Ano 6 - nº 18 - janeiro/abril de 2014

PENSAMENTOS EM RITMO DE "VAUDEVILLE"
Hélio Muniz



Óculos, narigão, charuto e bigode pintado com graxa. Groucho Marx não precisou de mais nada para anarquizar o mundo da Comédia e criar, na década de 1920, o grupo de comediantes considerados os mais engraçados do mundo. Junto com seus irmão Chico, Harpo e Zeppo, Groucho lançou as sementes do humor que se faz hoje no Cinema e na TV.
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Quando se afastou do Cinema, Groucho Marx tentou escrever. E é esse pedaço da filosofia “marxista” que chegou às livrarias brasileiras. A Editora Marco Zero lançou Memórias de um Amante Desastrado (Memoirs of a Mangy Lover), livro que Groucho escreveu em 1959 (...).
Groucho não se preocupou em fazer um livro de memórias organizado. O que é a cara dele, lógico. Para fazer Memórias de um Amante Desastrado, o comediante pegou cenas de sua vida e misturou tudo com pensamentos sobre mulheres, charutos, jogo de pôquer e cachorros de estimação. Cada frase vem com um ou dois jogos de palavras de brinde, traduzidos heroicamente por José Simão e Bira Borges.
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Memórias de um Amante Desastrado começa com o pequeno texto: “Este livro foi escrito durante as longas horas que passei esperando minha mulher se vestir para sairmos. E, se ela nunca tivesse se vestido, este livro nunca teria sido escrito.” O resto do livro segue o mesmo tom, com Groucho falando de mulheres bonitas, de casamentos e do showbiz. Com um charme antiquado que tempera as referências culturais da época. No livro, as belas garotas são sempre coristas de vaudeville e as histórias contadas por Groucho deixam passar uma gostosa ingenuidade.
Mas não é nas piadas que está o brilho de Memórias de um Amante Desastrado. O livro apresenta um humorista em período de decadência tentando se manter vivo, mostrando que o que era bom em 1929 ainda poderia fazer as pessoas rirem trinta ou sessenta anos depois. Groucho consegue. Tanto que rimos dele até hoje.

 

Este texto foi transcrito do jornal O Globo (24 de dezembro de 1990)