Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

UM JANTAR COM DRIFTWOOD
(excerto do roteiro de Uma Noite Na Ópera)
George S. Kaufman & Morrie Ryskind
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



SEQÜÊNCIA 1 – RESTAURANTE – INTERIOR – NOITE
A sra. Claypool está sentada a uma mesa. Na mesa ao lado, está Otis B. Diftwood (ele e a sra. Claypool estão de costas um para o outro), com uma jovem loura, que ri a todo momento.
Sra. Claypool: Mensageiro!
Mensageiro (aproximando-se da mesa e fazendo uma mesura): Sim, senhora?
Sra. Claypool: Poderia chamar o sr. Driftwood? Sr. Otis B. Driftwood.
Mensageiro: Chamando o sr. Driftwood. Sr. Driftwood. Sr. Driftwood! Sr. Driftwood!
Driftwood: Rapaz!
O mensageiro aproxima-se da mesa de Driftwood.
Driftwood: Poderia fazer o favor de parar de gritar o meu nome por todo o restaurante? Você está me vendo berrar seu nome por aí?
Sra. Claypool (olhando irritada para Driftwood): Sr. Driftwood!
Driftwood (de pé e encarando o mensageiro): Escute, sua voz mudou... ou alguém mais está me chamando?
Driftwood senta novamente.
Sra. Claypool: Sr. Driftwood...
Driftwood (virando-se na cadeira e vendo a sra. Claypool): Oh, sra. Claypool! Olááá!
Sra. Claypool (com ar altivo): Sr. Driftwood, convidou-me para jantar com o senhor às sete horas da noite. Já são oito horas; e, até agora, nada de jantar.
Driftwood: Que quer dizer com “nada de jantar”? Acabei de fazer uma das melhores refeições da minha vida. E não foi graças a você!
Sra. Claypool: Estou sentada aqui desde as sete horas da noite...
Driftwood: Sim, de costas para mim. Quando convido uma mulher para jantar, espero que ela olhe para o meu rosto. Esse é o preço que ela tem de pagar!
Um garçom aproxima-se da mesa de Driftwood.
Garçom (entregando um papel a Driftwood): Sua conta, senhor.
Driftwood (dando uma olhada na conta e estendendo-a para a loura): Nove dólares e quarenta centavos?! É uma afronta! Se eu fosse você, não pagaria isso!
Driftwood senta-se à mesa da sra. Claypool.
Driftwood: E então, sra. Claypool, o que iremos jantar?
Sra. Claypool: Você já jantou!
Driftwood: Muito bem... Nesse caso, vamos tomar o café da manhã, Garçom!
Garçom (aproximando-se): Sim, senhor?
Driftwood: Tem galinha ao leite?
Garçom: Sim, senhor.
Driftwood: Esprema o leite de uma e traga-me um copo.
Garçom: Sim, senhor.
Sra. Claypool: Sr. Driftwood, há três meses você me prometeu introduzir-me na sociedade. Até agora, tudo que fez foi receber um belo salário.
Driftwood: E acha pouco? Sabe quantos homens recebem, nos dias de hoje, um belo salário? Dá para contar nos dedos de uma mão, minha boa mulher.
Sra. Claypool: Não sou sua “boa mulher”!
Driftwood: Não diga isso, sra. Claypool. Seu passado não me interessa. Para mim, você será sempre “minha boa mulher”, porque a amo. Eu não queria dizer-lhe, mas você me obrigou. Amo-a.
Sra. Claypool: É muito difícil de acreditar nisso, depois de vê-lo jantando com outra mulher.
Driftwood: Aquela mulher? Sabe por que me sentei com ela?
Sra. Driftwood: Não...
Driftwood: Porque ela me lembra você.
Sra. Claypool (sorrindo, lisonjeada): Mesmo?!
Driftwood: Claro! Por isso estou sentado aqui com você. Porque você me lembra você. Seus olhos, sua garganta, seus lábios... Tudo em você me lembra você, exceto você. Que acha disso? Se responder, é esperta.
Sra. Claypool: Penso que é melhor mantermos apenas um relacionamento de negócios.
Driftwood: Deseja isso? Toda vez que me mostro romântico com você, quer falar de negócios. Não sei o que é, mas tem alguma coisa em mim que desperta negócios nas mulheres...