Ano 6 - nº 18 - janeiro/abril de 2014

O PENSAMENTO DE GROUCHO MARX CONDENSADO EM LIVRO
Ruy Castro



Quem pensa que não conhece nenhuma frase de Groucho Marx sabe perfeitamente esta: “Não entro para clubes que me aceitam como sócio.” Com essa declaração, Groucho resumiu seu desprezo pela lado “fake” da humanidade (e que, aliás, ele temia que fosse o melhor lado da dita humanidade). Esse ceticismo radical foi a marca de sua vida e carreira, ambas longuíssimas: quando ele morreu em 19 de agosto de 1977, aos 86 anos, era o único artista americano bem-sucedido em todos os veículos de seu tempo – vaudeville, teatro, Cinema, rádio e TV. Além disso, publicou livros, artigos em jornais e revistas e escreveu uma infinidade de cartas. Com ou sem os Irmãos Marx, Groucho imprimiu seu formidável anarquismo em cada veículo e, até o fim, continuou professando sua escassa fé no destino e nas intenções dos homens. A palavra agressiva e mortal era a sua grande arma (mais até do que os óculos, o bigode pintado, o charuto e o jeito hilariante de andar).
Bem, já sabemos como Groucho era. Mas uma pergunta se impõe: suas frases seriam mesmo dele – ou dos roteiristas e libretistas que trabalharam em seus esquetes, filmes, peças e programas de rádio e televisão? E, se for este o caso, quem escrevia as frases que o tornaram famoso? A lista de seus colaboradores é grande e ilustre: George S. Kaufman, S. J. Perelman, Morrie Ryskind, a dupla Bert Kalmar & Harry Ruby, Nat Perrin e Arthur Sheekman. Pertencem à elite do humor americano, sendo que os três primeiros eram estrelas da “mesa-redonda” do Hotel Algonquin, na Nova York dos anos 1920 e 1930. (...)
George S. Kaufman e S. J. Perelman deixaram uma obra tão importante, fora de sua associação com os Irmãos Marx, que, ao ler hoje os scripts que eles escreveram para filmes como Os Quatro Batutas (Monkey Business, 1931), Os Gênios da Pelota (Horse Feathers, 1932) e Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935), é difícil resistir à tentação de lhes creditar a construção da personalidade de Groucho. Afinal, as frases que eles puseram na boca do comediante soam iguais às que escreveram para as suas histórias e peças de humor (e Kaufman, por sua vez, foi um dos maiores “wits” de seu tempo, com frases na ponta da língua em qualquer eventualidade). Será possível, então, que o célebre e maravilhoso mau humor de Groucho tenha sido uma criação alheia? E, se foi, como faremos nós, os marxistas grouchianos, para continuar admirando Groucho?
Um livro recém-publicado em Nova York, The Essential Groucho – Writings by, for and about Groucho Marx, organizado por Stefan Kanfer, ajuda a esclarecer a questão. Trata-se de uma antologia dos grandes textos escritos por aquela turma para os Marxes ou para Groucho isoladadamente. Está tudo ali: diálogos de peças e filmes, scripts de rádio, artigos e cartas de Groucho (inclusive sua incrível correspondência com o poeta T. S. Eliot) e transcrições do programa de TV You Bet Your Life, que ficou no ar durante quase onze anos e era feito ao vivo. Por esse material, pode-se saber se o próprio Groucho era (ou não) um “fake”. E quer saber qual foi a minha conclusão? Todas as frases geniais de Groucho Marx eram de Groucho Marx – mesmo as escritas por outros.
A prova está nos trechos tirados de I’ll Say She Is, a primeira peça que os Marxes levaram à Broadway, em 1924, e que os tornou, do dia para a noite, a última palavra em Nova York. (...) I’ll Say She Is, que não tinha nenhuma colaboração dos humoristas do Algonquin, era um refogado dos shows que eles vinham fazendo no vaudeville havia mais de dez anos. E o principal roteirista desses shows se chamava Groucho Marx. No esquete incluído por Kanfer na coletânea, você já pode encontrar os duplos sentidos, as agressões de Groucho a Chico, a Harpo e aos coadjuvantes, os trocadilhos (alguns muito engraçados, outros terríveis) e, principalmente, a personalidade de Groucho: o canalha adorável, sempre a fim de levar vantagem e com um constante olho nas mulheres, de preferência ricas.
O sucesso de I’ll Say She Is converteu os humoristas do Algonquin aos Marxes. (...) O sucesso tornou os Irmãos Marx ricos, a ponto de poderem pagar bem àqueles humoristas para que escrevessem suas peças e filmes. E homens como Kaufman ou Perelman não se importaram de submeter-se a um Groucho que já existia.
Mas não tenho a menor dúvida de que Groucho também aprendeu com eles. Na vida real, ele se tornou um “wit” (brincalhão, pessoa espirituosa) em tempo integral, alguém a quem nunca era aconselhável dar as costas (ou a frente), sem que houvesse um humorista profissional para soprar-lhe as tiradas por um ponto eletrônico. E, então, Groucho passou a minimizar o papel dos humoristas em sua carreira e atribuir-se a autoria das frases que não eram suas, o que lhe valeu o ódio eterno de S. J. Perelman. Bem, hoje estão todos mortos... e resta o livro de Kanfer para Groucho & Cia. nos fazer rir.

 

Este texto foi transcrito, com algumas correções, do jornal O Estado de S. Paulo