meu dono.’ Essa foi a primeira vez que ele me chamou de Groucho, ele geralmente me chama de Julius. Ouvi-lo me chamar de Groucho, tocou-me profundamente, isso me deixou todo arrepiado... Quando você o vir, dê, por favor, um abraço nele por mim.”
Quando Miriam marcou encontro com um sujeito chamado John, a quem ela conhecera num elevador (1947): “Quando vocês se conheceram, o elevador estava subindo ou descendo? Isso é muito importante, pois, quando o elevador desce, sempre há uma impressão de queda; e você pode ter confundido isso com amor. Por outro lado, se você estava subindo, isso é obviamente um sinal de amor à primeira vista; prova também que ele é um mancebo em ascendência...”
Contudo, Miriam deixa claro, desde o início, que seu livro não será um infindável jogo de confetes em seu pai. Ela o amava, mas sabe que ele não era perfeito.

 

Este texto foi transcrito do Jornal da Tarde (São Paulo, 22 de setembro de 1989, p. 22)