Ano 6 - nº 18 - janeiro/abril de 2014

GROUCHO MARX NÃO É APENAS UM HUMORISTA
Roger Ebert



Ao fazer a lista dos melhores cômicos do Cinema, Groucho Marx talvez esteja simplesmente retratando a verdade, quando coloca seu próprio nome em primeiro lugar. O gume de seu humor continua tão aguçado quanto nos tempos em que, formando o trio dos Irmãos Marx, satirizava Wall Street no exato momento em que o crack da Bolsa de Nova York despejava milionários pela janela. Daqui a cem anos, será possível dizer que algumas pessoas, no século XX, escaparam das idéias de Karl Marx, o demolidor do capitalismo. Mas ninguém, provavelmente, terá escapado do humor igualmente demolidor de Groucho Marx e seus irmãos.
Nem mesmo Groucho escapa de sua ironia. Atualmente casado com Erin Fleming [antes, ele foi casado com Ruth Johnson, Kay Marvis (nascida Catherine Dittig) e Eden Hartford], uma gostosa canadense, ele confessa que sua atividade sexual mais intensa é ler um livro. E, pouco antes de receber, em Cannes, a Legion d’Honneur do governo francês, Groucho confessava: “Trocaria esses prêmios todos por uma ereção. Afinal, poderia receber os prêmios no ano que vem.
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A verdade é que Groucho não é apenas um humorista. Conseguiu, dentro de uma sociedade cada vez mais hipócrita, conservar uma ingenuidade lúcida e corajosa, uma confiança em si próprio que nenhum modismo foi capaz de abalar. Certa vez, por causa de um filme de Terror com Boris Karloff, passou várias noites sem dormir. Foi ao psiquiatra, preocupado com a insônia. O analista chamou-o de louco. Groucho deu-lhe uma mordida na perna e nunca mais voltou. É esse o segredo de sua comicidade: tomar ao pé da letra o que as pessoas falam, enquanto o resto da humanidade mergulha num tenebroso oceano de mal-entendidos, em que as pessoas só podem dizer “sim” quando querem, com todas as suas forças, gritar “não”.
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Groucho gosta de contar que tem quatro filhos (nenhum quis ser artista) e que escreveu seis livros. O mais famoso deles, sem dúvida, é a deliciosa coleção de suas cartas (...).
Durante a década de 1960, Groucho Marx perdeu seus irmãos Chico e Harpo; e teve uma série de ataques cardíacos. Estava quase ignorado e esquecido, preso a uma cama, quando um médico ousou fazer a operação que lhe devolveu a saúde. Ao mesmo tempo, ele ficou conhecendo Erin Fleming, uma canadense de trinta anos, que se transformou em sua secretária e depois em sua quarta esposa. Um pouco graças a Erin, tornou a surgir nos Estados Unidos, nos últimos anos, um verdadeiro culto a Groucho Marx. Estudantes da Universidade de Los Angeles formaram até uma Comissão pela Exibição de Os Galhofeiros (por problemas jurídicos, o filme não era exibido desde 1956). Os franceses lhe deram a Legion d’Honneur; em 1973, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood lhe entregou um Oscar honorário, em reconhecimento à sua brilhante criatividade e pelos feitos inigualáveis dos Irmãos Marx na arte da Comédia cinematográfica. (...)
Completamente lúcido, Groucho ainda costuma receber os amigos no imenso living de sua mansão, no número 1083 de Hillcrest Drive, em Beverly Hills. Tem uma coleção enorme de chapéus, outra de caricaturas (suas e de seus irmãos). Quando está animado, sai com Erin para ir devorar “a melhor torta de queijo do mundo”, a do Le Bistrô de Beverly Hills.
É possível que ninguém, como Groucho Marx, tenha reunido com tanto humor e lucidez as contradições do século XX: uma personalidade ao mesmo tempo orgulhosa e humilde, eufórica e deprimida, sempre boquiaberta diante da estupidez e da genialidade das pessoas.

 

Este texto foi transcrito, com alguns acréscimos e algumas correções, do número 20 da revista Status (São Paulo, Três, março de 1976, pp. 112 e 115).