Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

UMA NOITE NA ÓPERA
Pauline Kael



Os Irmãos Marx às vezes diziam que este era seu melhor filme; não é, mas foi o maior sucesso deles. Dois alvos americanos lindamente emproados – a grande ópera e a alta sociedade – são desmantelados, drapejando como espantalhos. (Quem algum dia conseguiu ouvir Il Trovatore de cara séria jamais poderá voltar a fazê-lo.) Muitos autores tentaram analisar o humor dos Irmãos Marx, produzindo pequenas monografias sobre “pensamento dissociado”, “protesto social disfarçado” ou “commedia dell’arte”. É só pensar muito, que a sanidade mental, como uma folha de alface, começa a murchar e dobrar nas bordas. Os Irmãos Marx continuam a revirar recantos que gostaríamos de não saber que estão lá. E, enquanto tentamos descobrir o conteúdo de falas como esta de Groucho: “Seu valentão, por que está batendo nesse valentinho?”, perdemos a série de disparates que se amontoam em cima delas. George S. Kaufman e Morrie Ryskind escreveram o roteiro, baseado numa história de James Kevin McGuinness, com material extra de Al Boasberg; Sam Wood dirigiu. O elenco inclui a perene grande dama innamorata  de Groucho, Margaret Dumont, a mais pomposa dos patetas (sua viúva de sorriso afetado parece mais uma derivação cômica de Edna Purviance nos filmes de Chaplin). Há também os namorados cantores, Kitty Carlisle e Allan Jones, os quais Irving Thalberg, produtor e mestre diagnosticador do gosto popular, introduz para que as pessoas (que pessoas?) “se identificassem com eles”; e o cruel vilão, Walter Woolf King. (Por mais incrível que pareça, o melodrama romântico banal que de vez em quando destroça o filme revelou-se válido na bilheteria.) Esta comédia tem uma seqüência clássica: a cena do camarote, considerada por muitos como os cinco minutos mais engraçados da História do Cinema. Faz-nos agüentar os duetos pavorosos.



Este texto foi transcrito do livro 1001 Noites no Cinema (5001 Nights at the Movies, tradução de Marcos Santarrita & Alda Porto, seleção de Sérgio Augusto, São Paulo, Companhia das Letras, 1994, pp. 349-350), de Pauline Kael