Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

UMA NOITE NA ÓPERA
Cintra Ferreira



“Nunca acabaríamos de citar as gags encadeadas por esta exaltação fantasiosa em que a gratuidade do gesto e uma espontaneidade saída da commedia dell’arte pulverizam tudo (...) com uma liberdade mais escandalosa que despropositada.”
Jean Mitry

 

Falar sobre os Irmãos Marx é, obrigatoriamente, falar sobre o cinema cômico americano. Isso porque eles representam a confluência onde se juntam todas as veias da farsa, o ponto onde algumas das suas tendências (...) se transformaram e enriqueceram, ganhando novo impulso.
Em 1929, quando os Marxes fizeram o seu primeiro filme, No Hotel da Fuzarca (The Cocoanuts), adaptado de uma revista de sucesso (interpretada por eles próprios), o advento do sonoro fizera estremecer muitos cineastas, que viam no novo processo uma ameaça às posições que tinham conquistado. Se muitos, após a primeira dúvida e o primeiro ataque, souberam aproveitar o que de novo lhes surgia e elevaram-se a alturas maiores, provando que o artista sabe apropriar-se do progresso da ciência e da técnica em seu proveito, outros estavam liquidados, em virtude do seu apego a formas que estavam condenadas (...). Estão no primeiro caso Eisenstein, Renoir e Chaplin. No segundo, toda a escola expressionista alemã e, em parte, o cinema cômico americano, que seria a grande (e necessária) vítima para o incremento da arte cinematográfica.
Quando surgem os Irmãos Marx, a decadência de Buster Keaton, Harry Langdon e outros cômicos saltava à vista, assim como o desaparecimento dos métodos de Mack Sennett. Surge com os Marxes um novo estilo de comédia em que a imagem, até então primordial, se alia de maneira notável ao diálogo, que em obras de outros gêneros aparece em grande quantidade e de maneira cansativa. À perfeita construção da gag visual, herança dos pioneiros do cinema mudo, junta-se o efeito de um diálogo que toca as raias do absurdo. Os mitos e as construções semânticas tradicionais perdem todo o valor, rebentam; e, nessa explosão do ridículo, numa palavra ou numa frase destroem-se e atacam-se mitologias e tabus duma civilização. Os Irmãos Marx surgem, assim, como os primeiros grandes cômicos do cinema sonoro.
Concessão lógica e inevitável dum período de experimentação e de exploração do som: a introdução de números musicais muitas vezes deslocados no conjunto do filme, quer seja um dos seus mais notáveis [Os Quatro Batutas (Monkey Business, 1931)] ou do período da decadência (Uma Noite na Ópera).
Falamos de decadência. Diríamos melhor: transformação, pois trata-se agora do mesmo que no princípio. Decadência dum artista e transformação da arte. Esta vai adquirindo formas novas incompatíveis com um estilo estático, a que os Irmãos Marx se condenavam. O diálogo torna-se mais refinado; e a música, usada, até então, experimentalmente, ia iniciar a sua arrancada no Cinema. A comédia musical vai ofuscar por algum tempo a farsa, até ser, por sua vez, ultrapassada.
Uma Noite na Ópera... obra decadente? É certo, em grande parte. Mas convém analisar o porquê da decadência.
Os Irmãos Marx, além de artistas, eram peças duma engrenagem chamada M. G. M., isto é, Money, God, Moral (Dinheiro, Deus, Moral), trilogia bem americana, especializada em explorar a arte cinematográfica e de extrair a última pepita do que lhe apareça como um filão. E os Marxes eram um filão. A sua novidade e o sentido do ridículo com que apresentavam os graúdos (ver, em Uma Noite na Ópera, a  aparição dos três famosos aviadores russos e a dama milionária terrivelmente ridicularizada) caíram no gosto popular. Desse modo, obrigadas a satisfazer os interesses da companhia, as gags e caricaturas começam a repetir-se. Com a repetição dos mesmo esquemas, o que de novo surgia e fez a curva ascendente, que vai de No Hotel da Fuzarca a O Diabo a Quatro (Duck Soup, 1933), provoca o declínio, iniciado com Uma Noite na Ópera. Declínio que se deve aos interesses do capital sobre a arte, cortando assim a inspiração necessária a novas experiências.
Não é novidade que o capitalismo não é capaz de, por si, renovar e criar; antes, aproveita-se das obras dos seus adversários, para delas tirar lucro. É nesse contexto que se deve compreender a dita decadência dos Marxes, em Uma Noite na Ópera, bem como a de outras figuras exploradas e destruídas pelos interesses dessa fábrica de ilusões chamada Hollywood.

 

Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935, 92')
Direção: Sam Wood
Roteiro: George S. Kaufman & Morrie Ryskind, baseando-se numa história de James Kevin McGuiness
Elenco: Groucho Marx (Otis B. Driftwood), Chico Marx (Fiorello), Harpo Marx (Tomasso), Margaret Dumont (sra. Claypool), Siegfried Rumann (Herman Gottlieb), Kitty Carlisle (Rosa Castaldi), Allan Jones (Riccardo Baroni), Walter Woolf King (Rodolfo Lassparri), Edward Keane, Robert Emmett O’Connor, Purnell Pratt
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Warner

 

Esta crítica foi transcrita do Programa de julho de 1969 do Cineclube Imagem, de Lisboa