Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

ZUMBIS MADE IN FRANÇA
Marco Aurélio Lucchetti



Os zumbis fizeram sua estreia nas telas cinematográficas em 1932, no filme Zombie, A Legião dos Mortos (White Zombie), dirigido por Victor Haperin (1895-1983) e estrelado por Bela Lugosi (1882-1956).
Desde então, esses monstros putrefatos de andar claudicante e olhar vitrificado têm apavorado os espectadores de todo o mundo, aparecendo num sem-número de filmes (1), muitos dos quais inspirados numa produção modesta e inovadora, A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968) (2), realizada por George A. Romero (3).
E, hoje, os zumbis também estão invadindo os lares de grande parte do planeta, por meio da série de televisão The Walking Dead, baseada na história em quadrinhos homônima criada por Robert Kirkman.
Feita esse breve introdução ao universo dos mortos-vivos, podemos começar a falar do verdadeiro assunto deste artigo: o admirável Les Raisins de la Mort (As Uvas da Morte, numa tradução literal), um filme de zumbis feito na França e que teve direção de Jean Rollin.



SÍNTESE BIOGRÁFICA DE JEAN ROLLIN

“Tudo é recusa no cinema do francês Jean Rollin, (...) um cineasta que sempre teve de lidar com os limites impostos pelas condições precárias de produção e preconceitos inerentes ao dito cinema de gênero.
(...)
As tramas dos filmes de Rollin frustram a todo momento a mitologia do gênero a que se filiam.”

Adolfo Gomes

Jean Rollin (Jean Michel Rollin Le Gentil) foi um cineasta, produtor, roteirista, ator e escritor francês.
Nasceu em 3 de novembro de 1938, em Neuilly-sur-Seine, na periferia de Paris.
Era filho do ator Claude Martin e Denise Rollin-Le Gentil, uma mulher bela e culta que tinha amizade com algumas pessoas de renome, como o escritor, desenhista, pintor, músico e cineasta Jean Cocteau (1889-1963), o escritor e pensador André Breton (1896-1966), o escritor Georges Bataille (1897-1962) e o escritor e roteirista Jacques Prevért (1900-1977).
Iniciou sua carreira no Cinema em 1955, sendo assistente na realização de filmes técnicos e de Animação na companhia cinematográfica Films de Saturne.
Em 1958, realizou um curta-metragem em preto e branco, Les Amours Jaunes, baseado em poemas do poeta maldito Tristan Corbière (1845-1875).
Trabalhou durante algum tempo (1960-1961) na televisão.
Pretendia realizar, em 1963, a fita L’Itinéraire Marin, com roteiro seu e diálogos da escritora Marguerite Duras (1914-1996). Porém, o projeto não vingou.
Realizou, em 1965, mais um curta-metragem em preto e branco: Les Pays Loins (4).
Escreveu o artigo, ou melhor, o ensaio “Aujord’Hui Gaston Leroux” (5), que é sobre a obra do escritor Gaston Leroux (1868-1927), autor do famoso romance O Fantasma da Ópera (Le Fantôme de l’Opéra, 1910).
Foi responsável pelo roteiro daquela que talvez seja a mais revolucionária história em quadrinhos de todos os tempos: Saga de Xam (6), desenhada por Nicolas Devil e publicada em 1967 num álbum de luxo.
Estreou como diretor de longa-metragens em 1967, ao realizar Le Viol du Vampire (7), um dos primeiros filmes franceses de vampiros (8).
Dirigiu diversas fitas de Horror (9), muitas delas tendo como tema o vampirismo.
Realizou inúmeros filmes pornográficos (10).
Escreveu o roteiro de Emmanuelle – Paraíso Selvagem (Emmanuelle 6, 1988) (11), umas das muitas fitas tendo como protagonista a personagem criada por Emmanuelle Arsan (pseudônimo de Marayat Rollet-Andriane, nascida Marayat Bibidh).
Fez alguns filmes para a tevê.
Dirigiu as coleções de livros Frayeur, Poche Revólver Fantastique e Les Anges du Bizarre.
Teve dois filhos: Serge e Carel.
Faleceu em 15 de dezembro de 2010, deixando viúva a atriz Simone Rollin (12).
Foi enterrado no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris.
Com o passar dos anos, tornou-se, para um pequeno grupo de cinéfilos, um cineasta cult. E, dentre as fitas que realizou, merecem ser destacadas: La Vampire Nue (1969), Le Frisson des Vampires (1970), Requiem pour un Vampire (197l), La Rose de Fer (1972), Lèvres de Sang (1975), Fascination (l979), La Morte Vivante (1982), Les Deux Orphelines Vampires (1997), La Fiancée de Dracula (2002) e Les Raisins de La Mort.



UM FILME-CATÁSTROFE DE ZUMBIS

Na década de 1970, estavam na moda os filmes-catástrofe feitos em Hollywood.
Foi a época em que fitas como O Destino do Poseidon (The Poseidon Adventure, 1972), Inferno na Torre (The Towering Inferno, 1974), Terremoto (Earthquake, 1974) e O Enxame (The Swarm, 1978) atraíam as pessoas aos cinemas.
Interessado em explorar esse filão, o produtor Jean-Marc Ghanassia se associou a um homem de negócios, Claude Ghedj.
Como sabiam que não teriam condições de produzir um filme-catástrofe que fosse capaz de competir com os filmes-catástrofe norte-americanos, que tinham efeitos especiais caríssimos e quase sempre um elenco de superstars, Ghanassia e Ghedj decidiram que o filme-catástrofe que produziriam seria totalmente diferente dos demais: seria um filme-catástrofe com zumbis, ou seja, um filme-catástrofe de Horror/Terror. E, para dirigi-lo, logo procuraram Jean Rollin, que fora diretor de uma fita produzida por Ghanassia, Lèvres de Sang.
Jean Rollin, um cineasta surrealista e um poeta da imagem (13), nunca havia imaginado realizar um filme-catástrofe. Também nunca se interessara por zumbis, essas criaturas mudas, destituídas tanto de consciência como de sentimentos e movidas unicamente pelo desejo de matar e destruir. Na sua concepção, os zumbis não eram adequados para um filme de Horror/Terror com uma atmosfera de mistério e enlevo, ao contrário dos vampiros, seres que comumente saem apenas à noite e são dotados de grande magnetismo e sensualidade. Portanto, a proposta dos dois produtores não o entusiasmou nem um pouco e esteve a ponto de recusá-la. Só não o fez porque passava por uma fase extremamente difícil. Sua fita mais recente, Lèvres de Sang, fora um fracasso de bilheteria, obrigando-o a deixar de realizar filmes de Horror e ter de dirigir uma fita pornográfica atrás da outra (14), a fim de sobreviver. Deste modo, aceitou dirigir o filme-catástrofe de zumbis, pois seria uma maneira de voltar às fitas de Horror/Terror. Mas impôs a condição de que o argumento e o roteiro do filme fossem escritos por ele e por pessoas de sua inteira confiança. Os produtores concordaram com essa exigência.
O roteiro foi escrito por Jean Rollin e Christian Meunier. E a história contada na fita pode ser assim resumida:
Um grupo de homens usando máscaras (algumas dessas máscaras são, na verdade, lenços de pano) pulveriza uma plantação de uvas, seguido por um rapaz (ele também usa uma máscara), Kowalski, que dirige um trator e parece respirar com dificuldade.
Mais tarde, chegando à vinícola, Kowalski quase desmaia (um empregado o ajuda o descer do trator). A seguir, Kowalski informa o supervisor de que não está se sentindo bem e se queixa de uma dor do pescoço. O supervisor fala que aquilo não é nada e que ele deve tomar alguma coisa e voltar ao trabalho. Também avisa que no dia seguinte chegarão novas máscaras completamente herméticas.
Depois, numa cabine de trem, Brigitte, uma jovem loura, acorda sua companheira de viagem, Élisabeth (ela tem mais ou menos a mesma idade de Brigitte), dizendo que já amanheceu.
Brigitte e Élisabeth conversam. E, durante a conversa, Élisabeth revela que adoraria tomar um banho e que seu destino, Roublés, nas montanhas, está próximo. Diz ainda que vai para lá viver com seu noivo, Michael, e que Roublès não é uma aldeia e sim uma vinícola com algumas casas ao redor. Brigitte, por sua vez, afirma que só poderá tomar banho ao chegar à Espanha, onde irá passar as férias.
Em seguida, as duas vão até o toalete. Aparentemente, elas são as únicas passageiras, uma vez que as demais cabines estão vazias.
Quando acaba de escovar os dentes, Élisabeth retorna à cabine, deixando Brigitte no toalete.
O trem para numa estação.
Kowalski embarca no trem; e Brigitte, que continua no toalete, assusta-se, ao vê-lo.
O trem recomeça a viagem.
Kowalski entra calado na cabine onde está Élisabeth e senta-se junto à porta, em frente ao banco em que se encontra sentada a jovem. Ele aparenta estar doente. Élisabeth encara-o. De repente, surgem feridas no pescoço e no rosto do rapaz; e logo pus e sangue começam a sair dessas feridas.
Aflita, Élisabeth pega sua mala e sai da cabine. Kowalski a persegue.
Élisabeth vê Brigitte morta no toalete e, desesperada, aciona o freio do trem.
Assim que o trem para, Élisabeth salta e corre. Kowalski vai atrás dela, mas logo desiste de persegui-la e senta no trilho.
Após muito andar por lugares desertos e inóspitos, Élisabeth chega a uma fazenda e entra numa casa. Ali, encontra um camponês, Lucien, e sua filha, Antoinette. Relata a eles o que lhe aconteceu e fala que precisa telefonar para a polícia.
A mando do pai, Antoinette, oferece um copo de vinho a Élisabeth.
A jovem bebe um pouco do vinho e pergunta se pode ligar para a polícia.
Lucien responde que não existe nenhum telefone naquela fazenda.
Então, Élisabeth diz que viu um carro estacionado lá fora e pede que a levem até a cidade.
Lucien retruca que aquele carro não funciona há muito tempo.
Não gostando da forma como o homem a olha e notando que ele tem na mão uma ferida semelhante à do rapaz no trem, Élisabeth faz menção de ir embora; porém, Antoinette a impede e manda-a descansar em seu quarto, no andar de cima.
Sem outra alternativa, Élisabeth obedece. Sobe as escadas e, no quarto, descobre uma mulher morta deitada numa cama.
Antoinette surge e explica que a mulher na cama era sua mãe e foi morta por seu pai, que ficou louco. A seguir, sugere que as duas devem fugir e informa que guardou um revólver dentro do carro.
No momento em que as duas mulheres estão prestes a deixar a casa, Lucien entra, dá um safanão em Élisabeth, joga a filha sobre a mesa e, falando que sabe que ela tem erupções como as dele e que está apodrecendo como ele, arranca-lhe a blusa (a moça tem realmente uma ferida quase na altura da barriga). Aí, Lucien fala que ela não irá sofrer o que ele está sofrendo, pois irá matá-la; e enfia-lhe um forcado no peito. Antoinette morre.
Desesperada, Élisabeth foge e entra no carro.
Lucien fica na frente do automóvel e pede para ser morto. Élisabeth liga o motor; e o carro esmaga o corpo de Lucien contra um muro de pedra.
Durante algum tempo, Élisabeth continua sua fuga. No caminho, não cruza com vivalma ou qualquer veículo. Por fim, chega a um local que parece ser habitado. Decide parar, desce do carro e não demora a ficar frente a frente com um rapaz cuja testa está se decompondo. Amedrontada, ela volta para o automóvel. Tenta – sem sucesso – ligar o motor. O rapaz se aproxima e solicita ajuda. Élisabeth não se dispõe a ajudá-lo. Enfurecido, ele começa a bater a cabeça na janela da porta do lado do motorista. A janela se quebra. Para se defender, Élisabeth apanha o revólver e mata o rapaz com um tiro.
Como o carro não funciona mais, Élisabeth abandona-o e foge a pé. Anda e corre a esmo, até encontrar, vagando por uma região cheia de pedras enormes, Lucie, uma jovem cega.
Lucie conta a Élisabeth que, desde aquela manhã, está perdida, andando em círculos. Informa também que teve de abandonar às pressas a aldeia onde vive, por causa de uma luta entre os moradores. Élisabeth indaga o motivo da luta. Lucie responde que não sabe. Élisabeth diz a Lucie que vai ajudá-la a retornar à aldeia.
As duas jovens se põem a caminho. E chegam à aldeia ao anoitecer. Há cadáveres e destruição por toda parte. Élisabeth procura esconder isso de Lucie, a fim de não alarmá-la, e fala que ainda falta muito para chegarem à aldeia. Lucie não acredita em Élisabeth e diz que tem certeza de que já entraram na aldeia e que algo está errado. Élisabeth replica que todos os habitantes da aldeia foram embora.
Élisabeth e Lucie andam mais um pouco e chegam finalmente à casa onde a cega mora com Lucas, seu guia. Não encontram ninguém na casa, e tudo está em desordem.
Angustiada, Lucie sai à procura de Lucas, aproveitando um momento em que Élisabeth se distrai colocando as coisas no lugar.
Percebendo que Lucie havia saído, Élisabeth decide ir procurá-la.
Enquanto isso, Lucie perambula pela aldeia. Um grupo de zumbis acaba cercando-a. Ela chama por Lucas e caminha por entre os zumbis, que a deixam ir. Lucas aparece. Seu rosto começa a sangrar. Então, rindo como um demente, ele segura Lucie e a arrasta. A jovem entra em pânico e grita.
Guiada pelos gritos, Élisabeth vai encontrar Lucie seminua, morta e pregada na porta de entrada de sua casa.
No momento seguinte, Lucas sai de dentro da casa, com um machado na mão; e, sob o olhar de espanto de Élisabeth, decapita Lucie. E, ao mesmo tempo em que faz isso, ele exclama: “Lucie, eu amo você!
Aterrorizada e aos gritos, Élisabeth deixa o local, tendo em seu encalço vários zumbis. E, no instante em que alguns dos zumbis estão quase a alcançando, ela é puxada por uma loura para dentro de uma casa.
A loura tranca a porta e fala que ali estão seguras. Diz ainda que há três dias está confinada naquela casa, que é do prefeito. Conta também que o prefeito e sua esposa foram mortos pelos zumbis.
Às vezes, o que a loura fala não tem muito nexo; e suas atitudes são um tanto estranhas. Além disso, ela quase sempre sorri de um modo enigmático.
Élisabeth sugere que devem partir da aldeia e buscar ajuda. A loura aceita a sugestão e troca de roupa.
Tão logo as duas mulheres saem da casa, a loura agarra Élisabeth e chama os zumbis.
Élisabeth grita, pois a loura, segurando uma tocha, ameaça queimá-la viva.
Nesse momento, um caminhão com a carroceria carregada de bananas de dinamite chega à aldeia.
Dois homes, Paul e François, que trabalham numa obra na estrada, descem do caminhão. Paul está armado de um rifle e atira num zumbi.
A loura ouve o tiro e vai ver o que aconteceu, deixando Élisabeth nas mãos de Lucas. E, ao deparar com Paul e François, a loura diz que foi ela quem gritou e pede que a tirem daquele “local infernal” onde “todos estão loucos e deformados”; e, para provar que não tem feridas no corpo, fica inteiramente nua. Os dois homens concordam em levá-la.
Quando o trio já está perto do caminhão e prestes a deixar a aldeia, Élisabeth livra-se de Lucas e grita.
François adverte que o grito foi dado pela mesma pessoa de antes. Depois, ele e Paul vão procurar quem gritou; e a loura fica junto do caminhão.
Sem demora, Paul e François realizam uma limpeza na aldeia, eliminando diversos zumbis (incluindo um que os ameaçou com uma foice).
Simultaneamente a esses acontecimentos, Élisabeth, carregando uma tocha, aproxima-se do caminhão; e, assim que a vê, a loura se lança sobre ela. As duas mulheres lutam, e Élisabeth queima parte do rosto da loura.
Paul e François retornam. Paul faz menção de atirar em Élisabeth. François consegue impedi-lo, percebendo que Élisabeth é a real autora do grito que haviam escutado. A loura os chama de “malditos”, não se conformando em ter ficado desfigurada para sempre; e, num misto de fúria e loucura, joga a tocha sobre as bananas de dinamite na carroceria. O caminhão explode, matando a loura.
Não restando mais nada a fazer na aldeia, Élisabeth, Paul e François partem a pé para Roublès, que não fica muito distante dali.
Ao chegarem à vinícola, os três não veem ninguém e julgam que todos partiram.
Imediatamente, eles entram na casa de Michael, onde também não há vivalma. Daí, enquanto Paul procura algo para comerem, François telefona para a polícia.
Paul acha pão, queijo e vinho. Ele e Élisabeth se sentam à mesa.
Após desligar o telefone, François se junta a seus companheiros e fala que a polícia já sabe desde o dia anterior dos distúrbios na região. Diz ainda que a doença que está afetando as pessoas foi causada devido à ingestão de vinho envenenado. Por fim, informa que a polícia avisou que vão enviar um helicóptero para resgatá-los.
Sem que Paul e François percebam, Élisabeth (ela está meio estranha; parece ausente, distante) se levanta, deixa a casa e vai até um galpão. Lá, no andar de cima, encontra o noivo.
Michael revela para Élisabeth que está doente, desfigurado e perdendo o juízo. Informa também que todos se foram, envenenados pelo pesticida que ele criara. Fala ainda que tem de se matar.
Dando a impressão de que não ouviu ou entendeu o que Michael falou, Élisabeth se aproxima dele e o abraça.
Paul chega e atira em Michael, que, antes de morrer, diz que não chamou as autoridades porque seu patrão estava usando imigrantes ilegais na vinícola.
A fim de verificar se Michael está mesmo morto, Paul larga o rifle.
De imediato, Élisabeth pega a arma e dá um tiro em Paul, que morre quase instantaneamente. Daí, a jovem desce as escadas e também mata François, com um tiro pelas costas.
A seguir, gotas do sangue de Michael começam a cair sobre o rosto de Élisabeth.



OS INTÉRPRETES, AS FILMAGENS...

Como se percebe pelo resumo da história, a protagonista da fita é Élisabeth, uma jovem que em pouco mais de vinte e quatro horas presencia cenas do mais profundo terror, tem sua vida ameaçada em diversas ocasiões e vê se desfazer para sempre seu sonho de levar uma existência tranquila ao lado do noivo. E, para interpretá-la, escolheram uma atriz que tinha um pouco de renome na época: Marie-Georges Pascal (15). Foi a escolha certa, pois Marie-Georges Pascal interpretou Élisabeth de maneira perfeita.
Outra atuação que merece ser destacada é a de Mirella Rancelot. A atriz trabalhou muito bem. Trabalhou tão bem que, na cena em que sua personagem, a cega Lucie, é cercada por um bando de zumbis, nós, espectadores, ficamos pregados em nossas poltronas, aguardando aflitos o desenlace. Felizmente, o desenlace esperado não acontece; e respiramos aliviados, quando vemos Lucie prosseguir seu caminho, sem ser molestada por nenhum dos zumbis.
Também deve ser ressaltada a interpretação de Brigitte Lahaie (16), um dos ícones dos filmes pornográficos produzidos na França nos anos 1970.
Foi durante as filmagens de uma de suas fitas pornográficas, Vibrations Sexuelles (1977), que Jean Rollin percebeu que Brigitte Lahaie tinha “alguma coisa” que outras atrizes que trabalham em pornôs não têm e pensou: “Essa garota é notável. Ela pode trabalhar no tipo de filmes que eu faço. Um dia, eu gostaria de mostrá-la num pequeno papel num filme do gênero Fantástico.” A oportunidade para isso surgiu mais rápido do que ele esperava, já que menos de um ano depois ofereceu-lhe o papel da loura (sem nome) da aldeia cheia de zumbis.
O papel de Brigitte Lahaie em Les Raisins de la Mort é pequeno. Mas, talvez devido ao seu carisma, ao seu charme, à sua beleza e ao seu rosto de expressões ambíguas, a atriz conseguiu torná-lo inesquecível, principalmente na sequência em que a personagem – personagem essa que é a um só tempo, bela, sensual, misteriosa e apavorante – não se sente nem um pouco constrangida em despir-se e revelar-se num ousado nu frontal, a fim de provar para Paul e François que seu corpo não tem nenhuma ferida e que, portanto, é saúdavel.
Abre um parêntese.
Jean Rollin gostou da atuação de Brigitte Lahaie em Les Raisins de La Mort. Gostou tanto que a atriz trabalharia em outros cinco filmes dirigidos por ele (17): Fascination, La Nuit des Traquées (1980), Les Échappées (1981), Les Deux Orphelines Vampires e La Fiancée de Dracula.
Fecha o parêntese.
Brigitte Lahaie não foi a única atriz de uma das fitas pornôs de Jean Rollin a figurar em Les Raisins de La Mort. O filme também contou com a presença da atraente Évelyne Thomas (18) – é uma pena que sua personagem, Brigitte, logo desaparece de cena, sendo morta por Kowalski –, que trabalhara em Phantasmes (19), realizado em 1975 e no qual o cineasta procurou misturar o fantástico a cenas de sexo explícito.
No que se refere aos intérpretes masculinos, o elenco de Les Raisins de la Mort, teve, além de dois atores veteranos e renomados – Félix Marten (1919-1992) e Serge Marquand (1930-2004) –, dois atores que eram amigos pessoais de Jean Rolin: Paul Bisciglia (1928-2010) e Jean Pierre Bouxyou. O meio-irmão do diretor, Olivier Rollin (?-2009), também trabalhou na fita, interpretando um zumbi.
Quanto às filmagens, elas duraram quatro semanas, no final de 1977 e início de 1978, durante o inverno. E aconteceram sobretudo nos Causses (Causse Noir e Causse de Larzac), um grupo de planaltos calcários situado no Maciço Central, na região de Midi-Pireneus, no sudeste da França.
As condições meteorológicas não foram das melhores, para não dizer terríveis. O frio intenso, devido à altitude, dificultou a realização de várias cenas. Uma dessas cenas foi a que Brigitte Lahaie se livra de seu vestido (é um vestido longo, leve, branco e sem mangas) e fica inteiramente nua, no meio da aldeia. Estava tão frio que a atriz ficou enregelada e não conseguiu dizer seu texto (nem sabemos como ela conseguiu andar com tão pouca roupa, diante de tanto frio). O frio também prejudicou o funcionamento das câmeras, atrasando as filmagens.
Depois de terminada a fita, Jean Rollin teve problemas para liberá-la. Diversos membros da Comissão de Controle dos Filmes ficaram chocados com a extrema violência (uma violência nunca mostrada, até então, numa película francesa) de determinadas cenas – dentre essas cenas, destacam-se: a de Antoinette sendo morta pelo próprio pai, com um forcado; a do zumbi batendo a cabeça na janela da porta do carro e acabando morto com um tiro; e a da decapitação de Lucie (é, sem dúvida, a sequência mais violenta do filme, mostrando sangue espirrando e Lucas segurando a cabeça da jovem) – e propuseram que a exibição de Les Raisins de la Mort ficasse restrita aos cinemas que exibiam filmes de sexo explícito (20). Por fim, a fita terminou autorizada a ser exibida nos cinemas comuns, só que proibida para os menores de dezoito anos.
Les Raisins de la Mort é um dos filmes de maior sucesso (21) de Jean Rollin. Ficou em cartaz em Paris durante sete semanas; foi exportado para a Alemanha, onde ganhou o estranho título de Foltermühle der Gefangenen Frauen, que quer dizer, literalmente, Prisioneiras do Moinho dos Suplícios (não sabemos que prisioneiras são essas e que moinho é esse; quanto aos suplícios...); projetou o nome do diretor num dos festivais mais importantes do Cinema Fantástico e de Terror, o de Sitges, na Espanha; e acabou sendo lançado em DVD nos Estados Unidos, no Reino Unido (22) e na França (23).
Na época, parte da crítica foi mais ou menos favorável a Les Raisins de la Mort. Houve, porém, críticos que teceram comentários pouco elogiosos à fita. Entre esses críticos estava Alain Riou, que escreveu o seguinte na edição de 15 de julho de 1978 do jornal Le Matin de Paris: “Há muito tempo que eu não via algo tão sem valor (...). É um filme sem valor por seu pensamento, sua ideia, sua escritura. Rollin acreditou compensar a ausência de imaginação com efeitos de Grand Guignol. Na fita, ele denuncia a ameaça assustadora que representa o uso de pesticidas na agricultura, mostrando a loucura que toma conta de uma região nas montanhas, onde todos os seus habitantes se matam entre si, após tomarem vinho fabricado com uvas de videiras pulverizadas com um pesticida. Isso é o que afirma o informativo que foi distribuído à imprensa. Porque, na realidade, os personagens se limitam a pronunciar frases idiotas, quando não estão se decapitando no decorrer de sequências fracas.”



TÂNATOS, ZUMBIS, CONSCIÊNCIA...

Em certo sentido, Les Raisins de la Mort nos faz recordar dos antigos seriados cinematográficos norte-americanos (24), por ser uma fita de episódios interligados. E Élisabeth logo nos traz à mente a personagem Paulina (Pauline) Marvin (25), pois, como ela, assim que se livra de um perigo (leia-se zumbi ou bando de zumbis), já está sendo ameaçada por outro. No entanto, ao contrário do que acontecia nos velhos seriados, em que tudo terminava bem e a mocinha sempre acabava nos braços do mocinho, o final do filme não é nada feliz: todos morrem, e Élisabeth fica louca (só não sabemos se ela enlouquece em virtude de ter tomado um pouco de vinho envenenado na casa de Lucien ou por haver presenciado fatos tão terríveis).
A fita é também um road movie, um filme de estrada: Élisabeth está o tempo todo se movendo (de trem, de carro, a pé), a princípio para ir morar com o noivo e, depois, para fugir dos zumbis e buscar um lugar seguro.
Fugir e buscar. Fuga e busca. Eis as palavras-chaves do filme. No início, Élisabeth foge de seu passado na cidade grande e busca seu futuro (um futuro de felicidade) nas montanhas. Mais tarde, foge dos zumbis e busca um lugar seguro. Por fim, quando vê que seu noivo foi contaminado, toma consciência de que não há possibilidade de fuga, de que não há lugar seguro e de que, portanto, não existe futuro, felicidade ou salvação. Tânatos, a Morte, venceu.
Já que mencionamos Tânatos, há em Les Raisins de la Mort um personagem que o personifica de maneira perfeita. Esse personagem é o interpretado por Brigitte Lahaie, que se deleita com o caos e a destruição reinantes na aldeia. Porém, se Tânatos é representado geralmente como um vulto vestido de negro e com uma foice na mão (26), na fita ele se apresenta como uma loura esplendorosa vestida de branco (27). Talvez isso aconteça porque a loura também personifica uma das divindades primordiais, Eros, a virtude atrativa que leva as coisas a se juntarem, criando a vida. Assim, não é por acaso que a loura se livra de suas roupas e fica nua. Rollin desejava que ela deixasse à mostra duas partes do corpo feminino relacionadas com a geração e a manutenção da vida humana: o sexo e os seios. E, ao se matar, a loura mata também Tânatos e Eros. Mata a Morte e a Vida.
Por falar no personagem de Brigitte Lahaie, não podemos nos esquecer de que ele é um zumbi, ainda que não apresente nenhuma erupção em seu corpo de manequim (28).
Mas a loura e os demais zumbis de Les Raisins de la Mort são totalmente diferentes daqueles que aparecem em A Noite dos Mortos-Vivos ou qualquer outro filme de zumbis. Não são cadáveres putrefatos que retornam à vida e se movem apenas pelo instinto e pela fome de carne humana. São pessoas normais, bem vivas, que, contaminadas por um pesticida, desenvolvem uma raiva incontrolável, normalmente acompanhada de necroses cutâneas, que as impelem a matar. Ou seja, são pessoas doentes que perdem a razão e desejam somente matar e destruir. Porém, durante a doença, elas têm momentos de lucidez, que lhes possibilitam ter noção de seu estado patético e lembrar de seus atos monstruosos (é por isso que Lucien mata a própria filha e pede a Élisabeth que o mate).
E o trágico em Les Raisins de la Mort está justamente no fato de os zumbis terem resquícios de consciência e saberem o mal que estão praticando. É aí que está todo o horror, todo o terror da fita. E uma das sequências mais impressionantes, que parece saída de um dos pesadelos de Edgar Allan Poe (1809-1849), é a que mostra Lucas dizendo que ama Lucie enquanto lhe decepa a cabeça.



PALAVRAS FINAIS

A obra de Jean Rollin é desprezada, subestimada e malentendida.
Tudo porque o cineasta nunca realizou – e nunca pretendeu realizar – filmes convencionais. nunca quis contar uma história à maneira como são contadas as histórias nos filmes hollywoodianos. Nunca deu importância para a lógica cartesiana ou a verossimilhança. O que lhe importava, na realidade, era criar imagens. Imagens com um quê de diferente, estranho, mágico. Imagens fortes, inquietantes e impactantes, que não se esquecem jamais. Imagens que mesclam romantismo, erotismo, mistério e uma atmosfera macabra. Imagens nas quais se destacam figuras femininas que são, a um só tempo, etéreas e carnais. Imagens em que chegamos a vislumbrar o sublime.
Portanto, recomendamos a todos aqueles que não estão acostumados ao estilo “rolliniano” de narrar uma história e desejam ver uma fita de Horror/Terror adulta e diferente das bobagens atuais feitas em Hollywood que assistam a Les Raisins de la Mort. É a fita mais convencional e acessível (29) de Jean Rollin. E nela estão presentes algumas das principais características dos filmes do diretor: a protagonista surpreendida a todo instante por eventos sobre os quais não tem o menor controle, uma atmosfera de pesadelo, acontecimentos surrealistas e absurdos (pode haver um acontecimento mais surrealista e absurdo do que um trem ocupado apenas por duas passageiras ou uma jovem cega vagando por um local ermo?), longas sequências sem diálogos (30), preferência por lugares desertos, uso frequente de primeiros e primeiríssimos planos, o final que deixa claro que não há esperança ou possibilidade de fuga...
E temos a certeza de que, após assistirem a Les Raisins de la Mort, irão procurar ver outras fitas de Jean Rollin. Porque o filme desperta no espectador o desejo de “quero mais”.

“Em Les Raisins de la Mort, Jean Rollin faz excelente uso das paisagens rurais do interior da França, levando Élisabeth a centenários casarões de pedras em ruínas, videiras secas e enormes campinas sem qualquer sinal de vida humana, o que ajuda a provocar uma sensação de claustrofobia e de fuga impossível, mesmo quando as cenas acontecem a céu aberto
Os espectadores vão ficar sem palavras, diante de imagens belíssinmas, que parecem saídas de uma pintura, como a da pobre Élisabeth cruzando uma velha ponte de trilhos durante um nevoeiro ou a da garota cega sendo rodeada por uma horda de silenciosos infectados.”

Felipe M. Guerra



NOTAS:

(1) Dentre esses filmes, merece ser citado Epidemia de Zumbis (The Plague of the Zombies, 1966), dirigido por John Gilling e produzido pela Hammer, a mais importante produtora inglesa de fitas dos gêneros Fantástico e Horror/Terror.
Uma curiosidade: Epidemia de Zumbis foi adaptada em 1969 para os quadrinhos por Paulo I. Fukue. E essa história em quadrinhos, intitulada “A Epidemia dos Zombies” foi publicada pela Editora Edrel no primeiro número (datado de outubro de 1969) da revista Estórias Adultas – Gibi Moderno e republicada, também pela Editora Edrel, no número 14 (datado de junho de 1972) da Revista de Terror. Mais recentemente, em 2012, ela apareceu no álbum Zumbis e Outras Criaturas das Trevas, da Editora Kalaco.

(2) Segundo Ernest Mathis, que dá aulas sobre Cinema na Universidade de Gales, A Noite dos Mortos-Vivos foi o filme de Terror que “definiu um novo padrão para o gênero na segunda metade do século XX, deslocando as narrativas das antiquadas convenções góticas do gênero e trazendo-as para a luz fria e impiedosa do presente. (...), com seu estilo seco, quase documental, aborda questões que preocupavam os norte-americanos no final dos anos 1960: distúrbios civis, racismo, o colapso do núcleo familiar, o medo das massas e o próprio Dia do Juízo Final. Tudo é incerto, e o bem nem sempre triunfa” [Steven Jay Schneider (organizador), 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer (1001 Movies You Must See Before You Die), edição revista e atualizada, tradução de Carlos Irineu da Costa, Fabiano Morais & Lívia Almeida, Rio de Janeiro, Sextante, 2010, p. 496].

(3) Nascido em 1940, na cidade de Nova York, George A. Romero é um especialista em filmes de zumbis.
Outro especialista em fitas de zumbis foi o italiano Lucio Fulci (1927-1996).

(4) Não vimos Les Pays Loins, e a única coisa que sabemos a seu respeito é que ele é do gênero Fantástico.

(5) Escrito em 1965, “Aujourd’Hui Gaston Leroux” foi publicado em duas partes, nos números 23 (datado do outono de 1970) e 24 (datado do inverno de 1970-1971) da revista Midi-Minuit Fantastique.

(6) A respeito de Saga de Xam, que tem 112 páginas e é composta de sete episódios, o jornalista gaúcho Goida disse o seguinte: “Em Saga de Xam, há técnicas de colagem, utilização de ideogramas, imagens de arte oriental, tudo misturado com um erotismo ditado pela nudez de suas mulheres azuis, amarelas e às vezes vermelhas. A técnica de desenho de Nicolas Devil varia de página para página; e a narrativa não é fácil de acompanhar, pelo excesso de texto (embora haja algumas sequências completamente sem balões).” (Enciclopédia dos Quadrinhos, Porto Alegre, L&PM, primavera de 1990, p. 100).

(7) Le Viol du Vampire, cuja estreia nos cinemas parisienses ocorreu em 27 de maio de 1968, não caiu no gosto do grande público nem da crítica (o jornal Le Parisien Libéré escreveu que o filme tinha sido feito “por amadores desocupados e sem talento”; o Le Figaro foi ainda mais contundente, dizendo que fora realizado “por um grupo de bêbados, provavelmente estudantes de Medicina. É uma piada”). Diante disso, Jean Rollin pensou em abandonar o Cinema. Felizmente, tal coisa não aconteceu; do contrário, algumas das mais belas cenas já mostradas numa fita de Horror/Terror não teriam sido feitas.

“As pessoas ficaram furiosas, quando viram Le Viol du Vampire. No Pigalle, atiraram coisas na tela. A principal razão para agirem assim foi que ninguém entendeu a história. Aliás, acharam que não havia uma história. Mas há uma história. Eu juro! Agora, após tanto tempo, chego à conclusão de que o público esperava que o filme fosse um filme de vampiro na tradição dos filmes de vampiro da Hammer. E Le Viol du Vampire perturbou a ideia clássica que as pessoas têm do que uma fita deve ser.”
Jean Rollin, numa entrevista dada em 2001

(8) Antes de Le Viol du Vampire, haviam sido realizados na França apenas três filmes de vampiros: O Vampiro (Vampyr, 1932; direção de Carl Dreyer; uma coprodução francesa e alemã), Rosas de Sangue (Et Mourir de Plaisir, 1960; direção de Roger Vadim; uma coprodução francesa e italiana) e Fantasmagorie (1962; direção de Patrice Molinard).

(9) Entre 12 e 18 de outubro de 2012, o Cine Olido, localizado na Avenida São João, no centro de São Paulo, fez uma retrospectiva da obra de Jean Rollin. Foram, então, exibidos dez filmes do diretor (quase todos inéditos nos cinemas brasileiros): A Vampira Nua (La Vampire Nue), A Loucura do Vampiro (Le Frisson des Vampires), As Demoníacas (Les Démoniaques, 1974), Lábios de Sangue (Lèvres de Sang), O Castelo das Vampiras (Fascination), A Morta-Viva (La Morte Vivante), Perdidas em Nova York (Perdues dans New York, 1989; feito para a TV), Killing Car (La Femme Dangereuse, 1993), As Vampiras Órfãs (Les Deux Orphelines Vampires) e A Noiva de Drácula (La Fiancée de Dracula).
Uma informação adicional: diversas fitas de Jean Rollin, inclusive Les Raisins de la Mort, estão disponíveis para serem assistidas de graça na internet. E muitas delas têm legendas em Português.

(10) Jean Rollin dirigiu esses filmes pornográficos (normalmente, as filmagens desses filmes duravam dois dias) somente para ganhar dinheiro e assinou-os com pseudônimos (Michel Gentil, Michel Gand, Robert Xavier e René Xavier). Há, no entanto, uma fita pornô, Phantasmes, que assinou com seu nome e na qual procurou contar uma história e obter uma atuação decente dos atores. Infelizmente, o resultado não surtiu o efeito desejado; e o filme não agradou. Jean Rollin se esquecera de uma coisa importante: o público desse tipo de fita não está interessado em história ou boas interpretações, tudo o que deseja é ver a maior quantidade (e variedade) de cenas de sexo e nada mais.

(11) Além de escrever o roteiro, Jean Rollin também codirigiu o filme. Entretanto, nos créditos só aparece o nome do outro codiretor, Bruno Zincone.

(12) Simone Rollin trabalhou no último filme de Jean Rollin, Le Masque de la Méduse (2010), interpretando o papel de Medusa.

(13) Segundo Laurent Akin, Jean Rollin é “um dos raros poetas do cinema francês” [Christian-Marc Bosséno & Yannick Dehée (organizadores), Dictionnaire du Cinéma Populaire des Origines à Nos Jours, Paris, Nouveau Monde, 2004, verbete sobre Jean Rollin].

(14) Num período de aproximadamente dois anos, Jean Rollin dirigiu sete fitas pornográficas: Suce Moi Vampire (1976; uma versão pornô de Lèvres de Sang), Douces Pénétrations (1976), La Comtesse Ixe (1976), Hard Penetration (1977), Vibrations Sexuelles, Saute-Moi Dessus (1977) e Positions Danoises (1977). Também foi um dos roteiristas de outro filme pornô: Amours Collectives (1976), dirigido por Jean-Pierre Bouxyou.

(15) Marie-Georges Pascal (nascida Marie-Georges Charlotte Faisy), que nos créditos de Les Raisins de la Mort, aparece como Marie George Pascal, nasceu em 2 de outubro de 1946, em Cambrai, no norte da França.
Com dezesseis anos de idade, tornou-se modelo.
Em 1970, deu início à sua carreira de atriz cinematográfica, participando de Les Petites Filles Modèles, uma comédia erótica dirigida por Jean-Claude Roy e baseada num romance infantil escrito pela Condessa de Ségur (1799-1874) e publicado em 1858.
Trabalhou também no teatro e na televisão.
Suicidou-se em 9 de novembro de 1985, em Paris.

(16) Nos créditos de Les Raisins de la Mort, Lahaie está escrito com “y”, em vez de “i”.

(17) Brigitte Lahaie foi escolhida para trabalhar (na verdade, ela seria a estrela) numa sexta fita dirigida por Jean Rollin: Bestiality. Tendo como tema a licantropia, Bestiality deveria ter sido realizada em 1985; porém, por motivos que desconhecemos, acabou não sendo feita.

(18) Posteriormente, Évelyne Thomas trabalharia em outro filme de Jean Rollin, Fascination.

(19) Nos créditos de Phantasmes, Évelyne Thomas aparece com o nome de Mylène d’Antès.

(20) Outra razão que talvez tenha contribuído para proporem que a exibição de Les Raisins de la Mort ficasse restrita aos cinemas que exibiam filmes de sexo explícito tenha sido a presença de Brigitte Lahaie na fita.

(21) Possivelmente, Les Raisins de la Mort fez sucesso porque tem uma história bem fácil de ser entendida pelo grande público, ao contrário de outras fitas do diretor (exemplos: Le Viol du Vampire e La Rose Fer), nas quais praticamente não há uma história (esses filmes são, sim, um conjunto de imagens).

(22) Nos Estados Unidos, Les Raisins de la Mort foi lançado pela primeira vez em DVD em abril de 2002 pela Synapse Films. Já no Reino Unido, ele apareceu em DVD em maio de 2005, num lançamento da Redemption Films.
Uma informação complementar: em abril de 2013, a Redemption Films lançou nos Estados Unidos e no Canadá um Blu-ray do filme.

(23) Na França, Les Raisins de la Mort foi lançado em DVD em 2004. Antes disso, a fita já havia sido lançada diversas vezes em VHS. A primeira vez foi no começo dos anos 1980; e a última, em 1996, pela companhia Film Office, na coleção Collectorror, que reuniu todos os filmes dos gêneros Fantástico e Horror/Terror que Jean Rollin tinha realizado até então.

(24) Em 2001, numa entrevista à revista Necronomicon, Jean Rollin afirmou que, quando criança, assistia todas as quartas-feiras, após a escola, a seriados como A Legião do Zorro (Zorro’s Fighting Legion, 1939), Misterioso Dr. Satan (Mysterious Dr. Satan, 1940) e Dragão Negro (G-Men vs. the Black Dragon, 1943). Possivelmente, ao escrever o roteiro de Les Raisins de la Mort, ele se lembrou desses seriados e decidiu fazer uma fita de episódios.

(25) Paulina Marvin é a heroína do mais famoso seriado do cinema mudo: Os Perigos de Paulina (The Perils of Pauline), realizado em 1914 e estrelado pela ruiva e graciosa Pearl White (1889-1938).

(26) Em Fascination, Tânatos está representado dessa forma, na sequência em que a personagem de Brigitte Lahaie aparece vestida de preto e mata com uma segadeira um grupo de salteadores.

(27) Uma das mais belas cenas de Les Raisins de la Mort é a que mostra Brigitte Lahaie em seu vestido branco, no alto de uma escadaria, acompanhada de dois cachorros enormes.

(28) No artigo “Os Cadáveres da Memória”, escrito em junho de 2012 e que pode ser encontrado na internet, Ranieri Brandão chamou Brigitte Lahaie de “o mais lindo de todos os manequins” de Jean Rollin.

(29) Jean Rollin considerava Les Raisins de Mort “sua primeira produção tradicional, quase convencional”.

(30) Nessas sequências, há uma multiplicação de ruídos, que se tornam mais intensos.



Les Raisins de la Mort
Produção: Claude Guedj & Jean-Marc Ghanassia
Direção: Jean Rollin
Argumento: Jean-Pierre Bouyxou & Jean Rollin
Roteiro: Christian Meunier & Jean Rollin
Fotografia: Claude Becognée
Montagem: Christian Stoianovich & Dominique Saintcyr
Maquiagem e Efeitos Especiais: Alfredo Tiberi, Raphael Marongiu & Yannick Josse
Elenco: Marie-Georges Pascal (Élisabeth)
Félix Marten (Paul)
Serge Marquand (Lucien)
Mirella Rancelot (Lucie)
Patrice Valota (François)
Patricia Cartier (Antoinette)
Michel Herval (Michael)
Paul Bisciglia (Lucas)
Brigitte Lahaie (loura da aldeia)
Olivier Rollin (rapaz com a testa em decomposição)
François Pascal (Kowalski)
Évelyne Thomas (Brigitte)
Jean-Pierre Bouyxou (zumbi com a foice)
Jean Rollin (empregado da vinícola)
Tempo de Projeção: 90 minutos
Data de Lançamento (França): 5 de julho de 1978