Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

ROSAS VERMELHAS PARA UMA DAMA TRISTE
R. F. Lucchetti



CAPÍTULO ONZE
O BIOMBO CHINÊS

Acredito no amor,
e as coisas do amor
estão orando o tempo todo.
Do Diário de Clara


“Uma hora.
Jarrod ainda não voltou.
Gostaria de beber uma xícara de café forte, mas estou muito cansada. Devíamos ter uma empregada, que nos servisse até a meia-noite. Isso, entretanto, seria aborrecido para mim.
Infelizmente, não gosto de álcool. Sinto não ter coragem para beber e mergulhar na embriaguez. Seria bom para esquecer.
Há algum tempo que venho tendo medo não sei de quê, um terror vago que me domina por completo. Sinto qualquer coisa adejar sobre mim. Não é pressentimento, pois não acredito nisso.
Tentei ler os poemas de Rupert Brooke. Esses versos me deixaram uma impressão de sinistro cansaço. Vi a fotografia desse rapaz, cheio de vida, morto na guerra.
Levantei-me para olhar pela janela de meu quarto. Chovia. Acredito que chove sempre. As luzes são abafadas pela chuva...
Se tivesse impedido que os homens me amassem, teria feito de meus dias um poema mais belo?
Tenho amantes demais. Isso não tem impedido que cada qual se julgue o primeiro... Os homens são tão vaidosos! É o que explica a facilidade com que as mulheres se fazem aceitar como esposas.
Sinto não ter casado...
Que barulho foi esse?
Estou nervosa. Tenho a sensação de uma presença, aqui no quarto, a meu lado.
Cheguei a detestar a presença de Jarrod, embora sentindo-lhe a ausência...
Sobre a mesa vejo o livro de versos latinos que William Collison me mandou a semana passada. Um volume esmagador. Pobre rapaz! Que será feito dele? Disse-me que ia viajar por um mês. Ainda será meu último amante. Acredito que me mate, por questão de ciúme. A menos que eu esteja velha demais para enganá-lo.
Pensamentos de uma hora da manhã. Um prelúdio bem triste...
Gostaria que Jarrod voltasse, fizesse uma cena, ameaçasse estrangular-me... Qualquer coisa, menos ficar sozinha... Se tivesse adivinhado que ele ia ficar zangado feito um menino, teria mandado Jasper Braddock subir.
Outra vez esse barulho, como se alguém estivesse atrás da porta!
Mas há luz no
living, e a porta da frente está fechada. Jarrod tem a chave; porém, é tão estúpido que sempre ouço quando ele entra.
Pergunto a mim própria se não teriam roubado minha chave para fazerem uma cópia.
É preciso ir ver Conry amanhã. Desejo acabar de uma vez com esse negócio de testamento.
Deixarei minhas coleções a Gail Marvin. É a única mulher que conheço que conseguiu sobreviver a três casamentos consecutivos... Deixarei, também, alguns milhares de dólares a essa mulherzinha que se chama Marta Raspone, recomendando-lhe que complete a educação do marido. Uma lembrança minha...
Penso devolver as cartas de Jasper Braddock e, também, o documento que me deu para guardar. São planos militares que roubou na Itália, quando serviu algum tempo na Embaixada. Um muro e doze balas, se tivesse sido descoberto. Ele sabia disso, mas valia a pena arriscar. Foi generosamente pago. Tal como Circe, eu o mantenho num temor perpétuo. Confesso que isso constitui um ótimo esporte. Ele sempre me dá dinheiro e não é exigente. Um beijo de vez em quando e só. De resto, em sua idade... Morei vários anos na
villa que possui na Itália.
Duas horas...
Tornei a deitar-me, depois de ter ido ver se realmente havia alguém no
living. A lâmpada está sempre sobre a mesa, perto da lareira, ali onde a deixei acesa. Essa lâmpada horrível, que não me decido a quebrar e que espalha uma luz avermelhada... Sangue dentro do nevoeiro...
Ouvi novamente qualquer coisa no
living. Um rumor de passos. Mas... não é possível! Não há pessoa alguma ali...
Abri, há pouco, a gaveta da mesinha de cabeceira para procurar cigarros. Encontrei este curioso colar feito de moedas de ouro. Um presente dado no Natal por William. Esta joia me faz rir. Sempre a detestei. Chama-se
‘colar do amor’. As moedas sujam os dedos, de tão velhas que são. Todas elas trazem a inscrição latina: Amor esto perpetuus. Pensamento absurdo e injusto. Como se o amor de uma mulher pudesse durar eternamente...
Atirei a quinquilharia aos pés da cama.
Outra vez o mesmo barulho!
Tomei coragem, levantei-me, saí do quarto, atravessei o
living e abri a porta da frente. Pensava encontrar, no corredor, Jarrod com o rosto entre as mãos. Isso foi na semana passada, depois de repetidas ligações da parte dele. Quando me viu, olhou-me com os olhos cheios de lágrimas e pediu para entrar...
Vi o sr. Dawson sair do elevador. Vinha acompanhado de uma mulher. Não é casado nem incomoda pessoa alguma. Creio que minha presença ali o contrariou... Sua conquista, uma pequena pálida, de pernas bem torneadas e olhos negros, ficou surpresa, quando me viu. Devia ter pensado que eu criticava sua presença ali.
Pobre sr. Dawson! Tipo perfeito do velho cavalheiro, consolador de velhas coristas e viúvas solitárias.
Que tolice não ter um revólver... Ocorreu-me a ideia de que é muito fácil uma pessoa esconder-se atrás de um biombo chinês...”


Gilbert Lane fechou indolentemente o livro e brincou com a fita de seda. Estava olhando para Marta Raspone.
Becker a observava igualmente, com um ar de desconfiança na ponta do seu queixo de buldogue.
Dei uma olhadela no homenzinho calvo, o sr. Dawson, que não se movia em seu assento. Parecia um animal assustado, demasiadamente assustado para fugir...
Aquela srta. Ellis não tirava os olhos de Clara Carlini. Talvez estivesse pensando no fim do amor...
Gilbert Lane falou:
– Sra. Raspone, este diário nos fala de uma curiosa apreensão que se assenhoreou da srta. Carlini, às duas horas da manhã do dia 9 de maio. Ela teve a sensação de que havia alguém, uma pessoa escondida, talvez atrás do biombo, daquele biombo cheio de dragões de olhos avermelhados... Saiu do quarto e, quando chegou nesta sala, viu qualquer coisa ou alguém. Seus dedos devem ter apertado a caneta, cheia de tinta violeta, a mesma tinta que costumava usar para redigir suas memórias. Deve ter ficado assustada com o que viu, porque deixou cair a caneta. Se tivesse tempo, poderia mostrar uma pequena mancha violeta, no tapete... Sra. Raspone, a senhora se achava atrás daquele biombo, quando a srta. Carlini entrou?
Marta Raspone soltou um suspiro e se ergueu da cadeira. Seus nervos, à flor da pele, fizeram-na tremer qual folha ao vento. Olhou para Lane, com os olhos fora das órbitas, e exclamou:
– Não! Não estava aqui! Vim apenas uma vez, na tarde do dia 8. Não voltei...
Pude ler estas palavras nos lábios trêmulos de Jarrod Raspone: “A maldição lhe caia sobre a cabeça!”
Não entendi se amaldiçoou Lane ou a mulher.
– Ah! – Fez Gilbert Lane, coçando o queixo. – Queira sentar-se...
Becker olhou-o, acendendo outro cigarro.
Dei graças a Deus por aquela janela estar aberta
– O senhor esteve aqui, escondido atrás daquele biombo, sr. Raspone? – Inquiriu Lane.
– Não! – Respondeu Raspone, com voz rouca. – Não! Só voltei às três e meia da manhã. Encontrei Clara lendo na cama. Havia grande quantidade de cartas espalhadas à sua volta.
– Bem... – Disse o detetive.
Seu olhar voltou-se para mim. Sustentei-o com toda a coragem.
– Sr. Collison, o senhor se achava aqui, atrás daquele biombo, quando a srta. Carlini entrou com a caneta-tinteiro na mão?
– Não! – Respondi. – Estava ausente de Nova York. No dia 7 de maio, cheguei das Bermudas ao meio-dia e, à noite, segui diretamente para uma casa que tenho em Stamford. Só vim à cidade no dia 10. Devo ter chegado às sete horas da manhã.
– Ah! – Fez Lane.
E sorriu de leve. Acreditei ouvi-lo respirar. Saberia o nome do assassino? Então, por que não acabava com aquela inquisição?
Braddock foi a nova vítima.
– Sr. Braddock, o senhor estava atrás daquele biombo, quando Clara Carlini entrou com a caneta-tinteiro na mão?
Pálido, os olhos chamejantes, Jasper Braddock falou com voz pausada:
– Não vejo necessidade de continuar com esta comédia. O senhor deve saber de tudo. Sabe quem matou Clara Carlini... Para que nos faz perder tempo?
– Por que não responde à pergunta que lhe fiz? – Insistiu Lane. – Estou representando a lei, e o senhor é suspeito de ter cometido um crime.
– Sim, – confessou Jasper Braddock, – eu estava aqui às duas horas da manhã do dia 9 de maio. Escondi-me atrás daquele biombo, quando Clara entrou; mas ela conseguiu me ver e gritou. O senhor tem toda a razão. Ela trazia uma caneta-tinteiro na mão. Tenho uma chave do apartamento, chave essa que ela me deu. Estava, certamente, esquecida deste pormenor.
– Compreendo – disse Lane.
Sentou-se outra vez na ponta da mesa. Parecia cansado. Que horror usar a própria massa cinzenta na descoberta de criminosos!
– Bem... – Continuou. – Estou esperando sua história!
– Pois não – disse Jasper Braddock. – Pode ter a certeza de que tudo quanto vou lhe dizer é verídico. Tenho muita coisa para esconder, mas não o farei.
– Oh! – Exclamou amavelmente Lane. – Sua vida particular não me interessa. Trato de assassinos, nunca de traidores.
O olhar de Braddock cintilou, cheio de ódio e desprezo.
Gilbert Lane se limitou a balançar o pé... o pé calçado com uma meia azul.



CAPÍTULO DOZE
A MÃO DE LUVA PRETA

Queria falar-te docemente,
com todas as palavras que estão amadurecendo
no silêncio...
Do Diário de Clara


O inevitável silêncio, como se, reagindo ao seu primeiro gesto, Jasper Braddock quisesse voltar atrás.
Gilbert Lane sorria para ele. Um sorriso que não comprometia. Talvez estivesse lendo no coração daquele homem como num livro aberto... Era bem capaz disso...
Perguntei a mim mesmo, com indiferença, o que ele podia ler no meu...
“Quando acabar,” disse para mim mesmo, “quando todos tiverem falado, Lane apontará calmamente para um de nós. Esse será o assassino de Clara Carlini.”
Mas qual de nós?
– Devo falar do primeiro encontro que tivemos? – Perguntou Jasper Braddock.
– À vontade – respondeu Lane. – Se concorda, irei fazer-lhe algumas perguntas. Às vezes, é mais fácil responder do que contar uma história. Gosto das comparações. A subida de uma escada de caracol... em oposição a uma queda vertical de cima para baixo...
– Não compreendo bem – retrucou Braddock irritado.
– Nem eu  – falou Lane. – Há quanto tempo conhecia a srta. Carlini?
– Há dois anos, mais ou menos.
– Conheceu-a na Itália?
– Sim. Em fevereiro do ano retrasado.
– O senhor fala Latim?
– Um pouco.
– E lê?
– Corretamente.
– É italiano?
– Não. Meu pai era inglês e minha mãe italiana.
– Sua idade, sr. Braddock?
– Cinqüenta anos.
– Não parece.
– Obrigado.
– Sabe qual era a idade de Clara Carlini?
– Disse-me, há uns quatro meses, ter vinte e nove anos.
– Onde lhe disse isso?
– Aqui, nesta sala.
– Em presença de outras pessoas?
– Não, estávamos a sós.
– Sabia da sua ligação com Raspone?
– Não, só ouvi esse nome há poucas semanas.
– Morou alguma vez aqui... com ela?
– Nunca.
– Mas viveram juntos em outra parte, não é verdade?
– Sim, numa villa italiana.
– Suas relações eram, então, muito amistosas?
– Extremamente amistosas. Amava-a bastante. Não sou homem de aceitar qualquer uma por amante. Sou exigente no que diz respeito a mulheres.
– Tem bom gosto – disse Lane. – Ficou bem com ela, depois do idílio em terras italianas, não é exato?
– Sim.
– O sr. Raspone nos deu a entender que o senhor a temia.
– Nunca disse semelhante coisa! Isso é falso! – Raspone tinha se levantado e rugia como uma fera...
Marta Raspone deu um grito, enquanto o homenzinho calvo se aferrava ao assento.
– Sente-se! – Vociferou Becker.
– Tenha calma! – Ordenou Gilbert Lane.
– Nunca disse semelhante coisa! – Tornou a gritar Raspone.
– Queira sentar-se – pediu Lane. – Estamos perdendo tempo.
Raspone obedeceu e fez a cadeira gemer sob o peso do seu corpo. Estava ofegante.
A voz de Lane, vinda das profundezas do espaço, dizia:
– Sr. Bradock, é verdade que o senhor temia Clara Carlini?
– Sentia o receio natural de um homem diante de uma mulher que o chantageia.
– Quer dizer, então, que Clara Carlini sabia de certas coisas que o senhor desejava conservar em segredo?
– Sim, e não vale a pena dizer o que era.
– Como achar melhor.
– Não vale a pena, repito. As palavras supérfluas são como as pessoas ociosas, devem ser suprimidas.
Achei graça.
Lane sorriu também. Olhou para mim. Meu sorriso ficou gelado. Era horrível, quando ele olhava daquele modo! Em que estaria pensando? Em seguida, tirando o canivete do bolso do paletó, o detetive falou:
– Chegamos a esta conclusão, sr. Braddock: a srta. Carlini possuía documentos desonestos com os quais o ameaçava. Que ela queria?
– Dinheiro.
– Dinheiro? Somente isso?
– Sim, mais nada.
– Pense bem, sr. Braddock. Não tornarei a tocar no assunto. Desejo saber tudo. Fale agora. Depois, poderá ser tarde demais.
– Acabei de dizer a verdade. Pagava o silêncio dela sustentando-a.
– Muito bem – disse Lane. – O senhor a sustentava, e o sr. Raspone desempenhava o papel de amigo do coração.
– Sim – concordou Jasper Braddock. – Esse homem nunca foi capaz de ganhar um dólar.
– O senhor também o mantinha?
– É o que suponho.
– Tudo isto é muito feio, senhores – filosofou Lane. – Mas também a vida é feia; e o crime, pior ainda... O senhor, portanto, admite sua presença, aqui, às duas da manhã do dia 9 de maio?
– Sim.
– Mas Clara Carlini foi assassinada na manhã do dia 10.
– Foi o que me disseram.
– Que estava o senhor fazendo aqui no dia 9 de maio, às duas horas da manhã?
– Vim visitar o apartamento.
– À procura de alguma coisa?
– Sim.
– Que era?
– As cartas e documentos por mim subtraídos durante minha permanência na Itália.
– Documentos militares?
– Sim.
– O senhor os tinha confiado a ela?
– Sim. Podia ser fuzilado. Procurei salvar-me.
– E Clara Carlini não os devolveu, depois?
– Não.
– Onde estão agora? Sabe dizer?
– Não.
– Pois estão comigo, sr. Braddock.
– Com o senhor?
Jasper Braddock teve um estremecimento. Seus lábios se juntaram, cheios de nervosismo.
– Vão ser queimados – informou Lane. – Nada têm a ver com este país. O senhor matou Clara Carlini?
– Não... Devia ter feito isso, mas não o fiz... Deus é testemunha de que nunca tive coragem para fazê-lo!
– Queira falar-me da manhã de 9 de maio, sr. Braddock.
– Essa mulher tinha extorquido quase tudo quanto eu possuía. Resolvi pôr um fim nessa situação. Precisava acabar com seu poder sobre mim. Em outras palavras, precisava reaver aqueles documentos, aquelas cartas. Sabia que estavam escondidos aqui, neste apartamento. Telefonei à uma hora, mas não obtive resposta. Julguei, então, que tivesse saído. Cheguei, entrei e, com o ouvido alerta, percebi haver alguém no quarto. Escondi-me atrás do biombo e esperei algum tempo. Clara estava no quarto. Abriu a porta e atravessou a sala. Após ela voltar para o quarto, percebi a situação ridícula em que me achava e encaminhei-me para a porta... com a intenção de sair e de renunciar à busca. Quando, porém, cheguei à porta, ouvi um ruído na fechadura. Isso me obrigou a parar. Não sou homem medroso, mas confesso que um suor gelado me correu pelas costas, paralisando-me os movimentos. Vi a porta se abrir e uma grande mão aparecer...
Jasper Braddock fez uma pausa.
– Um sentimento estranho se apoderou de mim – prosseguiu ele, por fim. – Um asco por aquele homem que, de repente, me deu a impressão de um réptil.
Braddock tentava conduzir Gilbert Lane para uma pista falsa. Olhei para o detetive. O idiota cortava as unhas com o canivete. Os pedacinhos caíam no tapete...
Dawson continuava a respirar com força, como um rapazinho que estivesse ouvindo o desenrolar de uma história espantosa...
Ainda estávamos longe do fim.
Braddock estava inventando uma mentira abominável, para enganar a polícia... Para enganar Gilbert Lane.
– Viu alguém metendo a mão pela porta entreaberta? – Inquiriu o detetive.
– Sim, vi uma pessoa meter a mão pela porta – repetiu Braddock.
Maldito Jasper Braddock, por estar contra Jarrod Raspone! Raspone tinha o direito de entrar no apartamento como um ladrão. Tinha o direito de entrar ali com suas mãos, seu corpo e seu espírito torturado... Era o amante de Clara. Um amante ciumento pode sentir-se devorado pelo desejo de ir surpreender a mulher, saber se lhe é fiel...
Sujeito amaldiçoado aquele Braddock! Para que se metia no que não lhe dizia respeito? Para que torturar Raspone? O pobre homem já não tinha confessado? Não desejava expiar o crime? Lane tentava salvá-lo, apesar da sua pose de promotor público.
– Que aconteceu depois? – Indagou Lane.
– A mão ficou como que suspensa no ar – respondeu Jasper Braddock. – A porta estava apenas encostada, e não havia pessoa alguma. Somente aquela mão. Tinha uma luva preta. Uma luva com botões de pérolas brancas, que se destacavam como pontos luminosos na penumbra da sala. Havia apenas uma lâmpada acesa.
– Clara Carlini mencionou essa lâmpada – lembrou Lane.
– Sim, é aquela.
Jasper Braddock mostrou-a.
Observei atentamente Braddock. Aquele homem conseguira um belo resultado, ao inventar a história de um criminoso desconhecido abrindo a porta do apartamento de Clara. A assistência permanecia muda... imaginando estar na sombra de um cemitério, à meia-noite, entre fantasmas de luvas pretas.
– E depois? – Perguntou o detetive.
– Fiquei olhando aquela mão – foi a resposta de Braddock. – Estava, como acabei de dizer, suspensa no ar, completamente imóvel. Cheguei a ver o braço coberto, ao que me pareceu, por uma manga preta. Talvez tenha sido pura imaginação, mas reconheci uma capa escura.
“Esse indivíduo”, disse para mim mesmo, “deve ter lido Drácula. Está tentando fazer Gilbert Lane acreditar que Clara Carlini foi assassinada por um vampiro.”
– O homem entrou?  – Quis saber Lane.
– Não posso afirmar que era um homem. Mas o desconhecido não entrou. A porta continuou encostada. Qualquer  coisa na parede me chamou momentaneamente a atenção. Era minha própria sombra... projetada pela lâmpada. Compreendi que o intruso devia tê-la visto. Sabia, por conseguinte, que havia outra pessoa na sala. Meti a mão no bolso, pois trago sempre um revólver comigo. A mão desapareceu no mesmo instante, e a porta tornou a fechar-se. Houve um segundo de silêncio... Depois, Clara saiu do quarto...
Um grito de mulher interrompeu Braddock. Voltei-me. Ouvi um baque surdo...
O homenzinho calvo estava de pé, torcendo as mãos. A srta. Ellis voltava os olhos para o lado, espantada.
Vi Marta Raspone sem sentidos, no chão, perto da cadeira virada... Ela caíra como um vaso de flores por demais pesado.
Um senhor de fisionomia grave se levantou, tirou um estojo do bolso e, ajoelhando-se ao lado de Marta Raspone, deu-lhe algo para cheirar. Eu sabia que o tinha visto, há muito tempo... talvez ontem... chegando, com uma pasta preta na mão, ao apartamento de Clara. Era o médico-legista, o homem das autópsias.
Então, pensei:
“Jasper Braddock se salvou. A pessoa desconhecida deve ter sido Marta Raspone. Usou luvas pretas com botões brancos, para entrar no apartamento.”



CAPÍTULO TREZE
O DEPOIMENTO DE JASPER BRADDOCK

Amo o doce murmúrio,
as frases que não se completam.
Do Diário de Clara


Auxiliado por Gilbert Lane, o médico-legista levantou Marta Raspone. A mulher abriu vagarosamente os olhos e olhou em torno... como que despertando de grave operação.
Becker mordia o eterno cigarro, atrás da mesa. Era a imagem da preguiça. Nunca ajudava pessoa alguma. Não tinha o menor respeito pelas mulheres. Detestava o esforço físico. Havia, no entanto, uma suspeita em seu olhar.
Marta Raspone foi novamente instalada na cadeira. O médico e Lane ajudaram-na a sentar-se. Raspone deixou-se afundar no assento, como massa inerte. Deu-me a impressão de chumbo derretido caindo dentro d’água.
A seguir, as forças voltaram à mulher. Ergueu, o rosto branco como cal. Coisa curiosa: estava olhando para o marido, que a abandonara para seguir Carla Carlini.
Raspone olhava-a, também.
– Tenha a bondade de continuar, sr. Braddock – pediu Lane. – Estávamos no momento em que Clara Carlini entrou na sala.
Gilbert Lane aproximou-se de uma cadeira de molas, sentando-se. Devia estar cansado. Como podia fazer um interrogatório durante tanto tempo?
Uma atmosfera de receio incomodava os presentes.
“Braddock”, pensei “sabe que a mulher de Raspone veio para matar Clara Carlini na manhã de 9 de maio e fugiu, presa de medo. Depois, voltou na madrugada do dia seguinte...”
As mulheres são obstinadas. Nunca abandonam facilmente o projeto que têm em mente. A psicose do crime se apoderara de Marta Raspone. Devia saldar, com um gesto criminoso, sua dor de mulher ultrajada. Comportara-se como uma criança que deseja matar um passarinho com uma espingarda de brinquedo.
Senhor de si mesmo, Jasper Braddock tornou a fazer uso da palavra. Devia ter compreendido, afinal, o bem que a morte de Clara Carlini lhe fazia.
– Devo ter passado a cabeça pelo biombo, pois Clara me viu logo ao entrar. Soltou um grito abafado e deixou a caneta cair. Então, saí do esconderijo e lhe falei. Isso acalmou-a. Começou a rir como uma mulher histérica, com um riso sinistro e vago, que me fez estremecer. Eu continuava a pensar naquela mão, naquela luva preta...
– Com botões brancos – falei, em voz alta.
Não havia razão para tal aparte. Notei o olhar de desaprovação de Lane e murmurei:
– Queira desculpar... Fiquei perturbado com a história do sr. Braddock...
Vi os olhos de Marta Raspone – aqueles olhos cinzentos, melancólicos, de longos cílios negros – cravados em mim. Pareciam dizer : “Sou infeliz. Ela está morta. Espero que nunca descubram que a matei...”
– Continue, sr. Braddock – disse Gilbert Lane.
– Clara perguntou-me o que me havia levado a entrar ali como um ladrão e esconder-me atrás do biombo. Expliquei-lhe que desejava vê-la, conversar um pouco com ela. Acrescentei que, pouco depois de minha chegada, alguém tinha aberto a porta e que eu vira uma grande mão aparecer. Escondera-me atrás do biombo para ver o que ia acontecer. Não acreditou no que lhe falei. Convidou-me, não obstante, para sentar. Anunciou-me sua próxima partida para a Itália e perguntou se eu lhe poderia alugar minha villa. Pediu-me, também, cinco mil dólares. Respondi que no momento não dispunha de tal quantia. Em vez de ficar zangada, sorriu e passou o braço em torno do meu pescoço. Depois, falou: “Meu pobre velho! Eu lhe infernizei a vida, não foi? Pois vou reparar o que fiz. Vou empenhar algumas jóias e levá-lo para a Itália comigo.” Era uma mulher temperamental. Devo dizer que era uma das mulheres mais brilhantes que já conheci, admiravelmente dotada de uma áurea de sensualidade e idealismo. Não sei bem se a amei. Era fascinante! Exercia sua vontade imperiosa sobre muitos homens, ridicularizando-os... Voltemos, entretanto, ao que nos interessa... Falava comigo, com o braço em torno do meu pescoço. Nesse instante, Raspone entrou. Estava despenteado, sem chapéu e os sapatos sujos de lama. A primeira coisa que notei foi que trazia uma capa preta sobre os ombros...
– Viu se usava luvas pretas? – Indagou Lane.
– Não. Não usava luvas – respondeu Braddock.
– E que foi que ele disse, quando o viu com a srta. Carlini?
– Nada. Fechou a porta, encostando-se à mesa. A capa preta completamente encharcada... dava-lhe um aspecto de espantalho. Seu olhar pousou em Clara e, então, em mim. Sorriu. Nunca, até aquele momento, vi outro riso igual. Exclamou a seguir: “Você foi avisada de que a mataria... se a encontrasse em companhia de outro homem!”
– Tem certeza de que ouviu essas palavras? – Inquiriu Lane.
– Absoluta.
– É verdade, sr. Raspone?
– Não me lembro – disse o infeliz. – Desde que ele afirma...
– Não nega essa frase?
– Não.
– E depois, sr. Braddock?
– Ele girou sobre os calcanhares e saiu, fechando ruidosamente a porta atrás de si. Clara pediu que eu me retirasse também. Estava extremamente pálida e trêmula. Falei-lhe que era perigoso receber semelhante louco em casa. Ela me garantiu que não tinha medo dele e insistiu que me retirasse. Prometeu telefonar-me, caso fosse preciso. Saí e não mais tornei a vê-la com vida.
Vi um brilho de satisfação nos olhos de Gilbert Lane. Sua expressão fisionômica tinha mudado. Que teria deduzido da história de Jasper Braddock?
– Tenho motivos para acreditar que o senhor estava aqui, neste apartamento, na manhã do dia 10 de maio. Esteve no quarto de Clara Carlini. Acredito, também, ter sido o senhor a primeira pessoa a saber que ela estava morta.
Olhei para o detetive e, depois, para Jasper Braddock.
Todos se voltaram, igualmente, para ambos. Mas não pensavam no que eu supunha...
Jasper Braddock olhou insistentemente para Lane, sem revelar a menor surpresa ou contrariedade.
– Sim – concordou Braddock. – Devo ter sido o primeiro a saber do crime. No dia 9, depois que me despedi dela, voltei para casa e, antes de me deitar, estive fumando durante algum tempo. Sua atitude, sua proposta de me levar para a Itália, para a nossa antiga villa, deixou-me surpreso e comovido. Seu encanto operava maravilhas. Eu era uma libélula que voltava à chama que me chamuscava as asas. Às últimas horas da tarde do dia 9 de maio, arranjei dez mil dólares com um amigo que tinha motivos para ser agradável comigo. Sentia-me como um rapaz em véspera de uma grande aventura. Durante toda a noite de 9 de maio, telefonei, sem êxito, para este apartamento. Consegui comunicar-me com Clara às três e meia da manhã, isto é, no dia 10. Deu-me a entender que não podia falar comigo. Informei-a de que havia conseguido arranjar os dez mil dólares. Ela disse baixinho: “Raspone está aqui... fazendo uma cena. Venha às seis horas. Pode me acordar, se eu estiver sozinha.”
Fez uma ligeira pausa e continuou:
– Não me deitei. Saí do apartamento às cinco e meia e tomei um táxi. Devo ter chegado por volta de dez para as seis. Chamei, chamei, mas não obtive resposta. Esperei um instante e, depois, abri a porta com minha chave. A porta do quarto estava fechada... Bati... Nada. Chamei-a. Girei, então, a maçaneta e entrei. Ela estava deitada. Vestia uma camisola de nylon preta, que deixava totalmente à mostra, seu corpo de bonitas formas... Falei-lhe baixinho... Gritei... Senti como que uma bofetada no rosto, quando me aproximei... Tudo se tornou sombrio, e as paredes começaram a girar ao meu redor. Aqueles olhos abertos... Clara estava morta! Sabia que estava morta...
Um breve silêncio. Gilbert Lane brincava com uma caneta, como se fosse o mais extraordinário brinquedo do mundo. Jasper Braddock completou sua narrativa:
– Depois, o terror se apoderou de mim. Acovardei-me. Era um assassinato, não havia dúvida. Pensei em Raspone e, mais ainda, em mim próprio. Se fosse encontrado aqui, com aquelas cartas em seu poder... O senhor compreende minha situação, não é mesmo? Confesso minha covardia. Tive vontade de chorar, mas o instinto de conservação foi mais forte. Recuei, sem tirar os olhos dela. Experimentava a sensação de estar sendo visto por alguém escondido no quarto. Talvez uma testemunha que, mais tarde, me acusaria do crime. Vi a capa preta aos pés da cama. Fugi, sem que ninguém me visse. Quando, no entanto, atravessei o saguão, vi Raspone esperando o elevador. Não reparou em mim. Saí e fiquei calado sobre isso até agora.
Jasper Braddock escondeu o rosto entre as mãos. Estava soluçando. Percebi que tentava abafar os soluços. Um homem que se envergonhava de suas lágrimas, mas que, apesar de tudo, estava chorando.
“Este desgraçado”, pensei, “parece ter vindo do inferno.”
– É só, sr. Braddock? – Perguntou Lane.
É – respondeu o homem. – Deus é testemunha de que não a matei. Não teria sido capaz disso. Acabava de vender minha alma por dez mil dólares. Desejava levá-la para a Itália comigo.
Lane tirou o diário do bolso, brincou com a fita e, finalmente, colocou o volume no mesmo lugar. Seu olhar foi para a janela aberta, atrás de Becker. Tinha um sorriso vago nos lábios. Estava refletindo, sem dúvida.
– Caminhamos para a verdade, senhores – anunciou. E, depois, acrescentou: – Jesus disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” No nosso caso, ela servirá para condenar.
Olhou para mim.
Sorri.
Que sujeito esquisito! Podia ser confundido com um encanador e, no entanto... penetrava profundamente na alma das pessoas...
“Acredita, com certeza”, pensei, “que, farto de carregar a cruz, Jasper Braddock tenha assassinado Clara Carlini...”
– Vamos descansar – falou Lane.
Intervalo. Uma pausa naquele interrogatório infernal, dirigido pelo gênio dos infernos... o grão-mestre de Satanás...
Lá fora... a vida prosseguia.



CAPÍTULO QUATORZE
O DESABAFO DE JARROD RASPONE

E sinto que a eternidade
morde a minha boca,
quando eu te beijo.
Do Diário de Clara


Fiquei sentado. Os outros se levantaram e saíram.
Lembrei que, nos últimos dois dias, não havia comprado o jornal. Que estaria acontecendo com o agente secreto Phil Corrigan?
Há uns sete anos que colecionava as tiras do Corrigan. Quando adolescente, colecionara as tiras do Rip Kirby. Elas acabaram virando comida de traças.
Numa de suas histórias, Rip Kirby deslinda o roubo de um colar de esmeraldas... Lane disse que as jóias de Clara não foram roubadas... E o colar de moedas romanas...?
Os outros começaram a voltar.
A janela aberta atrás de Becker trazia até mim os ruídos do mundo que vivia lá fora. Ali dentro eram os domínios da morte.
O inspetor de polícia estava desenhando com uma esferográfica numa folha de papel amarela. Tinha a aplicação de um menino a resolver um problema de Matemática.
Tudo quanto me cercava parecia nebuloso, escuro, cheio de sombras que me faziam ficar tonto. Teria gostado de dormir e despertar de madrugada, no silêncio de meu quarto...
Procurei Gilbert Lane com a vista. Estava olhando pela janela, de costas para Becker. Que podia estar vendo na poeira de Manhattan? Possivelmente, alguma fisionomia culpada, que lhe dizia sorridente: “Fiz a coisa o melhor que pude. Mesmo assim, sei que a partida está perdida para mim.” Que rosto seria esse?
O detetive voltou-se e sorriu. Seu rosto era como uma luz no nevoeiro. Começou a passear de um lado para outro, como um sujeito que estivesse pensando no veredito...
Fiquei confuso. Aquela atmosfera de morte era sufocante.
Meu olhar pousou na srta. Ellis. Uma mulher da rua. Uma mulher que qualquer homem com alguns dólares podia possuir. Ela também estava confusa naquele ambiente. Por que as pessoas amorais experimentam, sempre, profunda repugnância por crimes e criminosos? A srta. Ellis tinha uma expressão cansada, de quem estava cansada de se deitar com homens...
Sorri com aquele pensamento... “cansada de se deitar”. Um paradoxo!
Meus pensamentos me cansaram. Olhei à minha volta. Quase todos estavam novamente sentados. Alguém saía do quarto de Clara. Era o homem dos sapatos rotos. Estremeci. Que sacrilégio! O homem foi sentar-se. Olhou-me. O seu olhar me incomodou. Qual seria a sua contribuição na reconstituição do crime?
Gilbert Lane debruçou-se sobre Becker e disse qualquer coisa ao seu ouvido. O inspetor mostrou-lhe a folha de papel amarela em que estivera desenhando. Lane estudou uma espécie de croqui, que não pude ver claramente de onde me achava. Parecia ser a planta de um quarto. Lane deixou a folha em cima da mesa e coçou o queixo, hesitando sobre se devia ou não continuar a sessão... Voltou-se, depois, para Jarrod...
Lancei uma olhadela a Marta Raspone. Ela estava observando o marido. Por que teria se casado com ele? Como era possível desejar viver em companhia de um animal como aquele? Imagino que a atração exercida por Jarrod tenha vindo de sua vitalidade, de seu aspecto viril, de seu corpo bem proporcionado, que encantava as mulheres. Raspone tinha um ar decidido que o tornava irresistível.
– Sr. Raspone, – disse Lane, – o sr. Braddock acabou de falar que o senhor entrou aqui no dia 9 de maio pela manhã e que o encontrou com Clara Carlini. É exato isso?
– É – respondeu Raspone.
– Introduziu, primeiro, a mão pela porta e viu que havia outra pessoa no apartamento?
– Não! E o senhor sabe perfeitamente disso!
Percebia-se que Raspone estava furioso.
– Possui uma capa preta? – Indagou Lane, com toda a calma.
– Sim, possuo.
– Usou-a no dia 9 de maio pela manhã?
– Usei.
– Onde está atualmente essa capa?
– Não sei.
– Como é possível isso?
– Creio que a roubaram.
– Roubaram-na?
– Sim.
– Quando?
– Na noite do dia 9.
– Por que acha que a roubaram?
– Deixei-a aqui, sobre esta cadeira, quando vim por volta das onze horas.
– Havia outra pessoa no apartamento?
– Não.
– E a srta. Carlini?
– Tinha saído. Eu soube, mais tarde, que ela fora ao restaurante e, depois, ao teatro.
– Sozinha?
– Não.
– Com quem?
– Com um amigo.
– Conhece-o?
– Não.
– Soube, mais tarde, quem era?
– Não. Clara não me disse.
– Supôs que se tratasse do sr. Braddock, não?
– Sim, não tive a menor dúvida.
– Mas ouviu o sr. Braddock dizer ter tentado comunicar-se com a srta. Carlini durante toda a noite do dia 9.
– É  mentira!
Jarrod Raspone rugia feito uma fera, fulminando Braddock com o olhar. A seguir, falou, quase aos gritos:
– Mentiu para se proteger! Sempre viveu com medo de Clara e desejava que ela morresse! Ela me disse, uma vez, que Braddock seria o único homem no mundo que não choraria, se a visse morta. Matou-a. O motivo está claro. Aproveitou minha ausência e estrangulou-a. Eu sei disso! E o senhor também sabe. Pode condená-lo ou me condenar. Para mim, dá no mesmo. Esta farsa me enoja e só serve para nos tornar ainda mais vis.
Raspone fez uma pausa, para tomar fôlego. Depois, continuou:.
– Tudo isto não passa de uma farsa! Que horror toda esta comédia macabra! Esta casa transformada num necrotério! Deus sabe que o senhor está procedendo como um imbecil. Se tivesse um pouquinho de inteligência, já devia ter me levado e deixado toda essa gente em paz. O senhor está obrigado a me escolher, se é que deseja prender alguém. Estou pronto a confessar. O senhor não vai ter muito trabalho para reunir provas que convencerão facilmente qualquer júri e o público em geral. Braddock nunca lhe dirá que entrou aqui para estrangular Clara. Por que haveria de fazê-lo? E o senhor bem sabe que nunca o poderia provar... Agora ouça: prenda-me e mande toda essa gente para casa! Clara está morta! Deixe-a descansar em paz!
Abençoei a janela. Estava molhado de suor.
Dawson respirava cada vez com maior dificuldade. Quanto ao homem dos sapatos rotos, abria o colarinho da camisa... talvez receando uma congestão. Terrivelmente pálida, Marta Raspone dava a impressão de uma estátua de sal. Lembrei-me da mulher de Lot. Becker mastigava qualquer coisa. Raspone tinha um ar perverso, as grandes mãos juntas, crispadas. Suas veias pareciam querer saltar. Receei que fosse estourar e espirrar sangue como um cano furado...
Onde diabo estava Lane?
Estava ali, parado junto a Becker. Não se movera. Sua alma tornou a me chocar. O insubstituível paletó levantado permitiu-me ver o cano de uma pistola no coldre traseiro da calça... Visão sinistra! Teria matado algum criminoso para salvar a própria pele?
Uma figura impressionante... aquele Gilbert Lane! Um rochedo plantado na terra, a desafiar os elementos!
– Vejamos, sr. Raspone... – Falou o rochedo. – Queira falar-nos de sua capa preta.
– Como disse? – Perguntou Jarrod.
– Queira falar-nos da capa que lhe roubaram. O senhor chegou aqui por volta das onze horas, não foi? Onde deixou a capa?
– Ali, sobre aquela cadeira. Já disse isso.
– Que fez, depois?
– Fui ao quarto.
– Quanto tempo ficou lá?
– Meia hora, mais ou menos. Sentei-me e comecei a ler.
– E depois?
– Resolvi sair e ficar fora toda a noite.
Raspone tinha a expressão de um menino caprichoso, malcriado. Era um homem... Um homem com o coração dilacerado pelo ciúme... Não pude conter um sorriso.
– Saiu? – Inquiriu Lane.
– Sim. Quando voltei para buscar a capa, ela havia desaparecido.
– Não tinha, por acaso, bebido qualquer coisa?
– Não. A capa não estava na cadeira onde a tinha deixado. Procurei-a por toda parte. Voltei ao quarto, mas não a encontrei.
Gilbert Lane se voltou para Braddock e falou:
– Sr. Braddock, o senhor afirmou ter visto uma capa preta... Bem, então, como se explica que o sr. Raspone tenha perdido a dele? Não seria a que o senhor viu aos pés da cama?
– Não sei – respondeu Braddock.
– Como é possível que estivesse lá? – Gritou Raspone.
Seus olhos brilhavam de raiva.
– Se soubéssemos isso, – replicou Lane, – estaríamos na pista do criminoso. Vejamos, sr. Raspone: o senhor saiu sem capa?
– Naturalmente.
– Aonde foi?
– Tomei um ônibus na Quinta Avenida e fui até o ponto final. Em seguida, voltei e sentei-me num banco, no Central Park. Estava chovendo. Fiquei molhado até os ossos.
Como Raspone deve ter sofrido com todas aquelas peças que o amor lhe pregara!
– Voltou, depois, para casa? – Quis saber o detetive.
– Sim.
– Tudo isto se está complicando cada vez mais – disse Lane, com ar de cansaço. – A culpa é minha... em parte. Sou forçado a começar de novo...
Esperto, o animal. Fazia toda a gente ficar tonta, tonta... Já não sabiam o que estavam dizendo. Tinham perdido a noção do tempo... Ele, porém, não. Sabia onde tinham estado no dia 9 de maio, pela manhã e à noite... bem como no dia 10 até o meio-dia.
Tirou o livro do bolso e abriu-o, sob o olhar furioso de Raspone.
“Tem, com certeza, naquele diário, material suficiente para confundi-los e provar que não é fácil cometer um crime no mês de maio... seja no dia 9 ou no dia 10...”
Isto não passou de um pensamento meu.
Gilbert Lane estava lendo.
Continuei pensando:
“O animal não seria capaz de dar um passo sem aquele livro... Mas, onde diabo ele o encontrou?”



CAPÍTULO QUINZE
NOVAS CONFISSÕES DE CLARA

Creio que liberdade
foi o primeiro nome
que no mundo
se deu à solidão.
Do Diário de Clara


Eis o que Gilbert Lane estava lendo:

“Quinta-feira, 9 de maio, começo da noite.
Estou na iminência de me lançar numa aventura que, no fundo, não me diverte absolutamente. São sete horas, e Jarrod me deixou sozinha. Saiu às três horas da tarde...
Vou jantar com Grenville Norden. Iremos depois ao teatro. Ele deve escolher a peça. Meu gosto pessoal me leva sempre a assistir a coisas sérias, interessantes. Isso lhe estragaria a noite. Uma mulher deve saber proporcionar ao homem com quem passeia uma noite agradável.
Grenville Norden me caiu do céu. Supunha-o em Paris, pintando seus admiráveis retratos. Nunca hei-de esquecer o meu. Uma verdadeira obra-prima, digna de qualquer museu. Aquele idiota do Miranda quase o destruiu em Estocolmo, quando soube que Norden tinha sido meu amante durante dois meses.
O telefonema de Norden foi uma surpresa para mim. Já nem me lembrava mais dele. Creio que ele não gostaria muito de saber disso... Mas qual a mulher capaz de dizer a verdade a um homem?
A leitura de Platão tem dado origem a mais de uma situação ridícula e a muitas tragédias. Já me vi numa dessas situações ridículas, num tempo em que devia tomar precauções para me defender contra um drama. Mas nunca pude resistir ao prazer de agir irrefletidamente.
A caneta precisa ser abastecida. Esta tinta violeta começa a me aborrecer. Mas não tenho outra.
Bem... Fiz um borrão em outra página. A pessoa que conseguir ler este diário, depois da minha morte, pensará que chorei.
Espero que ninguém o leia.
Eu, chorar?! Eu, que sempre fui feliz?
Acredito, às vezes, possuir um espírito livre e claro como a água que se precipita do céu... Sempre fui livre. Arranjei tudo para que assim fosse
Teria a vida me dado outras satisfações, se me tivesse casado com um homem qualquer? Teria sido boa mãe? Teria sido como a minha, que me adorava? Mas por que faço essas perguntas?
Acredito ter desfrutado melhor a vida, agindo como sempre agi. Aristóteles afirmou que o impossível faz parte do possível. Pessoalmente, o impossível me escondeu a ameaça do possível.
Quero sentar-me num restaurante e olhar demoradamente para Norden. Nada lhe direi. Espero que haja apenas uma vela, para que a luz não acuse a idade de meu companheiro. Terá envelhecido muito? Seu coração era tão moço, mantinha o pessimismo tão afastado de si! Seu rosto, entretanto, sempre pareceu o de um ermitão.
Jarrod haveria de ficar furioso, se lesse estas linhas. Veria nelas a justificativa de um crime passional...
Não sei a razão de estar pensando, nesse momento, em William Collison. Não há motivos particulares para isso. Em nenhuma ocasião, ele foi indelicado comigo. Já não posso dizer o mesmo de mim mesma. Nunca o tratei bem. Então, por que William gosta de mim? Por que deseja que eu vá com ele a Argel? A África sempre o atraiu. Creio que viveu dois anos no deserto. Sua extravagância natural até me faria crer que nasceu lá. Há momentos em que gosto dele, há também momentos em que o odeio.
Isso não passa de uma divagação.
Vou pôr aquele vestido verde claro, com raposinhas brancas. É um pouco pesado para a estação. Mas me assenta muito bem, e Norden gosta de me ver com essa cor. Foi ele que me deu o vestido, em Viena. Acabara de vender um retrato para um rico fabricante de relógios na Suíça.
Norden tinha muito talento. Possuirá ainda o mesmo talento? Ou o teria perdido, por influência de alguma mulher tola ou ambiciosa?
Quanto a Raspone, já não possui senão um resto de talento. Bem, isso não tem importância. Hei-de livrar-me dele.
Desejaria que um dos meus antigos amantes aparecesse e me levasse com ele. Refiro-me, naturalmente, a um daqueles que me fosse possível suportar e que me pudesse fazer razoavelmente feliz. Talvez Norden venha a ser esse amante. Saberei se é, depois de vê-lo.
Há ocasiões em que nada nos parece mais triste do que o futuro. Mas ainda sou moça. Ainda posso voltar à Europa e dar um concerto de canto. Espero, porém, não tornar a fazê-lo. Não seria como naqueles tempos passados.
Uma mulher pode ser jovem e não virgem. Mas precisa ser jovem para assumir um talento realmente virgem. E, às vezes, me sinto tão velha!
Não. Nada de divagações.
Vou sair. Preciso sair, fugir de Raspone, que não é capaz de me deixar. Tomarei a iniciativa.
A questão agora está no terreno da ética. Sua mulher me pediu que o devolvesse a ela. As mulheres casadas conhecem seus maridos muito mal... Até parece que Raspone irá amá-la novamente!
Ah! Estão batendo. Deve ser Norden. Tremerei um pouco, ao vê-lo. Tentará beijar-me? Ficarei tentada a devolver-lhe o beijo? Consentirei que fique comigo, se puder me livar de Jarrod?”


Gilbert Lane calou-se, fechou o livro e meteu-o outra vez no bolso.
Olhei para Raspone. Seu rosto parecia cinza. Seus olhos brilhavam como diamantes.
Jasper Braddock tinha uma expressão incrédula...
“Esses idiotas”, pensei comigo, “consideravam Clara um anjo... Eu sempre soube que ela não prestava. Não fiquei em situação ridícula.”
A porta se abriu. Deu-me a impressão de ser a porta de uma prisão. Voltei-me vagamente... Era um policial uniformizado. Um pobre diabo, típico irlandês. Tinha o quepe na mão esquerda e com a outra mão segurava alguém, que a princípio me pareceu um homem cego – seus olhos, desmesuradamente abertos, eram impressionantes; davam a impressão de que não viam. Compreendi, depois, que aquele homem tinha olhos somente para Clara Carlini. O mundo como que se abria sob seus pés. Não reagia... Tinha uma cara de artista e usava uma roupa escura. Seu rosto era uma flor branca sobre uma haste negra. Nem moço, nem velho. Devia conhecer Clara Carlini, porque sua fisionomia estampava sofrimento.
– Tenente, – disse o policial, – este é o sr. Norden. Acompanhei-o, como ordenou, até aqui.
– Estávamos à sua espera – falou Gilbert Lane. Tenha a bondade de se sentar ao lado daquele senhor, ali...
– Santo Deus! – Gemeu Grenville Norden.
Deixou-se conduzir pelo policial ao lugar indicado, junto ao homem dos sapatos rotos.
Lane trouxera mais um amante ao cenário do crime.



CAPÍTULO DEZESSEIS
O DEPOIMENTO DE GRENVILLE NORDEN

Este jeito triste
que há hoje nas coisas
veio com a chuva
caindo sobre a cidade.
Do Diário de Clara


Ouvi o tic-tac de um relógio, tocando não sei onde, tal como o zumbido de um inseto. Era meu próprio relógio. Olhei-o no pulso. Um, dois, três...
Por que aquele mutismo na sala? Teria Lane perdido a voz? Onde estava o homenzinho calvo? E a srta. Ellis... com sua beleza gasta?
– Sr. Norden, o senhor passeou com essa mulher, Clara Carlini, na noite de 9 de maio? – Indagou Lane.
– Sim – respondeu Grenville Norden, tapando o rosto com as mãos.
– Ela foi assassinada na manhã do dia 10.
– Como alguém pode assassinar uma mulher...?
– Conhece um homem chamado Jasper Braddock?
– Não.
– Conhece William Collison?
– Não.
– E Jarrod Raspone? Clara Carlini nunca lhe falou dele?
– Não. É a primeira vez que ouço esse nome.
– A que horas o senhor veio a este apartamento, na noite do dia 9?
– Às sete e meia.
– Tem certeza sobre a hora?
– Não. Mas acho que foi às sete e meia.
– É artista?
– Sim.
– A srta. Carlini foi sua amante?
– Sim. Mas aonde o senhor quer chegar? Se me disser, talvez eu possa...
– Usa capa preta, sr. Norden?
– Capa preta?
Norden achou a pergunta estranha. Olhou para Lane, com ar de estupefação. Depois, respondeu:
– Não. Não uso nem capa.
– Que foi que o senhor fez, quando veio aqui na noite de 9 de maio?
– Que foi que eu fiz?
– Sim...
– Não sei... Não sei o que responder.
– Pode dizer tudo.
– Não sei por onde começar. Não tenho história alguma para contar...
– Sempre temos uma história. Espero a sua. Conte como veio visitar Clara Carlini.
– Está bem. Vim apenas...
– Estava emocionado, não é exato?
– Sim, gostava dela.
– Bem se vê que o senhor tem uma história.
– Cheguei às sete e meia, mais ou menos. Tinha voltado de Paris. Desembarcara em Nova York ao meio-dia. Telefonei-lhe...
– Ah! Sabia o número do telefone dela?
– Não. Mas tinha o endereço. Escrevi para cá várias vezes, quando estava na Europa.
– Estou vendo – disse Lane – que se sentia contente com a idéia de tornar a vê-la...
– Sim, muito contente... E um pouco nervoso, também. Isso é uma coisa natural, quando se vai ao encontro de uma mulher que, afinal, foi...
– Que ela disse, ao vê-lo?
– Disse: “Você mudou bastante, Norden. Está mais elegante...”
– A srta. Carlini o chamava de Norden?
– Sim, raramente me chamava pelo primeiro nome.
– Quanto tempo ficou aqui, antes de irem jantar?
– Uns vinte minutos, não tenho muita certeza.
– Vinte minutos... – Repetiu Lane.
– Sim, fumamos alguns cigarros; e ofereceu-me um copo de bebida.
– Beberam?
– Apenas eu bebi. Ela nunca bebia. Nunca a vi beber.
Norden afirmou-o com uma espécie de orgulho na voz, o rosto transfigurado e os olhos brilhantes. Estava orgulhoso dela, daquela mulher maravilhosa...
– Achou-a mudada?
– Não muito. Estava mais bonita. Talvez um pouco mais gorda. Notei-lhe certo nervosismo, coisa que nunca tivera. Não parou de olhar em torno de si, como alguém que se põe à escuta...
– Ah!
– A coisa chegou a um ponto em que eu lhe falei: “Pelo amor de Deus, Clara! Que é que há? De que é que está com medo? É infeliz?”
– E que foi que ela respondeu?
– Sorriu e, enlaçando-me pelo pescoço, disse: “Quero viajar, Norden. Estou aborrecida aqui. Quero viajar!”
– Queria viajar com o senhor?
– Sim. Foi a impressão que tive. Disse-lhe que tal coisa era impossível, pois era casado. Deixei minha mulher em Paris...
– Que ela falou, então?
– Nada. Absolutamente nada. Beijou-me e, depois, murmurou: “Desejaria que fosse feliz, mas sei que não é. Bem, tire-me daqui. Sinto-me nervosa, com a impressão de que alguém está me espiando.”
– E depois?
– Foi até o quarto, a fim de pegar o casaco e a bolsa. A atmosfera era sufocante. Abri a porta e saí para o corredor. Queria respirar um ar mais puro. Acendi um cigarro, enquanto a esperava. Vi alguém aparecendo pela escada. Teria esquecido o incidente, se não fosse o crime... Vi apenas as costas do desconhecido. Usava uma capa preta, com a gola levantada. Tinha, também, um chapéu preto. Clara voltou. Como estava bonita, com o casaco sobre os ombros, com seus cabelos negros presos por uma fita... Uma verdadeira lady. E, agora, está aí, morta! Isto é horrível!
– Vamos interromper a sessão por alguns minutos – disse Gilbert Lane.
Norden começou a soluçar, com o rosto entre as mãos. Pareceu-me tão pequeno, tão frágil! Tive pena dele. Sabia-o uma boa alma. Clara o tinha amado por isso... e não por seu físico vulgar...
“Os homens são tão sentimentais quanto as mulheres”, pensei.
Também não se sentem envergonhados de chorar sobre o túmulo do amor...
Amor esto perpetuus!



CAPÍTULO DEZESSETE
AS CONTRADIÇÕES DE MARTA RASPONE

E a  chuva correndo
na vidraça é uma lágrima
que não cessa de cair.
Do Diário de Clara


Becker aparentava uma expressão calma. Ao que parecia, nada do que se passava naquele apartamento o perturbava. Devia estar pensando no jantar da noite ou se seu time predileto iria ganhar ou perder o próximo jogo. Nunca teria o pensamento concentrado no drama que estava sendo representado naquela sala, drama este bem digno de um Sófocles.
Apenas Lane parecia interessado em toda aquela tragédia. Podia-se notar isso na expressão dos seus olhos, em seus gestos, no modo como passava de vez em quando a mão pelo queixo. A verdade é que a reunião o empolgava. Fustigava sua inteligência. Vivia, enfim, naquele ambiente. À medida que eu o observava, o homem me parecia cada vez mais interessante.
Gilbert Lane estava certo de poder descobrir o assassino de Clara Carlini. E eu desejava ardentemente que o descobrisse e o mandasse para a prisão. O assassino devia estar passando maus momentos...
Norden precisava reagir e aguentar até o final. Enfim, se não fosse o culpado, voltaria para junto da esposa e dos filhos. Contaria a todos quanto se sentira aliviado por se ver livre daquela mulher... Não, não confessaria o fato à esposa. Guardaria o segredo consigo e tornaria a descobrir encanto na vida conjugal. Descobriria também o quanto as mulheres puras são um presente dos deuses, o oásis depois do inferno da areia do deserto... Norden estava se recuperando rapidamente. Entretanto, ainda dava a impressão de uma vela exposta ao sol. A máquina da Justiça o impressionava vivamente.
A maioria dos homens teme a Justiça, as leis. Por que nunca se deu isso comigo? A resposta é simples: porque a Justiça nada pode fazer contra um inocente...
Tentei deter os pensamentos, foi em vão.
– William Collison, Jarrod Rasponde, Jasper Braddock e Grenville Norden... Quatro homens que tiveram a mesma idolatria… Um deles deve ter matado Clara Carlini.
Teria alguém dito isso ou foram meus próprios pensamentos?
Pensei, também, em Marta Raspone. Mas não passava de uma pobre mulher, envolvida naquele drama de cores terrivelmente vivas. Não usara, com certeza, aquela capa preta com a gola levantada... nem o chapéu mole, igualmente negro.
De pé, diante da mesa, Gilbert Lane consultou seu relógio, aquele ridículo objeto. Não pude deixar de pensar que a cidade podia oferecer àquele rapaz um relógio decente, uma roupa nova e algumas meias.
Lane tomou, então, a palavra.
– Não viu o rosto desse tal homem, sr. Norden?
– Não.
– Viu apenas um indivíduo com uma capa preta?
– Sim. Ao perceber que havia gente no corredor, ele desceu as escadas.
– Tem vivido na Europa?
– Sim, tenho lá passado a maior parte de minha vida.
– Visitou músicos, escritores, filósofos e loucos?
– Sim.
– Viu artistas com a ilusão do gênio, não é verdade?
– Sim, frequentemente.
– Bem, – disse Lane, – o sr. Raspone deixou a capa numa cadeira, aqui, nesta sala. Isso foi na noite do dia 9... Bem, no dia 9, à noite, o sr. Norden viu uma capa preta descendo pela escada. Devemos, pois, fazer a seguinte pergunta: teria sido a capa do sr. Raspone ou outra qualquer? Sim, porque há muitas capas pretas por aí.
– É... quem sabe... – Falou Norden, com um sorriso.
Grenville Norden ainda não sabia com quem estava lidando... Seus olhos se fecharam. Devia estar recordando a cena: parado junto à porta, esperando Clara... Abriu os olhos e olhou para o corpo da morta...
– Levou a srta. Carlini para jantar? – Perguntou Lane.
– Sim. Fomos a um restaurante.
– Isso não tem importância – interrompeu Lane. – Só os detetives têm a mania de apresentar detalhes como esse, nome de lugares e horários. Foram depois ao teatro?
– Sim.
– A que horas voltaram?
– Meia-noite e meia, mais ou menos.
– Está certo de que foi a essa hora?
– Sim.
– Quanto tempo ficou no apartamento?
– Cerca de meia hora.
– Havia alguém aqui, quando voltaram?
– Não.
– Ninguém veio, antes de o senhor sair?
– Não.
– Retirou-se a uma hora?
– Sim.
– É difícil acreditar que o senhor tenha saído a uma hora, sr. Norden.
– Afirmo que saí.
Non sta nascondendo qualcosa importante?
– Não, claro que não!
– Compreende, então, Italiano?
– Um pouco.
– E Latim?
– Algumas palavras.
– Viu alguém no corredor, ao sair?
– Não.
– E lá embaixo, no vestíbulo?
– Algumas pessoas...
– Homens ou mulheres?
– Dois homens, pelo menos. Creio que havia uma mulher.
– Reparou nela?
– Não muito.
– Seria capaz de reconhecê-la, se a visse novamente?
– É possível.
– Ela acha-se aqui, no momento?
O olhar de Norden pousou sucessivamente em todas as pessoas presentes na sala. Encarou a srta. Ellis e, em seguida, a sra. Raspone.
Marta Raspone baixou a vista.
– Não sei... não sei... – Disse o pintor. – Não posso afirmar... mas creio ter visto aquela senhora...
– A senhora estava, de fato, lá embaixo, sra. Raspone? – Indagou Lane.
– Não! Não! – Respondeu Marta Raspone.
Lane olhou para o homem dos sapatos furados.
Marta Raspone baixou a boina, como para tapar os olhos.
– Sr. Myer, o senhor viu aquela senhora no vestíbulo, na manhã do dia 10 de maio? – Perguntou o detetive.
Myer respirou ruidosamente e balançou os pés.
– Claro que vi. Até falei com ela. Mas não foi a uma hora...
– Como o senhor sabe que não era uma hora?
– Bem, sou um operário, como pode ver. Trabalho à noite, faço a manutenção de elevadores. Tinha olhado o relógio... pouco antes da chegada daquela senhora. Eram cinco para as duas.
– Ah! – Fez Lane e sorriu.
O sorriso era dirigido a Norden.
O pintor ficou vermelho como uma criança surpreendida roubando frutas.
– Quer dizer, então, sr. Norden, – disse Gilbert Lane, – que o senhor saiu às duas, talvez um pouco antes..?.
– Não me lembro da hora exata – falou Norden, com voz rouca.
– Não tem importância... Isso vem provar, simplesmente, que o senhor mentiu... em vez de ser sincero. Está certo, sr. Myer, de ter reconhecido aquela senhora?
– Completamente certo. Tentou tomar o elevador. Avisei-a de que estava parado. Ela me perguntou: “Serei, então, obrigada a subir a pé?” Respondi-lhe que há outro elevador.
– Ah! O senhor lhe disse isso?
– Sim. Achei a pergunta esquisita. Devia saber que há dois elevadores. Todos os moradores sabem.
– Mas ela não mora aqui – retrucou Lane.
– Então, está explicado. Mesmo assim, ela podia ver que há outro...
– Há fatos que nos escapam, quando estamos nervosos – falou o detetive, olhando para Marta Raspone.
Olhei-a também. Suas feições estavam extremamente pálidas, como se fosse a verdadeira culpada.
– Estava no vestíbulo, às duas horas da manhã do dia 10 de maio, sra. Raspone?
Aquele Lane tinha uma paciência igual a de um tropeiro.
– Sim...
– Ah! É melhor assim... – disse Lane, com um sorriso, o mesmo sorriso de quando se achava satisfeito. Fez uma pausa e perguntou: – Até que horas ficou no edifício, sr. Myer?
– Até as quatro e dez.
– Lá embaixo, no vestíbulo?
– Não. Subi e desci no elevador várias vezes. Um dos cabos não estava funcionando bem. Deu-me trabalho para descobrir o defeito.
– Viu muita gente entrar e sair?
– Sim, várias pessoas.
– Reconhece alguém?
– Sim... Vi aquele senhor.
– Aquele ali? O sr. Raspone?
– Não sei como se chama. Mas tenho a certeza de tê-lo visto.
– A que horas?
– Às três e meia, mais ou menos. Não estou bem certo da hora.
– O sr. Raspone afirmou ter chegado às três e meia.
– Sim, e o senhor sabe perfeitamente disso! – Vociferou Raspone.
– Está bem, está bem – disse Lane, com sarcasmo. – Não notou qualquer coisa no sr. Raspone, sr. Myer?
– Estava todo molhado – respondeu Myer.
Sorriu. Um sorriso largo.
Myer, um palhaço de circo. Gilbert Lane, outro palhaço. Por que será que os palhaços se  entendem? Eu não tardaria a ser um deles... Lane me faria, também, uma série de perguntas. Detesto circos. Prefiro teatro.
– Ele usava capa e chapéu?
– Não. Também estava sem chapéu. Usava apenas paletó. Deu-me a impressão de um rato saindo de um rio.
– Vejamos... – Falou o detetive. – O sr. Norden saiu às duas horas. A sra. Raspone chegou quase à mesma hora; e o sr. Raspone, às três e meia. Quanto ao sr. Braddock, não veio, absolutamente...
Lane voltou-se para mim e olhou-me com uma expressão melancólica.
– E o senhor, sr. Collison? Onde estava?
– Não me achava em Nova York – respondi.
– Que sorte! – Exclamou o chefe de todo aquele cerimonial.
Remexeu no bolso, tirou o diário e abriu-o.
– Vamos terminar esta leitura – anunciou. – A sessão está quase no fim...
Recostei-me na cadeira. As horas se sucediam... Dentro de uma hora, disse Lane. A noite ia cair... Tudo ficaria diferente naquela sala. Acenderiam as luzes... Mais uma noite... A cidade mostraria milhares de lâmpadas, contra a tela do fundo da noite... Mais uma noite...
Fiz um esforço para ouvir, dizendo para mim mesmo: “Lane vai ler novamente o diário. É preciso ouvir. Houve um crime. Um homem de dedos longos e vigorosos... uma mulher encantadora foi estrangulada... uma camisola de nylon preta... um colar de moedas romanas... rosas vermelhas...”



CAPÍTULO DEZOITO
A MINHA HISTÓRIA

Detesto os que se consideram
desgraçados. Até no sofrimento é
é preciso haver arte.
Do Diário de Clara


“Sexta-feira, 10 de maio.
São duas horas da manhã. Acabo de despedir Norden. Ele teria ficado muito mais, de boa vontade. Devo ter despertado nele todas as recordações antigas.
Achei-o mudado. A idade não o melhorou. Ao contrário. Tenho a impressão de que se tornou um vagabundo, apesar da mulher e dos filhos...
Irradia, no entanto, uma espécie de força calma, como todo aquele que acredita no que faz. Não seria capaz de ficar com ele, embora me fizesse feliz. Acredito muito mais em Jasper Braddock.
Está chovendo. Jarrod ainda não voltou. Se voltou durante minha ausência, não deixou sinais de sua visita
Passei uma noite ótima em companhia de Norden.
Terei mudado? Toda gente muda. Ah! Algum dia, morrerei; e nem por isso o mundo deixará de girar em torno do sol.
Desejaria ler, mas me sinto cansada. Um banho quente, antes de deitar, irá me fazer bem.
Quando estiver nua, ficarei longo tempo diante do espelho. Examinarei meu corpo, para ver se nada sofreu modificações em minha aparência física. Sou tão selvagemente animal, como William Collison um dia me disse, que sou capaz de causar dois efeitos sobre os homens: ou os deixo completamente frios ou os inflamo a ponto de se tornarem perigosos depois. Foi o que aquele louco me disse. Não passa de um iconoclasta, de um filósofo impressionado com os livros de Freud, de Nietzche e de Schopenhauer. Nunca me senti à vontade com ele. Sempre me deu a impressão de um titã – não pelo físico, mas pela inteligência – descido do Olimpo.
Sabe muita coisa e lê, como num livro aberto, no coração das pessoas, especialmente no meu... Sinto que uma mulher não o pode enganar impunemente. Mas que é que me faz pensar em William Collison?
Estou contente de ter vindo escrever. Apaguei a lâmpada da sala e acendi a do quarto. Sinto necessidade, à noite, de estar banhada de luz.
Antes de voltar para o quarto, pressenti alguém no corredor. Acho que foi apenas impressão. A menos que tivesse sido outra vez aquele divertido sr. Dawson com alguma mulherzinha. Quantas mulheres deve ter encontrado? Mas sou capaz de apostar como nenhuma delas tinha alma...
São duas e quinze.
Vou tomar meu banho.
Sinto-me bastante irritada. Desejo acabar de uma vez por todas com Raspone.
Amanhã, telefonarei a Jasper Braddock. Talvez venha a ser meu último amante.
Tentarei escrever novamente, depois do banho...”


– Foi, portanto, tomar banho – disse Lane, sorridente. Voltou uma página do diário e indagou: – Era a senhora, sra. Raspone, que se achava diante da porta de entrada, quando a srta. Carlini pressentiu alguém?
– Sim. Deve ter sido eu... – Murmurou Marta Raspone.
– Quais eram suas intenções?
– Entrar no apartamento. Estava resolvida a entrar para matá-la. Não tinha cumprido a promessa de deixar Jarrod...
– Como pensava matá-la?
“Está alegre, o grande animal”, falei para mim mesmo. “Como deve achar divertido todas essas declarações contraditórias...”

Marta Raspone estava dizendo:
– Tinha um pequeno revólver na bolsa.
– Entrou no apartamento? Fez alguma tentativa para matá-la?
– Não! Juro-o, perante Deus... A porta estava fechada. Pensei em apertar o botão da campainha. Não sei o que me impediu de fazê-lo... O medo, talvez. Desejava matá-la. Tinha apenas um plano na cabeça: entrar, enfrentá-la e descarregar a arma... No entanto, afastei-me da porta. Vira um homem e uma mulher... Encostei-me à parede. Depois, saí correndo e desci as escadas o mais depressa que pude. Voltei para casa e fiquei chorando até as sete da manhã. Juro! Não entrei no apartamento! Juro!
Todos os olhares estavam cravados nela...
Gilbert Lane me pareceu mais humano, menos brincalhão. Talvez estivesse sentindo piedade da pobre mulher. Uma mulher que não hesitaria em matar a amante do marido. Era difícil saber o que ele estava pensando. Acreditaria que Marta Raspone tinha renunciado ao revólver e matado Clara com as próprias mãos?
“Lane”, disse a mim mesmo, “sabe para onde vai. Nunca deixa uma testemunha terminar a declaração. Interrompe-a a tempo e começa a interrogar outra.”
O homem tem talento...
Estava sendo uma tarde muito longa...
Ficarei, depois, em liberdade?
Quando será o enterro de Clara? Estarei presente?
Voltará Raspone para junto da mulher? Não. Será mandado para a prisão...
Gilbert Lane estava falando. Levantei os olhos do tapete e vi que seu olhar estava cravado em mim... Devia estar-me observando há algum tempo. Sorria.
– O senhor agora, sr. Collison. Conte sua história – pediu ele.
Chegara minha vez. Chegara o momento em que me faria o palhaço diante da platéia. Ficara, até então, nos bastidores... Compreendia, entretanto, que a sala exigia minha presença. Aquela sala que, até aquele instante, me observara com curiosidade. Olhei para Gilbert Lane. Sorri com toda a calma da inocência e falei:
– Minha história é simples, sr. Lane, e não tem nenhuma sensação.
– Como todas as que a precederam – retrucou o detetive.
– A minha tem, todavia, uma diferença. Não estive aqui na manhã de 10 de maio, senão às dez horas.
– Sim – concordou Lane. – Mas talvez o senhor saiba alguma coisa que ignoro. Conte tudo, para que saibamos a verdade. Queira falar de suas relações com a srta. Carlini.
– Perfeitamente. Alegro-me em poder dizer a verdade. Esta é sempre agradável a nossos ouvidos.
– Sim – murmurou Lane. – Como certas mentiras ocultas sob o manto da verdade.
Sorri e contei minha história...

Conheci Clara Carlini na primavera de 1965. Era uma tarde de abril. Estávamos na casa de um amigo. Havia muita gente culta. Gosto de artistas e filósofos... A mitologia grega é uma de minhas paixões e acho o Latim mais familiar do que o próprio Inglês. Estudei, também, a origem das línguas...
Quando conheci Clara Carlini, estava à procura da mulher misteriosa... da mulher desconhecida. Ela chegou com um gordo tenor italiano, cheio de temperamento e de
spaghetti. Foi-me apresentada por alguém – não me lembro quem –, com estas palavras:
– Clara, quero apresentar-lhe William Collison. É um louco, mas todos gostam dele...
Foi assim que conheci essa mulher assombrosa que sabia Latim e detestava a mitologia grega. Lembro-me de alguns fatos, enquanto a vejo estendida no caixão. Trajava um vestido verde com pequenas raposas brancas. Tomei-a, a princípio, por uma virgem. Quando, porém, sorriu para mim, li em seus olhos o que pensava do amor. Sabia que não era para mim. Tive-lhe receio. Ela também me temia. Éramos como um homem e uma mulher que se vigiam por cima do muro.
Um dia ela me disse:
– William, se eu começasse a amá-lo e consentisse que viesse morar comigo, você acabaria por me matar.
Perguntei-lhe o que desejava dizer com isso e respondeu:
– Você é capaz de fazer do amor um deus. Não hesitaria em sacrificar a sacerdotisa infiel.
Retruquei:
– Sim, Clara, se casasse com você ou a tomasse como amante, haveria de exigir que me fosse fiel. Não costumo respeitar as mulheres que gostam de roubar a alma de um homem, enquanto se apoderam da de outro.
Sempre discutíamos assim. Mas o muro nunca foi transposto. Clara Carlini conhecia os homens muito bem.
Durante dois anos, eu a vi com frequência. Viajo muito... mas volto sempre. Sou como uma gaivota que vai pelo mar, para depois voltar aos rochedos da costa, para meditar sobre o milagre do vôo. Meu dinheiro me permite ir e vir à vontade. Ainda possuo muito dinheiro. Penso em deixar tudo para um orfanato. Apenas as crianças são abençoadas, e desejo fazer alguma coisa por elas.
Devo ter amado Clara, embora nem sempre ela tivesse sido boa para mim. Contrariou-me bastante nos últimos dias de sua vida, e quase tive vontade de matá-la. Raspone a transformara. Como era possível tomar semelhante criatura como amante? Esse idiota, esse gênio fracassado. Para ele, Clara Carlini não passava de um instrumento de prazer. Discuti várias vezes com ela a respeito. Disse-lhe mesmo, um dia:
– Clara, se você não se livrar desse homem, eu a matarei, para livrá-la!
Isso lhe provocou riso. As mulheres mais brilhantes caem, às vezes, nas mãos de homens medíocres.
Vim vê-la numa tarde de fevereiro. Encontrei-a sozinha, chorando.
– William, – falou ela, – estou perdida! Estou deitando tudo a perder. O homem que amo deseja que lhe consagre minha vida. Que devo fazer?
– Abandone-o – respondi. – Sigo para o Cairo. Venha comigo e livre-se de uma vez por todas desse homem.
– Não! – afirmou Clara. – Isso seria apenas a repetição do que atualmente acontece. Uma repetição agravada... porque você haveria de me exigir muito mais.
Viajei sozinho para o Cairo, deixando-a entregue aos amores. Quando voltei, vim vê-la. Continuava com o mesmo homem e parecia feliz. Eu o vira uma vez e percebi que eu não lhe era simpático. Acredito que me teria assassinado de bom grado. Ao me ver, saiu, batendo a porta. Uma mentalidade de criança, invejosa de tudo o que não consegue compreender. Eu e Clara discutimos novamente. Ela me chamou de idiota e falou que nunca sentiria amor por mim. Isso foi em abril. Fiquei com ela cerca de uma hora. Depois, ficou mais amável. Até me beijou na despedida, dizendo-me:
– Sinto-me infeliz, William. Perdi o coração.
Saí e fui a uma florista. Comprei um ramo de flores. Rosas vermelhas. Mandei-as para Clara e voltei para casa. Moro numa dessas casas antigas...
No dia seguinte, meu criado me informou que Raspone desejava me ver. Recebi-o. Entrou cheio de cólera. Quando penso nele, sempre o vejo assim: blasfemando e andando de um lado para outro como uma fera enjaulada... Pensei que ele tivesse ido me proibir de remeter rosas para Clara. Pedi-lhe que se sentasse. Agradeceu o convite, falando com grosseria e afirmando
“estar vendo claramente o meu jogo”.
Considero inútil repetir tudo aquilo que Raspone me disse. Cheguei, todavia, à seguinte conclusão: estava pensando que eu tentava roubar-lhe Clara.
Farto daquilo, acabei por ameaçá-lo com um revólver que tirei de minha mesa de trabalho. Aconselhei-o a procurar a porta. Talvez lhe tivesse feito saltar os mijolos. Girou imediatamente sobre os calcanhares e saiu. Todos os homens de seu tipo são uns covardes. Era hora de partir outra vez de Nova York. Raspone tinha Clara e não a deixaria.
Embarquei no dia 6 de abril, com destino às Bermudas. Escrevi várias cartas para Clara, mas não recebi resposta. Ao cabo de algum tempo lá, fiquei aborrecido. Já não podia suportar aquelas velas brancas no porto. Calmo ou agitado, o mar me deixava nervoso. Cansei-me também dos negros, com suas fisionomias sorridentes e felizes... Aquele canto do paraíso me deixou deprimido. Voltei para Nova York.
Cheguei aqui no dia 7 de maio, mais ou menos ao meio-dia. Encontrei meu escritório e meus livros cobertos de poeira. Tentei trabalhar numa obra literária que tinha começado, mas tive de renunciar a isso. Cercado pelos mil ruídos da cidade, fui forçado a deixar o trabalho. Telefonei para Clara, mas não consegui ligação. Segui, finalmente, para minha propriedade em Stamford. Possuo, ali, uma casinha cercada de árvores, retiro ideal para repousar e tomar resoluções. Meu trabalho ficou abandonado...
No dia 10 de maio, por volta das cinco horas da manhã, peguei o automóvel e voltei para Nova York. Cheguei às sete horas, mais ou menos. Deitei-me e me levantei às nove, com uma sensação estranha, a sensação de que acontecera alguma coisa a uma pessoa conhecida. Sentia-me nervoso, irritado. Ocorreu-me a idéia de visitar Clara. Teria ela, afinal, se livrado de Raspone? Tomei um táxi na Quinta Avenida. Deixei-me cair no assento como um homem que tenta fugir à vida... Precisava comprar rosas para Clara. Pensei em deixá-las na portaria, se não a encontrasse em casa.
Desci na Broadway. Entrei numa florista e comprei umas rosas bonitas. Outro táxi me deixou à porta deste edifício. No corredor, apertei o botão da campainha, mas não obtive resposta. Esperei. Ouvi, então, o som de um piano. Compreendi que era Raspone. Fiz girar a maçaneta. A porta não estava fechada...

– Tem certeza de que não estava fechada?
A pergunta de Gilbert Lane interrompeu minha história.
– Tenho – respondi. – Do contrário não teria entrado.
Invadiu-me uma sensação de júbilo. Lane acreditava no que eu estava dizendo... Era o que se podia ler em seus olhos. Sempre acreditara na minha inocência. Sabia, desde o princípio, que eu não tinha envolvimento algum com o assassinato de Clara Carlini. Era um homem justo. Dava uma oportunidade a todos...
– Continue – pediu.
– Quando entrei, vi Raspone sentado ao piano. Tive uma acolhida desagradável. Perguntei amavelmente onde estava Clara. Respondeu que fazia horas que não a via. Tive a impressão de que me mataria, se tivesse oportunidade. Ficamos sentados, durante alguns minutos. Raspone, francamente hostil. Alguém tinha trazido, também, rosas vermelhas para Clara. Com certeza, Raspone. Não sei quanto tempo durou nossa espera. Talvez uns dez minutos. Ouvimos, de súbito, um ruído vindo do quarto. Um ruído de uma coisa que se quebrava. Raspone correu para a porta. Abriu-a. Segui-o. O vento, forte, entrava pela janela. Devia ter atirado algum objeto ao chão.
Raspone estava de joelhos... junto a Clara Carlini. Aproximei-me, com a impressão de estar tendo um pesadelo horrível. Clara... estava morta! Fora estrangulada... Pensei em Raspone e em muitas outras coisas. Reagi, ao cabo de um instante. Resolvi chamar a polícia. O senhor veio com o inspetor Becker. É só o que tenho a declarar, sr. Lane. Nada mais posso saber. Não estou tentando construir um álibi... Além do mais, diante das declarações que acabamos de ouvir, duvido até da culpabilidade de Raspone. Ele se considera culpado, mas... não estará protegendo alguém? Bem, é o senhor quem deve decidir...
Representara meu papel com toda a alma, com todo o coração...
Gilbert Lane não disse nada. Apenas tirou uma vez mais o diário do bolso.
Uma sensação de desespero e cansaço se apoderou de mim. Pensava que a leitura tinha sido concluída; os deuses, porém tinham resolvido outra coisa.
Lane recomeçou a leitura...



CAPÍTULO DEZENOVE
O HOMEM QUE VIU OS PÉS

Por que estamos sempre
nos despedindo dos
seres que amamos?
Do Diário de Clara


“Sexta- feira, 10 de maio, quatro horas da manhã.
Jarrod acaba de sair, possuído por terrível cólera, depois de fazer uma cena a respeito de Norden. Achei divertido ocultar-lhe o nome da pessoa com quem havia saído. Quando perguntou se essa pessoa tinha subido e se havia ido para a cama comigo, soltei uma gargalhada. Jarrod estava molhado até os ossos. A água lhe escorria da roupa, caindo no tapete. Seu rosto tinha uma expressão terrível. Sua palidez era completa.
Fiquei com medo, porque começou a me insultar, apertando-me a garganta, dominando-me com sua estatura. Seus olhos de louco me deixaram aterrada.
Pensei que fosse me matar. Coisa esquisita: a idéia da morte não me causou efeito algum... Talvez já tivesse pensado em que a morte daquela maneira haveria de pôr fim a uma vida infeliz. Mas nem sempre foi assim...
Depois, Jarrod repeliu-me violentamente e saiu do quarto, rogando-me pragas. Podia ter-me estrangulado com aqueles seus dedos fortes. Apesar de tudo, creio que o amo. Foram seu aspecto feroz e sua força física que me fizeram cair em seus braços, com certeza...
Aonde terá ido Jarrod? Está chovendo... Penso nele, preocupo-me em saber o que é feito dele. Será amor ou, simplesmente, o hábito? Como saber?
Vou deitar-me. Só assim poderei esquecer. A vida será diferente, quando acordar. Preciso me livrar de Jarrod. A princípio hei-de chorar um pouco, sentindo-me sozinha.
Lembro-me, de repente, do sr. Dawson... Pobre sr. Dawson! Conversou comigo ontem, dizendo timidamente que viria à noite para me falar. O que desejará ele? Talvez o infeliz alimente algum sonho erótico a meu respeito...
Estará ele confundido-me com alguma das suas conquistas? Será que ter pedido sua ajuda, para abrir a porta, encheu-o de ilusões? Virá ver-me, esta noite, conforme prometeu?
Estou deitada. Desejaria deixar o diário de lado e... dormir. Mas não tenho sono. Ficarei acordada, esperando que Jarrod volte? Que direi, quando ele chegar?
Que horas são? Cinco e vinte!
Parece que há alguém na sala. Jarrod voltou. A chuva venceu-lhe a teimosia. Deve estar molhado até a alma. Ouvi quando fechou a porta. Devagarinho... bem devagarinho. Deve estar mais calmo. Um pouco humilhado. Pensará que não quero saber dele esta noite... Ficará ali, no sofá, perto da lareira... Ficará no sofá... até que eu ponha a cabeça na porta. Poderia levantar-me e preparar um chá bem quente... Talvez isso lhe faça bem. O ruído cessou. Deve estar no sofá, zangado... O ruído novamente. Deve ter esbarrado em alguma cadeira ou na mesa. Está escuro na sala, apaguei todas as luzes. Se resolver abrir a porta, que devo fazer? Deixá-lo entrar? Sinto que o amo e que me dá medo. Quero me livrar dele, embora não lhe tenha ódio. Se tivesse dinheiro... talvez pudéssemos ir viver juntos em alguma parte.
Cheguei a um ponto em que não sei o que me pode dar prazer. É uma sensação horrível. Nada pior do que este estado de descontentamento. Provoca-nos uma certa neurastenia. A vida não passa de dor e tristeza. Se, ao menos, pudesse chorar! As lágrimas lavam a alma e tudo fica melhor.
Torno a ouvir  Jarrod na sala. Parece um gato que se aventura na escuridão... Em que estará pensando, enquanto espera que eu lhe abra a porta? Será capaz de entrar, sem que eu o chame?
Não ouço mais nada...
Lá em baixo, na rua, os automóveis correm sobre poças d’água. A lama os salpica. Ouço vagamente a chuva, bem distante, através da janela aberta.
A chuva... a tristeza da natureza chorando sobre a terra...
Jarrod deve estar perto da porta.
Que horas são? Cinco e meia.
Ainda não dormi. Nem sequer fechei os olhos. Sinto uma sensação estranha, perturbadora. A impressão de que alguém está vindo. Esse alguém não é Jarrod...
Norden? Não. Seria estranho e demasiado divertido, Norden, hesitando, querendo entrar... Que idéia estúpida! Ele não tem a chave, e a porta da frente está fechada. Eu mesma a fechei... Ou será...? Não, não pode ser. O sr. Dawson também não tem a chave de meu apartamento... mas teve oportunidade de tirar uma cópia. Deixei-o sozinho alguns minutos, tentando abrir minha porta, enquanto ia dar um telefonema na portaria do edifício. Por que estou pensando num disparate desses? O sr. Dawson! Que idéia mais absurda a minha... Deve ser Jarrod. Fez girar a maçaneta... Por que está Jarrod procedendo como uma criança?
Vou esconder o diário debaixo do colchão. Não quero que Jarrod leia uma linha, sequer, destas minhas memórias. Ninguém as lerá, antes da minha morte... e, depois, seria preferível, também, que as não lessem...”


Lane parou de ler. Olhei-o. O detetive guardou o diário no bolso. Ele sabia perfeitamente, como eu, que Clara não tinha vivido muito tempo depois de ter escondido o diário debaixo do colchão.
Alguns segundos, no máximo.
Segundos espantosos, eternos...
Perguntei a mim mesmo, com uma sensação de indiferença, por que eu havia ignorado a existência daquele pequeno livro.
Estranhei, também, que Raspone não o tivesse descoberto debaixo do colchão.
Gilbert Lane, que não conhecia Clara, o descobrira. Mas Gilbert Lane era um bruxo, um gênio! Encontrara uma coisa que ela sempre tinha ocultado aos olhos do amante e... aos meus.
“Meu Deus!”, disse comigo mesmo. “Raspone e eu somos dois estúpidos. Essa mulher estava condenada e... deixou um livro como testemunha. As últimas linhas foram escritas poucos segundos antes de sua morte... Poucos segundos mais cedo, uma mão tinha feito girar a maçaneta, abrindo a porta... O assassino vira-a deitada... com sua camisola negra...”
Olhei para Jarrod Raspone. Estava com as costas apoiadas no espaldar da cadeira. Em que estaria pensando?
Olhei para Gilbert Lane. O homem ainda não sabia a solução do problema! Organizara aquela reunião macabra na esperança de provocar uma confissão qualquer. Mas não tivera êxito algum. Trocou um olhar com Becker. Havia um sorriso nos lábios do inspetor, como se dissesse: “Eu bem lhe falei, Lane. Não poderemos sair deste atoleiro. É preciso deixar esse Raspone entre as grades. Ele não se confessou culpado? Para que lhe dar uma possibilidade de salvação?”
– Que tem para nos dizer, sr. Dawson? – Perguntou Lane, de repente, voltando-se para o homenzinho gordo, de calva brilhante, sentado a meu lado.
Pensei que o homenzinho fosse ter um ataque do coração, a julgar por suas feições.
– Bem, estou esperando... – Disse o detetive.
– Sim... sim... – Começou o sr. Dawson, girando nervosamente o botão do paletó. – Eu, queria falar com a srta. Carlini...
– E o senhor entrou aqui e a matou, não é?
– Não! Não! Eu entrei aqui. Confesso que entrei, mas não a matei! Juro por Deus que não a matei! Não poderia matá-la, estava apaixonado por ela...
Dawson escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar.
– A srta. Carlini disse que o chamou para que a ajudasse a abrir a porta... – Falou Lane.
– Sim, foi há uns vinte dias... – Informou o sr. Dawson, depois de se recuperar. – A srta. Carlini tocou a campainha de meu apartamento e disse que não conseguia abrir a porta. Enquanto eu procurava descobrir o que havia de errado com a fechadura, ela desceu, para dar um telefonema... A tentação de tirar um modelo da chave foi súbita. Fiz um molde com miolo de pão. Minutos depois, consegui abrir a fechadura... Era um parafuso da lingüeta que estava frouxo...
Ah, então, era por isso que o homenzinho estava nervoso! O insignificante sr. Dawson! O conquistador de coristas de terceira categoria... Podia ser ele quem estava às cinco e meia no living. Clara confundiu-o com Raspone... O verme a matara!
– E o senhor esteve aqui, neste apartamento, na noite do dia 9? – Indagou Gilbert Lane.
– Sim... por duas vezes. Mas, estava vazio... Não havia ninguém. Fiquei aguardando, na expectativa de ouvir a porta ser aberta. Quando isso aconteceu, por volta das onze horas, corri para cá. Abri a porta. Logo percebi que não era a srta. Carlini quem havia chegado, e sim o sr. Raspone. Vi sua capa sobre a cadeira. Por vingança, por pura vingança, peguei-a e levei-a comigo...
– Ah, foi o senhor o ladrão da capa preta?
– Sim, mas eu não matei a srta. Carlini. Juro! juro que não a matei!
– E por que não falou sobre a capa preta, quando foi interrogado?
– Medo. Se não falei, foi por puro medo. O senhor disse que, se soubesse sobre a capa preta, estaria na pista do criminoso.
Nesse instante, Gilbert Lane girou sobre os calcanhares e dirigiu o olhar para uma das pessoas sentadas na fila de cadeiras.
– A que horas o senhor deixou a garrafa de leite, sr. Smith? – Indagou.
Ah, havia também um sr. Smith na história? Não pode haver um crime, sem que haja um sr. Smith envolvido.
E o sr. Dawson? Este continuava sentado, respirando com dificuldade, mas deixara o pobre botão do paletó em paz.
Olhei para o sr. Smith. Era um homenzinho de tez bronzeada e olhos cinzentos. Ainda não tinha reparado nele. Não lhe tinha prestado a mínima atenção. Era tão insignificante quanto o próprio nome. Em seu boné, estava escrito, com letras grossas: “LEITERIA MODERNA”.
Smith era, pois, o leiteiro. O homem se agitou e, nervoso, respondeu com toda a clareza:
– Ao que me lembro, eram seis horas, mais ou menos.
– Está certo do que diz?
– Costumo deixar o leite a essa hora...
– A leiteira em que o senhor trabalha mandava sempre o leite à srta. Carlini?
– Sim, senhor.
– Deixou a garrafa de leite, aqui, na manhã do dia 10 de maio?
– Sim, senhor. Deixei também o creme. Antes, deixava tudo lá embaixo. Um dia, roubaram o leite; e a srta. Carlini se queixou ao patrão. Desde então, tinha ordem para trazer o leite aqui em cima.
– Quer dizer que estava aí na porta, às seis horas da manhã do dia 10 de maio?
– Sim, senhor.
– Que aconteceu?
– Quando eu estava curvado, colocando o leite e o creme no chão, alguém abriu a porta. Na posição em que me achava, não pude ver senão dois pés, uma calça e uma capa preta. Levantei-me. A porta tornou a se fechar, antes que eu pudesse ver quem era. Ouvi um ruído de um ferrolho ou de uma chave. Não prestei atenção ao incidente. Via sempre o sr. Raspone sair do apartamento à hora em que vinha entregar o leite...
– Conhecia, então, o sr. Raspone?
– Sim, senhor. Tive ocasião de lhe dar bom-dia cinco ou seis vezes.
– Diz ter visto os pés?
– Sim.
– Reparou alguma vez nos pés do sr. Raspone?
– Sim, senhor. Notei que eram de um tamanho regular. Sempre o vi com sapatos marrons.
– Os pés que o senhor viu pela manhã estavam usando sapatos assim?
– Não, senhor. Usavam sapatos pretos, lustrosos.
– Eram pés grandes?
– Não, senhor. Eram pequenos.
– Não seriam pés de mulher?
– Não, senhor... Bem, isto é, quem sabe... É possível...
– Sr. Smith, – disse Lane, com um sorriso pálido, – felicito-o por ter visto esses dois pés na manhã do dia 10 de maio...
– Sinto não ter visto mais algum a coisa – disse o leiteiro. – Nova York é uma cidade grande, onde não se tem tempo de reparar no que se passa em volta.
– Mas o senhor reparou nesses pés...

 

continua no próximo número