Ano 6 - nº 18 - janeiro/abril de 2014

ENTREVISTA COM GROUCHO MARX



Edward Silvers: Como era você, na sua juventude?
Groucho Marx: Quando rapaz, eu era tão inocente quanto a maioria das moças de quatorze anos de hoje. O sexo não era aceito. Não sabíamos nada de sexo e não aprendíamos nada sobre o assunto. Eu não soube de onde vinham os bebês até mais ou menos dezoito anos. Nessa altura, meus pais já tinham cinco filhos.

Como descobriu o sexo?
Não sei. Não era assunto que se discutisse lá em casa. Piadas sujas havia. Morávamos perto do Central Park e ouvíamos os caras levando as garotas “pro matinho”. Mas eu não sabia o que eles estavam fazendo. A primeira vez que tive sexo foi quando eu estava trabalhando em Montreal, num teatro vagabundo. Encontrei uma prostituta que me levou para o porão. Hoje, o sexo para mim já era. Posso olhar para as garotas, saio com elas; mas não estou interessado... O assunto me chateia. Parece esforço demais para o que se lucra... ou o que se gasta.

Mudando de assunto... Talvez a cada semana, pelo menos um de seus filmes é exibido em algum lugar. Vocês ganham alguma coisa com isso?
Sim, recebemos algum dinheiro de alguns filmes. (...) Felizmente, os melhores.

Como você passa a maior parte do tempo agora?
Chateando os outros.

Antes dos filmes, quando você estava na Broadway, como era?
Primeiro, estivemos no vaudeville, onde havia ratos nos camarins. Geralmente, os ratos eram os gerentes dos teatros.

O que o atraiu para Hollywood?
A Paramount nos ofereceu mais dinheiro do que podíamos nos dar ao luxo de recusar.

Por que a juventude de hoje gosta tanto de seus filmes?
Porque a maioria dos filmes antigos não é sobre nada. Os nossos geralmente são sobre alguma coisa.

Eles são sobre o quê?
Atacavam o establishment da época. Fizemos O Diabo a Quatro sobre a monarquia. Fizemos um filme gozado sobre um colégio e satirizamos a ópera na América. Então, nossos filmes eram sobre alguma coisa, enquanto que Harold Lloyd, Buster Keaton e outros estavam só sendo engraçados.

Como se sente hoje em dia a respeito do establishment?
Acho que não tem jeito. Essa turma de Washington, pelo menos metade dela, é de ladrões.

As piadas tinham algum ponto de partida?
Ah, eu sabia o que era uma piada. É como um pedreiro que constrói uma parede de cimento. Ele sabe o que está fazendo.

Até que ponto você colaborava nos scripts?
Sempre fui escritor. Escrevi cinco livros; e um deles, As Cartas de Groucho, está na Biblioteca do Congresso, em Washington. O elenco deste livro é muito bom: T. S. Eliot, James Thurber, Fred Allen.... Discursei no enterro de Eliot, sabia? A mulher dele me pediu. Uma mulher meio sem graça, loura e de meia-idade.

É, isso acontece com homens muito talentosos: as mulheres ficam em segundo plano.
Porque, em geral, o rapaz se casa com uma moça para dormir com ela. Fiz isso três vezes. Casei-me com moças bonitas; e, quando a beleza começou a desaparecer, não havia motivos para continuarmos casados. O estimulante do sexo não existia mais.

E o companheirismo?
Para isso, não é indispensável uma garota de peitos grandes. Precisa-se de uma com quem normalmente você não casaria... ou não tentaria levar para a cama. (...) Não acredito que exista o que se chama de amor. Duas pessoas podem gostar uma da outra, e isso é mais importante que o amor. (...)

Nunca se apaixonou na sua juventude?
Sempre achei que sim. Por isso, paguei três pensões. E, hoje, olho para essas mulheres e penso: “Que foi que vi nelas?”

Você é amigo delas?
Sim, jantei ontem à noite com minha última ex-esposa. Gosto dela, mas não tenho vontade de dormir com ela. O encanto foi-se.

Voltando a falar de filmes... Por que não se fazem mais fitas tão engraçadas como as de antigamente? Que vocês tinham e as pessoas que fazem Cinema hoje não têm?
Para começar, tínhamos talento. Tínhamos também ótimos escritores e gastávamos um ano para fazer cada filme.

E que pensa a respeito dos fãs?
Se eles não gostam de você, podem esquecê-lo em quinze minutos.

Mas não se esqueceram de você...
Eu sei. Mas já vi muitos atores que foram astros e que hoje ninguém sabe quem são. Não se deve ter respeito ou afeto pelo público.

Alguma vez chegou a pensar que o que vocês estavam fazendo era arte?
Não. Eu achava aquilo um bom negócio. A palavra arte, que, aliás, é o nome do meu filho Art, nunca surgiu nos meus pensamento e conversas. (...) Bem, preciso ir andando. Já são quase duas e meia da manhã.



Esta entrevista, realizada num restaurante da Califórnia, foi transcrita do número 66 da revista Ele Ela (Rio de Janeiro, Bloch, outubro de 1974, pp. 128 e 129).