Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

PAUSA PARA O CAFÉ
Rubens Francisco Lucchetti


Neste número do Jornal do Cinema dedicado aos Irmãos Marx, nada melhor do que tomarmos um café em companhia de Groucho Marx e ouvir o que ele tem a nos dizer.

Estou certo de que não é nenhum grande segredo, assim como também sei que não é importante; porém, para a posteridade, desejo declarar que meu nome verdadeiro é Julius Henry Marx.

Só há uma coisa mais falsa que meu bigode: eu.

Meu cachorro não me dirige a palavra, desde que o mordi.

Suprimam as esposas, e não haverá mais divórcios.

Por experiência própria, recomendo a todas as pessoas que sejam ricas, inteligentes e divertidas.

As mulheres têm infinitamente mais tempo livre que os homens: elas não estão ocupadas o dia todo perseguindo mulheres.

Os filmes não me fazem justiça. Nenhuma câmera pode captar minha beleza interior.

Há políticos que fariam campanha até mesmo no necrotério.

A televisão está criando uma geração de imbecis, entre os quais estão os meus netos.

Na indústria cinematográfica, por trás de cada grande homem há uma grande mulher. E mais atrás, sua esposa.

Um segundo matrimonio é o triunfo da esperança sobre a experiência.

A Literatura, o intelecto e o bom gosto não fazem parte do american way of life.

Muita gente afirma que o casamento acaba com o romance. Eu também concordo, pois, cada vez que tenho um romance, minha mulher trata de acabar com ele.

Se praticar sexo fosse delito e os quartos do Beverly Wilshire Hotel falassem, eu já estaria condenado à prisão perpétua.

Não há dúvida de que o sexo é a força responsável pela perpetuação da raça humana. Se não existisse sexo, o Homem desapareceria em algumas décadas, o que talvez não fosse uma má idéia.

O negócio é casar com a secretária. Você economiza um salário, e ela assume mais uma função.

DIÁLOGO RÁPIDO COM UMA INGLESA

Groucho: Eileen, você fala com um sotaque estranho. As pessoas na Inglaterra notam?
Eileen: Não. Todos falam desse jeito por lá.
Groucho: É mesmo? E como conseguem se entender? Não admira que dirijam pelo lado errado da rua.

Se alguém tem uma mercearia ou um açougue e fica doente, pode contratar outra pessoa para substituí-lo. Se um ator fica doente, seus rendimentos caem imediatamente. Então, seja esperto. Não entre para o show business. Compre um poço de petróleo ou algumas centenas de hectares de mata.

Minha vida social é um tédio. Poderia ficar rico mostrando aos turistas as fachadas das casas de famosos a cujo interior nunca fui convidado.

Estou convencido de que devo ter a maioria das desgraças físicas que os comerciais de televisão garantem curar em 24 horas.

Com exceção de roupas, salões de beleza e Frank Sinatra, há poucos assuntos sobre os quais todas as mulheres estejam de acordo.

Os charutos me dão um ar mais varonil. Com um na boca, não existe possibilidade de que me confundam com  uma garota.

DIÁLOGO RÁPIDO COM UMA MÃE

Groucho: A senhora tem 22 filhos? Por que tantos?
Mãe: Adoro crianças e adoro meu marido.
Groucho: Bem, eu também adoro um charuto, mas costumo tirá-lo da boca de vez em quando.

Quando comecei no vaudeville, todos os atores roubavam coisinhas sem importância, como toalhas de hotel e pequenos tapetes. Havia, entretanto, alguns atores que roubavam qualquer coisa que pudessem colocar dentro de suas malas. Certa vez, um ator foi surpreendido levando na mala um anão que tomava parte em um número.

Diga-me: que pessoas levantam ao raiar da aurora? Policiais, bombeiros, lixeiros, motoristas de ônibus, operários... Você nunca irá ver Marilyn Monroe levantando-se às seis da manhã... A verdade é que eu não vejo Marilyn levantar-se em hora alguma, o que é uma lástima.

Li Finnegan’s Wake (de James Joyce) de frente para trás e de trás para frente. Entendi melhor de trás para frente.

Durante quase dois anos, cortejei uma dama. Então, descobri que os gostos dela eram idênticos aos meus: ela também era louca por mulheres.

DIÁLOGO RÁPIDO COM UMA MULHER

Mulher: Eu só temo que, depois de algum tempo, você conheça uma bela garota e me esqueça para sempre.
Groucho: Ora, não seja boba. Eu te escreverei duas vezes por semana.

Harpo herdou as qualidades de minha mãe: amabilidade, compreensão e cordialidade. Eu herdei o que restou.

DIÁLOGO RÁPIDO COM UMA FÃ

A Fã: Você não é Groucho Marx, a lenda viva?
Groucho: Não tenho culpa, se as outras morreram.

Quando for a um restaurante, escolha sua mesa com cuidado. Em certos casos, é bom ficar perto do banheiro. Em outros, o mais longe possível.

Detesto ter de contar quantos anos tinha quando descobri que um ginecologista é um médico que faz coisas misteriosas com mulheres (existem outras pessoas em outros caminhos da vida que também fazem coisas misteriosas com mulheres, mas ainda não consegui descobrir como eles são chamados em público).

As crianças de hoje já nascem sabendo tudo. Comigo foi diferente. Até os quatro anos de idade, nunca me passou pela cabeça que houvesse alguma diferença entre os dois sexos. Está bem, entre os sexos.

Meu pai era alfaiate. Podia não ser grande coisa na profissão. Mas  numa coisa era único: tinha horror à fita métrica. Dizia que fita métrica era para papa-defuntos. Era fácil reconhecer os fregueses de papai na vizinhança: todos tinham uma perna da calça mais curta do que a outra ou uma manga do paletó mais comprida do que a outra.

DIÁLOGO RÁPIDO COM UM CARREGADOR

Carregador: Pronto, chefe. Aí está a sua bagagem.
Groucho: Você tem troco para um dólar?
Carregador: Não, senhor.
Groucho: Nesse caso, fique com a bagagem.

Em 1959, bati um verdadeiro recorde, quando fui a 336 festas, tendo sido convidado apenas para doze.

Uma vez, quando eu estava em Nova York, ofereci um jantar para doze amigos que, segundo os jornais, estavam participando de uma convenção em Minneapolis. Mas aconteceu de os jornais estarem enganados. Apenas quatros deles tinham ido à convenção. Os outros oito vieram à minha casa e, acreditem-me, ficaram até mais revoltados do que eu com o descuido do jornalismo moderno. Não havia nada em casa, além de um pouco de comida para o gato... e eu nem sequer tinha um gato.

 
Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos